Guilherme Arantes demole fronteiras do tempo no universo particular do amoroso álbum ‘Interdimensional’.
Artista apresenta inspirada safra de músicas inéditas que cruzam referências dos 50 anos de carreira solo do cantor, um dos grandes artesãos do pop brasileiro.
Guilherme Arantes apresenta dez músicas inéditas ao longo das 15 faixas do álbum ‘Interdimensional’ — Foto: Leo Aversa / Divulgação
♫ CRÍTICA DE ÁLBUM
Título: Interdimensional
Artista: Guilherme Arantes
Cotação: ★ ★ ★ ★
Aos 50 anos de carreira solo, completados em 2026, Guilherme Arantes nada mais tem a provar a ninguém. Ainda assim, mesmo já tendo lugar garantido no panteão dos grandes artesãos da canção brasileira de todos os tempos, o artista paulistano parece querer provar que a chama da criação ainda arde.
“Interdimensional” – álbum autoral de músicas inéditas que Arantes apresenta hoje, 15 de janeiro, em edição digital e nos formatos físicos de LP duplo e CD – atesta que o pulso do compositor ainda pulsa. Forte.
Ao longo de 15 faixas que combinam 10 músicas inéditas e cinco regravações de canções recentes fornecidas pelo compositor para o grupo Boca Livre e para as cantoras Alaíde Costa, Claudette Soares e Gal Costa, Arantes derruba as fronteiras do tempo ao cruzar referências eternas no universo particular de repertório que apresenta algumas pérolas.
O brilho melódico da valsa “Luar de prata” – que parece ecoar tanto Ernesto Nazareth quanto Francis Hime – atinge o sublime em feat de Arantes com Mônica Salmaso em gravação que também evoca Pixinguinha no sopro das flautas de Teco Cardoso.
“Luar de prata” por si só já justificaria a existência do álbum “Interdimensional”. Mas há muito mais no álbum anunciado em 9 de dezembro com a pegada black do single “Libido da alma”. Canção que prega a força do amor como arma pacífica e antídoto para diluir o ódio propagado nos tribunais das redes sociais, “Minúcias” provoca alumbramento quando entra no refrão.
“Interdimensional” é álbum mais coeso do que o antecessor “A desordem dos templários” e também mais identificado com a estética sonora plural deste cantor, compositor e músico, mago das teclas.
Basta ouvir “Enredo de romance” para detectar a tentativa de emular o pop feito pelo próprio Arantes entre a segunda metade dos anos 1970 e o início dos anos 1980, década de explosão pop cuja fagulha inicial foi disparada anonimamente por Arantes como parceiro não creditado de Júlio Barroso em “Perdidos na selva”, hit de festival de 1981.
Jamais procurando soar moderno, talvez por já se perceber eterno pela perenidade da obra, Guilherme Arantes fez de “Interdimensional” um álbum atemporal que já abre com bela balada de arquitetura clássica, “A vida vale a pena (I believe in love)”, adornada com piano e cordas.
A letra é de Nelson Motta, único parceiro de Arantes na safra 2026, e resume a ideologia de álbum que endeusa o amor com a alma romântica que orbita luminosa entre os timbres espaciais da balada “Intergaláctica: missão”. O espírito romântico do artista também anima a verborragia de “No mel dos seus olhos”, tentativa menos aliciante de cruzar referências do pop dos anos 1980 e da MPB da década de 1990. Nem o falso final valoriza a faixa.
Capa do álbum ‘Interdimensional’, de Guilherme Arantes — Foto: Leo Aversa
Álbum longo para os atuais padrões do mercado fonográfico, com mais de uma hora e várias faixas que ultrapassam quatro ou mesmo cinco minutos, “Interdimensional” também reverbera o rock que norteou o som de Arantes nos anos 1970, sobretudo na fase em que integrou o grupo Moto Perpétuo, cujo som progressivo ecoa no tema instrumental “50 anos-luz”, cujo nome batiza a turnê retrospectiva que o cantor estreará em março.
“Sob o sol” se assenta sobre a textura roqueira do trio composto por Luiz Carlini (guitarra), Willy Verdaguer (baixo) e Gabriel Martini (bateria). Já “O espelho” reflete o apreço de Arantes pelo eletropop dos ingleses Dave Stewart e Vince Clarke.
Dentre as abordagens das músicas já conhecidas, a arrebatada balada “O prazer de viver para mim é você” (2024) – apresentada em feat do compositor com Claudette Soares – é rebobinada na gravação solo lançada por Arantes em julho 2024, com mixagem inédita, e em registro instrumental que evidencia o refinamento da melodia.
Já “Puro sangue (Libelo do perdão)” ressurge pretensamente épica em gravação de quase sete minutos feita sem a fluência do registro original de Gal Costa no álbum “A pele do futuro”. Assim como a onírica balada “Toda felicidade” reaparece menos atraente com o autor do que na gravação do Boca Livre para o álbum “Rasgamundo”. Algo se perdeu.
Em contrapartida, o acalanto “Berceuse” – apresentado por Alaíde Costa no álbum “O que meus calos dizem sobre mim” – alcança a dimensão plena nessa gravação feita por Guilherme Arantes com piano e as cordas regidas pelo maestro Jaques Morelenbaum, valorizando tema inspirado na obra do compositor Gabriel Fauré.
Enfim, Guilherme Arantes já nada precisa provar, mas, ainda assim, ele prova com este belo álbum “Interdimensional” que o tempo do artista é ontem, hoje e amanhã pela permanência e relevância de um cancioneiro que já se mostra perpétuo pela pureza que rege a criação do compositor.
Guilherme Arantes faz feat com Mônica Salmaso na valsa ‘Luar de prata’, destaque da safra autoral do álbum ‘Interdimensional’ — Foto: Leo Aversa / Divulgação




