Os novos judeus do Nordeste que redefinem a religião no Brasil e chamam atenção de Israel
Milhares de brasileiros que se dizem descendentes de judeus forçados a abandonar a fé séculos atrás estão retornando à religião; movimento repercute no mundo político em Israel, mas também enfrenta resistências em comunidades judaicas tradicionais.
Instituto israelense estima que 30 mil brasileiros com ancestralidade judaica já retornaram ao judaísmo — Foto: Felix Lima/BBC
Em Messejana, bairro pobre na periferia de Fortaleza, capital do Ceará, uma construção de tijolinhos com estrelas de Davi e candelabros na fachada destoa das casas vizinhas.
Antes de virar a sinagoga Beitel, em 2014, o edifício abrigava uma igreja evangélica que foi se tornando “cada vez mais judaica”, conta Flávio Santos, um dos líderes da comunidade e seu cantor litúrgico.
Negro e criado em uma família evangélica, Flávio personifica a jornada de vários bnei anussim — expressão que significa “os filhos dos forçados” em hebraico e se refere aos judeus compelidos a se converter ao cristianismo na Península Ibérica, no século 15.
Os bnei anussim dizem ter laços sanguíneos com esses judeus de origem ibérica, também chamados de judeus sefarditas ou sefaradim. Ao serem convertidos à força pela Inquisição, passaram a ser conhecidos como cristãos-novos.
Vários séculos depois, milhares de seus descendentes estão retornando ao judaísmo — um movimento com epicentro em bairros periféricos e pequenas cidades da região Nordeste.
Como resultado, judeus convertidos fundaram nos últimos anos várias sinagogas Brasil afora, muitas delas em locais sem qualquer presença judaica até então.
O movimento já produz efeitos em Israel, onde parte desses convertidos passou a viver e até a servir no Exército, mas também vem enfrentando resistências em algumas comunidades judaicas tradicionais brasileiras.
A história é contada no documentário Os novos judeus do Nordeste: a tribo perdida do sertão, disponível no canal da BBC News Brasil no YouTube, resultado de uma expedição que percorreu mais de mil quilômetros em quatro Estados para retratar este fenômeno.
DE EVANGÉLICO A JUDEU
Flávio Santos diz que, em seus primórdios, a igreja evangélica em Messejana que viraria a sinagoga Beitel dava grande ênfase ao Antigo Testamento.
Depois, a comunidade aderiu ao judaísmo messiânico, que combina práticas judaicas com a adoração a Jesus, mas não é considerado parte do judaísmo pela maioria dos rabinos.
Até que, por volta de 2018, o grupo abandonou a fé em Cristo e aderiu ao judaísmo ortodoxo, corrente que eles consideram mais próxima da religião praticada nos tempos bíblicos.
Flávio diz que, para boa parte da comunidade, a adesão ao judaísmo significou um regresso à fé de seus antepassados. Como ele, muitos na sinagoga dizem ter descoberto vínculos com o judaísmo ao estudarem a história de suas famílias, montarem suas árvores genealógicas ou fazerem testes genéticos.
Flávio, no caso, diz ter percebido possíveis laços familiares com a religião ao analisar práticas de uma avó nascida no interior de Alagoas, como o costume de se banhar na sexta-feira à tarde e a recusa dela em apontar para estrelas com os dedos.
Para ele e outros bnei anussim, a primeira prática é uma reminiscência dos preparos para o shabat, o dia sagrado do judaísmo, enquanto o segundo estaria ligado ao medo que judeus tinham de serem denunciados durante a Inquisição, já que o aparecimento das estrelas marcava o fim do shabat.
Cerimônia religiosa na sinagoga Beitel, em Messejana, na periferia de Fortaleza
A avó dele, porém, se definia como cristã e desconhecia qualquer vínculo com o judaísmo — algo que Flávio atribui aos séculos de repressão contra a religião.
Hoje, segundo ele, a sinagoga tem 45 membros já convertidos. Os trabalhos religiosos são orientados à distância por um rabino de Israel.
O movimento de retorno ao judaísmo no Nordeste teve seus primeiros capítulos nos anos 1960, quando pessoas nascidas católicas passaram a reivindicar laços sanguíneos e culturais com a religião e a frequentar sinagogas em cidades como Recife e Natal.
Os pioneiros do movimento eram conhecidos como “marranos”, antiga alcunha pejorativa que significa “porcos”, em espanhol, mas foi apropriada pelo grupo.
A novidade dos últimos anos é o surgimento de várias comunidades formadas só por judeus convertidos e a grande presença de ex-evangélicos entre seus membros.
No Recife, a tradicional Synagoga Israelita, fundada em 1926 por judeus do Leste Europeu e que foi frequentada pela família da escritora Clarice Lispector, hoje é dirigida e frequentada quase exclusivamente por bnei anussim.
O fenômeno coincide com uma aproximação cada vez maior entre igrejas evangélicas e Israel e com a popularização de testes genéticos, que têm apontado ancestralidade judaica em muitos brasileiros.
O movimento ocorre ainda em meio à explosão de cursos online sobre judaísmo e o papel de judeus e cristãos-novos na história do Brasil.
Filme relembra história e contribuições do povo judeu para Pernambuco
QUANTOS JUDEUS HÁ NO BRASIL?
Não há dados oficiais sobre a quantidade de convertidos ao judaísmo no Brasil, e o último Censo, de 2022, não apresentou informações sobre judeus em seu levantamento sobre religiões.
O Censo anterior, de 2010, contabilizou 107 mil, e a Confederação Israelita do Brasil (Conib) estima em 120 mil.
Há indícios, porém, de que o número esteja aumentando. Em 2021, uma pesquisa do Samuel Neamen Institute, um centro de estudos de Israel, estimou que 30 mil bnei anussim brasileiros se converteram ao judaísmo nos últimos anos.
Segundo a pesquisa, há ainda 4 milhões de brasileiros com ancestralidade judaica que poderiam se enquadrar na categoria bnei anussim, mas ainda não se converteram.
Para o escritor pernambucano Jacques Ribemboim, autor de livros sobre a história do judaísmo no Nordeste, o número de nordestinos com antepassados judeus pode ser ainda maior e superar até a população de Israel, de 10 milhões de habitantes.
Judia na Synagoga Israelita do Recife, hoje frequentada quase exclusivamente pela comunidade bnei anussim
“É um fenômeno extraordinário”, acrescenta o escritor, ele próprio judeu, mas do ramo asquenazi, da Europa Oriental.
CONVERTIDOS NO EXÉRCITO ISRAELENSE
Quando a BBC News Brasil esteve na sinagoga de Messejana, havia um visitante de destaque: um antigo membro da comunidade que hoje mora em Israel e é soldado do Exército israelense.
De férias no Brasil, o jovem não quis falar sobre a atuação como militar e pediu para não ter a identidade revelada, citando preocupações com a segurança.
Em uma rápida conversa, disse ter se convertido ao judaísmo há poucos anos e obtido a cidadania israelense por meio da aliá — nome do processo legal pelo qual qualquer judeu pode se tornar cidadão do país.
Membros da sinagoga afirmaram que há ainda outro ex-frequentador que hoje é militar em Israel. “Eles servem ao Estado de Israel, mas, mais que isso, servem ao povo judeu como um todo”, afirma Flávio Santos, o cantor litúrgico da sinagoga.
Questionado sobre críticas de que Israel usaria uma força desproporcional em Gaza, Santos atribuiu a responsabilidade pela guerra ao Hamas por ter atacado o território israelense, em 7 de outubro de 2023.
Cerca de 1,2 mil pessoas morreram no ataque do Hamas e outras 257 foram sequestradas. Já na resposta israelense morreram mais de 60 mil palestinos, incluindo 18,5 mil crianças e 9,8 mil mulheres, segundo o Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas.
Em Tibau (RN), primeiras conversões ao judaísmo ocorreram em 2016
MUDANÇA DE PAÍS (E DE NOME)
Há casos de famílias inteiras de judeus convertidos nordestinos que hoje vivem em Israel, embora a maioria das pessoas migre sozinha.
Uma antiga frequentadora da sinagoga em Messejana que hoje mora em Israel é Shoshana Lima, de 25 anos.
Formada em Jornalismo na Universidade Federal do Ceará, ela visitou a sinagoga pela primeira vez em 2022 e se converteu no ano seguinte. Meses depois, mudou-se sozinha para Israel e se tornou israelense neste ano.
Shoshana diz que jamais soube de qualquer vínculo familiar com o judaísmo e que “se sentiu em casa” ao visitar a sinagoga pela primeira vez, em um momento em que estava em busca de uma religião e de “pertencer a uma comunidade”.
Ao migrar para Israel, a jovem teve a opção de trocar de nome. Ela escolheu Shoshana — que significa “rosa” ou “lírio” em hebraico — e abandonou o anterior, Suyane.
Em Israel, onde pretende se casar e trabalhar na área de tecnologia, Shoshana diz ter vivenciado uma liberdade inédita: “Não preciso explicar para ninguém por que eu não toco um homem ou por que uso as roupas que uso”.
Indagada sobre a decisão de se tornar israelense em um momento em que Israel é acusado por vários países de promover um genocídio em Gaza — acusação refutada pelo governo israelense —, ela afirma que boa parte do mundo tem uma visão maniqueísta sobre o conflito.
Em sua visão, Israel está agindo para evitar um novo ataque do Hamas. “Espero que haja paz, mas as pessoas precisam parar de ver essa guerra como preto no branco.”
ERA DE OURO DO JUDAÍSMO
Engana-se, porém, quem pensa haver unidade política e um alinhamento automático entre os bnei anussim e o governo israelense.
O historiador Aldrey Ribeiro, de 31 anos, é o líder da sinagoga Branca Dias, fundada por judeus convertidos em Campina Grande, no interior da Paraíba.
O nome da sinagoga homenageia a luso-brasileira Branca Dias, condenada pela Inquisição por praticar o judaísmo em Olinda.
Para Aldrey, os palestinos também devem ter seu próprio Estado — uma posição que é rejeitada pelo governo de Israel e é minoritária entre a população israelense, segundo pesquisas recentes.
Ele diz ainda que metade de sua congregação tem posições de esquerda, e a outra metade, de direita — o que não é um problema para o grupo.
Para Aldrey, os bnei anussim são herdeiros da “era de ouro do judaísmo”, período em que judeus, cristãos e muçulmanos conviviam na Península Ibérica antes da Inquisição.
“Foi a época em que o judaísmo mais floresceu nas artes, nas ciências e na poesia, e o segredo para isso era saber dialogar com o outro”, afirma o historiador.
“Por carregar essa herança, nós, bnei anussim, sabemos conviver com diferenças.”
Aldrey afirma ainda que, ao investigar o passado de sua família, fez testes de DNA que detectaram genes comuns entre populações judaicas e que, ao montar sua árvore genealógica, descobriu ser descendente de um rabino que viveu na Espanha no século 15.
Para ele, o retorno dos bnei anussim ao judaísmo é uma “reparação histórica”.
“A possibilidade de ser judeu foi roubada da gente, e isso é muito dolorido”, diz.