R$ 12 bi do FGTS deve manter inflação pressionada, dizem economistas
Apreensão não está no tamanho do montante — bastante abaixo de outros valores
injetados na economia recentemente, como o pagamento do 13º salário —, mas na
sinalização do afrouxamento do controle de gastos pelo governo federal
A medida provisória (MP) que altera regras do saque-aniversário para destravar
R$ 12 bilhões em recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) deve
beneficiar entre 8 milhões e 10 milhões de brasileiros, segundo estimativas do
governo.
A expectativa é que o documento seja assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula
da Silva (PT) nesta quarta-feira (26).
A injeção dos valores na economia chama a atenção de especialistas, sobretudo no
atual cenário de inflação pressionada e sem expectativas de redução, do mercado
e do próprio Ministério da Fazenda, ao menos até o fim do primeiro semestre deste ano.
“Quando a gente fala em R$ 12 bilhões, parece muito significativo, mas é
fragmentado. Para consumo, propriamente dito, o impacto é quase nulo. A maioria
das pessoas deixa lá no FGTS a título de poupança, mas, e geral, eles vão usar
esse bônus para pagar dívidas”, pondera Alex Agostini, economista-chefe da
Austin Rating.
O Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese)
estima que o pagamento tenha injetado R$ 321,4 bilhões na economia brasileira em
2024.
“É bem menos do que o pagamento do 13º no total do ano [passado], mas o problema
é o conjunto de ideias que o governo tem tido para estimular a economia. O
momento é equivocado por causa dos efeitos negativos que isso pode ter”, diz
Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados.
O anúncio de novos gastos do governo federal sem a origem dos recursos é um dos
temores do mercado.
Na véspera, Lula confirmou o pagamento do programa Pé-de-Meia aos estudantes
beneficiários do programa a partir desta terça (25), mesmo com os valores fora
do Orçamento previsto para 2025.
O economista-chefe da MB Associados também aponta para o lançamento de uma nova
modalidade de crédito consignado para trabalhadores do setor privado, que também
deve ser anunciado nos próximos dias.
O e-consignado será liberado para trabalhadores do regime CLT, com a garantia de que, ao menos inicialmente, o processo de pagamento será feito
com base em informações do eSocial, a plataforma que já centraliza a folha de
pagamento do trabalhador.