A história do chope no Brasil: da corte portuguesa ao ‘borogodó’ carioca – uma imersão na cultura cervejeira nacional

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A história do chope no Brasil: como bebida trocou os modos europeus pelo
‘borogodó’ carioca

Trazida por europeus, cerveja não pasteurizada e tirada na hora virou ícone
nacional — e com um modo à brasileira de consumir.

Os cariocas elegeram o chope como parte de um modo de vida que inclui
bate-papo com amigos, convívio com vizinhos, paquera e torcida pelo time do
coração — Foto: Getty Images via DE

Entre brasileiros, a palavra mágica é transmitida de geração em geração.

“Vou tomar um chopp e já volto”, diz o Chefe de Polícia, personagem de O Império
da Lei, peça satírica em três atos publicada pelo jornal Gazeta de Notícias, do
Rio de Janeiro, em 1883.

“Garçom, uma cerveja / Só tem chope”, cantou a banda Blitz em Você não soube me
amar, quase um século depois.

A bebida citada no texto teatral do século 19 e no rock’n’roll do século 20 é a
mesmíssima: cerveja não pasteurizada e tirada na hora, sob pressão.

As características variam: clara ou escura, com ou sem colarinho de espuma.

Uma única regra não escrita, mas sagrada em qualquer botequim do território
nacional, deve ser observada. O chope deve ser servido estupidamente gelado, com
as quantidades certas de gelo e estupidez variando ao gosto do freguês.

Associado a papo, futebol, samba e outras atividades correlatas, o chope disputa
com a cerveja propriamente dita, sua irmã pasteurizada e engarrafada, o título de bebida nacional.

No Centro do Rio, o Bar Amarelinho, espécie de ícone nacional da bebida,
orgulha-se de servir “o chope mais gelado da Cinelândia”.

“O chope é nosso carro-chefe desde 1921”, diz o gerente João Batista Alves
Fernandes, 45 anos, em conversa com a BBC News Brasil por telefone. Cearense de
Reriutaba, ele trabalha no bar há 23 anos.

O Amarelinho, no Rio, tornou-se uma espécie de ícone nacional do chope —
Foto: Divulgação

A fama do Amarelinho, segundo Fernandes, reside no emprego de uma serpentina
manual de 200 metros de cobre, que permite a obtenção de um “colarinho cremoso”.

Diferentemente de outros bares tradicionais do Centro do Rio, a casa resistiu às
obras do metrô na Cinelândia, na primeira metade dos anos 1970, e à pandemia do
coronavírus no início dos anos 2020.

O chope do Amarelinho atrai presidentes da República, governadores,
parlamentares e artistas.

O acompanhamento pode variar: frango à passarinha, filé mignon, carne de sol e
aipim.

A demanda atinge o pico de dezembro a março, quando a temperatura pode superar
40ºC na Cidade Maravilhosa.

“No verão, as pessoas saem dos escritórios ao final do expediente e vêm bater
papo e tomar chope”, conta Fernandes.

HÁBITO FOI INTRODUZIDO EM 1808 PELA CORTE PORTUGUESA

A produção e o consumo de chope no Brasil começaram a partir de 1808, quando a
família real portuguesa se instalou no Rio, explica Carlo Bressiani, diretor da
Escola Superior de Cerveja e Malte.

“Dom João [então príncipe regente de Portugal] manda instalar as primeiras
cervejarias na região da Serra Fluminense”, afirma Bressiani, falando de
Blumenau (SC) à BBC News Brasil por telefone.

“O ambiente serrano era fundamental, uma vez que o calor na cidade do Rio
tornava muito difícil controlar a fermentação.”

Na época, não existia diferença entre cerveja e chope.

Produção nacional de cerveja começou na Serra Fluminense, explica Carlo
Bressiani — Foto: Arquivo pessoal

A pasteurização passou a ser empregada na indústria de bebidas somente a partir
da segunda metade do século 19.

Antes da adoção do processo, o produto podia ser armazenado por, no máximo, um
mês.

O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, que regulamenta a
produção de bebidas, não faz distinção entre as variantes pasteurizada e não
pasteurizada — ingredientes e processo de fabricação descritos pelas normas da
pasta compreendem cerveja e chope, indistintamente.

Segundo os dicionários Aurélio, Houaiss e Michaelis, o nome deriva da palavra
alemã Schoppen, que pode ser traduzida como “copo (de cerveja)”.

Em alemão, porém, o termo designa o recipiente — que pode ser usado para beber
cerveja ou vinho.

Da mesma forma, em francês, a palavra chope quer dizer “caneca de cerveja”, mas
a ênfase recai sobre o tipo de vasilhame, não na bebida ou na quantidade.

É nessa acepção de receptáculo, aliás, que o termo é empregado pela primeira vez
na imprensa brasileira como substantivo comum.

Na edição de 30 de outubro de 1875 da Gazeta de Notícias, uma relação de prêmios
de um páreo de turfe informa: “1º [prêmio] um chopp de prata dourada com relevo; 2º [prêmio] um par de botões de ouro para punhos”.

PRIMEIRAS FÁBRICAS FORAM INSTALADAS POR MIGRANTES ALEMÃES

Se a corte portuguesa difundiu o hábito de beber chope, a bebida permaneceu por
muitos anos como artigo de luxo, acessível apenas às classes abastadas.

Anos depois da Independência, a maior parte da cerveja consumida no Brasil era
importada — e, portanto, cara demais para os brasileiros comuns.

O preço elevado devia-se não apenas à inexistência de tecnologia e profissionais
treinados, mas à carência de matérias-primas essenciais como o lúpulo.

As flores femininas do lúpulo, conhecidas desde a Antiguidade, tiveram suas
propriedades conservantes e antissépticas descritas pela primeira vez pela monja
Hildegard von Bingen, a Santa Hildegarda da Igreja Católica, no século 12.

Os primeiros cervejeiros brasileiros fracassaram nas tentativas de substituir o
lúpulo por ervas nativas de diferentes regiões.

A dependência do produto importado da Europa fez com que, quase um século mais
tarde, muitas cervejarias brasileiras fechassem durante a Primeira Guerra
Mundial.

Fábricas de cerveja foram instaladas por migrantes alemães que passaram a afluir
ao país a partir de 1824.

Em 27 de outubro de 1836, um anúncio publicado no Jornal do Commercio, do Rio de
Janeiro, referiu-se pela primeira vez à “cerveja brasileira” — um marco do
início da produção industrial.

Com a crescente urbanização e a consolidação do ramo de bebidas, o chope
tornou-se centro de uma verdadeira subcultura que tem seu epicentro no Rio de
Janeiro.

Em outras capitais a bebida também desfruta de prestígio.

Em São Paulo, é a principal atração da carta de bebidas do Bar Brahma, reduto
boêmio encravado na simbólica esquina das avenidas Ipiranga e São João.

Nos botequins do Centro e do Savassi, em Belo Horizonte, no circuito cervejeiro
do São Francisco, em Curitiba, ou no eixo Pituba-Rio Vermelho-Dois de
Julho-Barra, em Salvador, o chope é servido e sorvido com honras.

Mas foram os cariocas que a elegeram como parte de um modo de vida que inclui
bate-papo com amigos, convívio com vizinhos, paquera e torcida pelo time do
coração.

Estupidamente gelado: assim deve ser o chope para o brasileiro — Foto:
Getty Images via BBC

SEM PASTEURIZAÇÃO, AUMENTA A PERCEPÇÃO DE SABOR

As primeiras cervejas brasileiras dificilmente agradariam ao paladar do
consumidor contemporâneo.

“Quanto mais você recua na história, maior é a contaminação presente na
cerveja”, afirma Bressiani, da Escola Superior de Cerveja e Malte.

Na primeira metade do século 19, a bebida era mais ácida e avinagrada, e o
controle microbiológico, inexistente.

“A melhor cerveja já produzida é a cerveja de hoje”, diz Bressiani.

Sem pasteurização, o chope da atualidade aproxima-se, em termos de composição
química, da antiga cerveja.

Reside nesse detalhe, aliás, uma das chaves de seu sucesso junto ao público. A
eliminação de microrganismos resultante do processo de pasteurização tem uma
consequência do ponto de vista sensorial: a perda de sabor.

“O chope sempre será mais saboroso do que a cerveja porque, em certa medida, é
uma cerveja viva”, explica Bressiani.

Ironicamente, a refrigeração, necessária para conservação da bebida e que
resulta na baixa temperatura tão apreciada pelos brasileiros, também compromete
a degustação.

Ao ser ingerido gelado, o líquido provoca vasocontrição, atenuando a percepção
do sabor.

Além disso, a refrigeração faz com que os aromas da bebida sejam mais
solubilizados (conservados dentro da solução) e menos liberados no ar.

Essa é a razão pela qual muitos brasileiros, ao consumir o produto no exterior,
julgam-no mais perfumado.

No hemisfério norte, a regra do “estupidamente gelado” não tem esse apelo.

“Nessas regiões, o chope é consumido à temperatura ambiente como qualquer bebida
comum, mesmo no verão”, diz o diretor da ESCM.

EVANDRO MESQUITA: ‘CHOPE E BATATA FRITA ERA O CARDÁPIO DA MESADA’

Música composta por Evandro Mesquita (foto), Ricardo Barreto, Guto e Zeca
Mendigo é a mais célebre canção brasileira a fazer referência ao chope — Foto:
Divulgação

Ou seja, diferentemente da Europa, cerveja e chope são sobretudo bebidas
refrescantes no Brasil.

Nesse quesito, estão a salvo da concorrência dos destilados e de boa parte dos
vinhos, que não combinam com baixas temperaturas.

A partir da Segunda Guerra Mundial, o mercado cervejeiro no Brasil ampliou-se graças ao barateamento da produção.

A estabilização da moeda nos anos 1990 e a fusão das gigantes Brahma e Antarctica no conglomerado Ambev na virada do século 21 tornaram a bebida mais acessível.

Essa metamorfose abriu caminho para investimentos massivos em marketing, que
fizeram da “propaganda de cerveja” um gênero privilegiado da publicidade
brasileira.

Hoje, o Brasil ocupa a terceira posição no mercado global de cerveja, atrás da
China e dos Estados Unidos.

Ainda assim, em termos de consumo anual per capita, o Brasil, com 211 milhões de
habitantes, atinge 67 litros – pouco mais da metade da Chéquia, com 10,8 milhões
de habitantes e 128 litros anuais.

A realidade era muito diferente no final dos anos 1970, quando Evandro Mesquita
compôs, em parceria com Ricardo Barreto, Guto e Zeca Mendigo, a mais célebre
canção brasileira a fazer referência ao chope.

O rock Você não soube me amar nasceu nessa época nas areias de Saquarema (RJ), o
“Maracanã do surfe”, segundo relata Evandro à BBC News Brasil.

Com a formação da banda Blitz, que tinha Evandro, Márcia Bulcão e Fernanda Abreu
nos vocais, surgiu a ideia do célebre diálogo em que um cliente pede “Garçom,
uma cerveja” e o garçom responde “Só tem chope”.

Do sucesso avassalador nas rádios do Rio à gravação de um clipe para o programa
Fantástico, da TV Globo, a Blitz fez história.

“A gente não veio naquela onda de figurino preto, como era comum no
rock’n’roll”, reflete Evandro, falando à reportagem por telefone.

A letra, segundo o compositor, é uma “radiografia do underground do Rio de
Janeiro dessa época, sobre o que acontecia com o pessoal que não estava se
encaixando nos modos de vida que ofereciam para a gente”.

“Chope e batata frita eram o cardápio da mesada, era o que dava para a gente
oferecer à namorada, o mais simples. Nas mesas, era paixão, chope e batata
frita”, explica o compositor.

A situação retratada na música não reflete, porém, os hábitos do próprio autor,
adepto de um estilo de vida saudável e natural desde a juventude.

A reportagem pergunta-lhe como reagiria ao ouvir de um garçom a informação
contida em Você não soube me amar.

“Eu diria: ‘Então me dá uma limonada’.”

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