ÁUDIO flagra reclamação de prefeito preso por corrupção a fornecedor: ‘R$ 10 mil
não dá pra nada, isso não é cartão de crédito de prefeito’
Gravação interceptada pelo Ministério Público mostra prefeito de Turilândia
usando cartão de empresa contratada pela prefeitura; investigação aponta esquema
de R$ 56 milhões que levou à prisão de toda a cúpula do Executivo e do
Legislativo da cidade no MA.
Turilândia, a cidade administrada por um preso
[https://s02.video.glbimg.com/x240/14226577.jpg]
Turilândia, a cidade administrada por um preso
Um áudio interceptado pelo Ministério Público do Maranhão mostra o prefeito de
Turilândia, no interior do estado, reclamando do limite do cartão de crédito de
uma empresa contratada pela prefeitura. Na gravação, Paulo Curió ironiza o valor
disponível e sugere que a quantia não condiz com o cargo que ocupava.
“Dez mil reais não dá pra nada… Isso não é cartão de crédito de prefeito, não. É
fraco”, diz Paulo Curió no áudio enviado a um fornecedor.
A gravação integra o conjunto de provas de uma investigação que, segundo o MP,
revelou um esquema de corrupção responsável por desviar ao menos R$ 56 milhões
dos cofres públicos do município.
[DE.globo.com/fantastico/noticia/2026/01/04/o-esquema-que-levou-a-prisao-do-prefeito-vice-e-de-toda-camara-dos-vereadores-em-cidade-no-interior-do-maranhao.ghtml]
Veja acima na reportagem do Fantástico.
1 de 1 MP flagra áudio de prefeito reclamando de cartão de crédito cedido por
fornecedor — Foto: Reprodução / Fantástico
MP flagra áudio de prefeito reclamando de cartão de crédito cedido por
fornecedor — Foto: Reprodução / Fantástico
A Prefeitura de Turilândia, no interior do Maranhão, estava de portões abertos
no primeiro dia útil do ano. Mas a cena não significava normalidade: dentro do
prédio, quase ninguém trabalhava.
Questionado pela reportagem do Fantástico por que o prédio estava tão vazio, um
vigia confirmou o esvaziamento.
“Só tem eu mesmo”, disse o funcionário.
Na Câmara de Vereadores, o silêncio foi parecido. Ao serem abordados,
funcionários evitaram falar e deixaram o local às pressas.
A cidade sentia os efeitos de uma operação que abalou completamente a estrutura
de poder do município.
Na semana do Natal, o Ministério Público prendeu os chefes do Executivo e todo o
Legislativo de Turilândia: o prefeito Paulo Curió, a primeira-dama Eva Curió, a
ex-vice-prefeita Janaína Soares Lima e os onze vereadores da cidade. Ao todo, 21
pessoas foram presas.
Segundo o MP, o grupo desviou pelo menos R$ 56 milhões dos cofres públicos. O
esquema teria começado em 2021, quando Paulo Curió foi eleito pela primeira vez.
As investigações apontam um sistema organizado de corrupção, com empresas de
fachada, notas fiscais frias, propina e fraudes em licitações. O promotor
Fernando Berniz, do Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações
Criminosas (Gaeco) do Maranhão, afirma que o problema era generalizado.
“Um dado interessante e relevante, dito pela própria pregoeira, é que 95% das
licitações daquele município eram fraudadas”, disse.
Em uma das mensagens interceptadas, a pregoeira cobra do prefeito uma
“recompensa” pela fraude em uma licitação — entre os pedidos, uma caneta
emagrecedora.
“Ei, chefe, boa tarde… Para o senhor me dar mesmo meu Monjauro e meu presente de
Natal”, diz a mulher no áudio. Em seguida, ela avisa que a licitação de uma
estrada vicinal seria “fracassada”, como combinado.
De acordo com o Ministério Público, empresários envolvidos no esquema recebiam
até 18% do valor dos contratos por serviços que não eram prestados. Três por
cento ficariam com o ex-controlador geral do município, Wandson Barros, apontado
como operador financeiro. O restante voltava para o prefeito.
Durante a operação, a polícia apreendeu grandes quantidades de dinheiro em
espécie. Também chamou a atenção o patrimônio do casal Curió. Uma das casas,
luxuosa, tem móveis modernos e academia. A mais cara fica em São Luís, avaliada
em R$ 3 milhões e 700 mil — imóvel que teve a porta arrombada durante a ação.
Segundo o MP, a casa foi comprada com dinheiro emprestado por um agiota que
também é neurocirurgião.
“Havia um profissional da medicina que emprestava dinheiro para pagamento de
campanha, dívidas de campanha e aquisição de bens. Parte do dinheiro que entrava
no município foi utilizada para pagar essas parcelas”, afirmou o promotor.
ÁUDIOS REVELAM DESVIOS
Mensagens de áudio mostram o prefeito usando o cartão de crédito de uma empresa
contratada pela prefeitura. Em uma das mensagens, ele reclama do limite.
“Dez mil reais não dá pra nada… Isso não é cartão de crédito de prefeito, não. É
fraco”, diz.
Em outro áudio, Paulo Curió fala em “sobras” mensais de dinheiro desviado.
“A gente vai ter uma sobra aí mensal… de uns dois a dois e meio”, afirma.
Valor semelhante ao que, segundo o MP, foi distribuído aos vereadores para
garantir a omissão da fiscalização: R$ 2,3 milhões.
“Ele pagava propinas para todos os vereadores, oposição e situação, para que
deixassem de fazer alguma coisa”, explicou Fernando Berniz.
ORIGEM DA FRAUDE
A investigação aponta que tudo começou em um posto de combustíveis pertencente à
ex-vice-prefeita e ao marido dela. No papel, a prefeitura comprava milhões de
reais em combustível. Na prática, o volume não correspondia ao consumo.
O posto teve 58 contratos com o município e recebeu mais de R$ 17 milhões desde
2021.
“Detectamos uma grande quantidade de notas fiscais emitidas para combustíveis
que não foram adquiridos”, disse o promotor.
Segundo o MP, o volume registrado permitiria que cada um dos dez carros da
prefeitura rodasse 790 quilômetros por dia — o equivalente a uma viagem diária
de ida e volta entre São Luís e Porto Alegre.
Enquanto o dinheiro público desaparecia em contratos fictícios, a realidade da
cidade seguia marcada pela pobreza. Dados do IBGE mostram que três em cada
quatro moradores vivem sem esgoto adequado.
“Tem muitas carências. Aqui a maior parte do pessoal é tudo carente”, disse um
morador.
Durante toda a gravação da reportagem do Fantástico, apoiadores do prefeito
acompanharam a equipe de perto — em carros, motos e até a pé. Houve buzinaços e
intimidação, inclusive na visita ao hospital da cidade, que funciona, mas foi
majoritariamente financiado pelo governo do estado.
Sem prefeito, vice-prefeita e vereadores, a Justiça adotou uma solução inusitada
para evitar a paralisação da cidade: os vereadores despacham em prisão
domiciliar. Monitorados, não podem falar entre si, salvo em caso de decisões
urgentes.
“Se houver necessidade de se reunirem para decidir algum projeto ou medida
urgente, há essa possibilidade”, explicou o procurador-geral de Justiça do
Maranhão, Danilo de Castro.
O QUE DIZEM AS DEFESAS
A defesa de Paulo Curió e da primeira-dama afirmou que ambos estão à disposição
para esclarecimentos e confiam no respeito às garantias constitucionais. A
defesa do ex-controlador Wandson Barros disse acreditar que a análise imparcial
dos fatos levará ao reconhecimento da inocência dele. Os demais citados não se
manifestaram.
Para o Ministério Público, o caso revela um retrato cruel. “É literalmente
aviltante”, disse o promotor Fernando Berniz.
“O dinheiro que era para saneamento, saúde e educação estava sendo desviado para
o deleite pessoal.”
Uma moradora resume o sentimento da cidade:
“Muito errado. Uma cidadezinha humilde assim…”
“E o que eles não têm?”, perguntou o repórter.
“Vergonha”, respondeu ela, rindo sem humor.




