Comunidades no RS criam dicionário pós-enchentes para enfrentar mudanças climáticas

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Comunidades atingidas por enchentes no RS criam dicionário para ressignificar palavras e enfrentar mudanças climáticas

Projeto liderado pela Cáritas reúne moradores de Cruzeiro do Sul e Canoas e transforma vivências da enchente em um livro com novas definições.

Comunidades atingidas por enchentes criam dicionário para ressignificar palavras

Comunidades atingidas pelas enchentes no Rio Grande do Sul decidiram transformar a própria experiência em palavras e criar um dicionário com novos significados para termos marcados pela tragédia.

A iniciativa reúne moradores da zona rural de Cruzeiro do Sul e de Canoas e resultou na produção de um livro que mistura memória, dor, afeto e resistência diante das mudanças climáticas.

No dicionário criado pelo grupo, palavras comuns ganham sentidos construídos a partir da vivência. “Milagre”, por exemplo, deixou de ser o “acontecimento extraordinário” definido nos livros para significar “poder sentir que se segue vivo(a) depois de tantos dias de ameaças pela situação de ser levado pelas águas”.

Ao todo, 60 palavras foram redefinidas por moradores que tiveram suas casas e rotinas impactadas pelas cheias. O projeto é idealizado pela Cáritas, grupo humanitário da Igreja Católica, a partir de encontros com famílias atingidas.

> “Foram sendo realizadas várias atividades com um grupo de mulheres e com as famílias. A cada encontro apareciam palavras muito fortes, que diziam o que estava acontecendo”, explicou Marilene Maia, assessora regional do RS da Cáritas Brasileira.

Comunidades atingidas por enchentes criaram dicionário para ressignificar palavras e enfrentar mudanças climáticas — Foto: Reprodução/RBS TV

Batizado de “Dicionário das Comunidades para o Enfrentamento às Mudanças Climáticas”, o livro foi construído de forma coletiva. Enquanto os adultos propuseram as palavras e significados, as crianças participaram por meio de desenhos.

As ilustrações são de alunos da Escola Estadual de Ensino Fundamental Itaipava Ramos: “O projeto trouxe alegria de novo para eles. Em forma de livro, puderam colocar no papel o que estavam sentindo”, contou Maria Eloisa Schossler de Freitas, diretora da escola.

Cerca de mil exemplares do dicionário foram impressos e distribuídos às famílias participantes e parceiros do projeto. Em Cruzeiro do Sul, mais de 300 famílias das comunidades de São Miguel e Maravalha, fortemente atingidas pela enchente, participaram da iniciativa. Muitas delas precisaram deixar suas casas.

Para a professora Jaciele Carine Rugeri, o livro vai além do registro da tragédia. “O dicionário faz memória, é um instrumento de comunicação e de conscientização. Foi um estímulo para se fortalecer e entender a importância das políticas públicas de prevenção”, afirmou.

O projeto também teve impacto afetivo nas famílias. “Eles conseguiram colocar no papel a tradução do sentimento deles. É uma construção muito bonita como comunidade”, disse Jaciele.

Para a educadora social Arlete Solene da Rosa, líder comunitária, o dicionário se tornou um marco. “É algo concreto, construído por nós. Vai ficar para lembrar o que aconteceu e como devemos agir daqui para frente para que não aconteça de novo”, destacou.

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