40 homens são indiciados por farra do boi
A Polícia Civil indiciou 40 homens por participação em eventos relacionados à Farra do Boi, em Governador Celso Ramos, no Litoral Norte de Santa Catarina. A prática, de raízes culturais entre descendentes açorianos, associa o boi à figura do mal e ocorre principalmente na Quaresma (período de 40 dias antes da Páscoa no cristianismo).
O grupo pode responder na Justiça pelos crimes de maus-tratos a animais e associação criminosa, após mais de um ano de investigação. No total, a Polícia Civil apurou 22 ocorrências sobre o crime, algumas que foram descobertas ao longo das apurações.
ORGANIZADORES ARRECADAVAM ‘VAQUINHAS’
Durante a investigação, a delegacia descobriu a existência de grupos organizados para a arrecadação de valores, chamadas “vaquinhas”. O dinheiro era destinado para a compra de animais e ao pagamento de advogados e de multas administrativas aplicadas aos participantes.
“A configuração de associação criminosa foi reforçada pela repetição de nomes na articulação de aquisição e transporte do animal, com rateio de valores até mesmo de prejuízos, demonstrando uma divisão de tarefas estruturada”, disse a Polícia Civil em nota.
CONTEXTO HISTÓRICO
Conforme o historiador Francisco do Vale Pereira, a figura do boi ou do touro está presente em diversas sociedades e culturas ao redor do mundo. Em Santa Catarina, segundo ele, a prática da farra do boi foi comum no passado, especialmente nas comunidades do litoral catarinense.
Pereira ressalta que essa manifestação não possui relação com a figura de Judas, mas sim com a representação simbólica do demônio ou do mal.
“Se praticava essas brincadeiras e esse grande desafio de, digamos, transportar, de identificar naquela figura do animal, a figura do demônio, do poder, do mal. A associação não é direta ao Judas, mas sim ao demônio. Não, não tem nada a ver com Judas. A malhação do Judas, inclusive, é uma tradição cristã, religiosa, de muitos povos que tem a ver exclusivamente com aquele que foi o traidor”, explica.
OPERAÇÃO QUARESMA
No fim de fevereiro, o governo de Santa Catarina lançou a Operação Quaresma na tentativa de combater a prática, que é crime conforme lei nacional, desde 1998.
Outra norma, desta vez estadual, trata especificamente sobre essa prática ilegal, a lei número 17.902/2020. Ela estabelece punições para os participantes:
* Multa de R$ 20 mil para pessoas que promoverem ou divulgarem a farra do boi;
* Multa de R$ 10 mil para participantes, comerciantes dos animais, proprietários dos veículos de transporte para a prática ou dono do imóvel onde ocorrer a farra;
* Em ambos os casos, o valor é dobrado em caso de reincidência.



