Aportes do Rioprevidência no Banco Master cresceram 7 vezes em um ano sem aval de comitê, diz testemunha
Em depoimento, ex-integrante do Comitê de Investimentos disse que aplicações
saltaram de cerca de R$ 120 milhões para quase R$ 1 bilhão. Declaração levantou
dúvidas sobre a falta de análises técnicas.
Um depoimento prestado à Polícia Civil por um ex-integrante do Comitê de
Investimentos do Rioprevidência levantou dúvidas sobre a forma como foram feitas
as aplicações do fundo de previdência do estado do Rio no Banco Master.
Segundo o relato, os aportes cresceram cerca de sete vezes de um ano para o
outro, sem novo aval do comitê responsável por analisar os investimentos.
O caso envolve recursos do Rioprevidência, fundo responsável pelo pagamento de
aposentadorias e pensões de cerca de 235 mil servidores inativos do estado, e o
Banco Master, que entrou em liquidação em novembro do ano passado por determinação do Banco Central, sob suspeita de gestão fraudulenta.
As informações prestadas à polícia acenderam um alerta nos investigadores sobre possíveis fragilidades na governança e no processo decisório das aplicações.
O depoimento foi dado por Robson Luiz Barbosa, que afirmou ter sido membro do
Comitê de Investimentos do Rioprevidência entre 2023 e 2025, com direito a voto.
Segundo ele, a proposta inicial apresentada pelo Banco Master previa um
investimento de cerca de R$ 120 milhões, em dezembro de 2023.
De acordo com Robson, não houve apresentação de análise técnica de risco nem de
parecer econômico-financeiro sobre a proposta, mas, ainda assim, o investimento
acabou aprovado.
No ano seguinte, segundo o depoimento, o valor aplicado pelo Rioprevidência no
banco deu um salto e chegou a cerca de R$ 960 milhões em 2024.
O que chamou a atenção dos investigadores é que, conforme o relato, essas novas
aplicações teriam ocorrido de forma automática, sem um novo aval do Comitê de
Investimentos e sem aprofundamento técnico das decisões.
Robson afirmou que, nos meses seguintes, a diretoria de investimentos entendeu
que o negócio era vantajoso e continuou aplicando recursos de forma sucessiva.
Ele afirmou que ambos entenderam que a aprovação inicial deixava subentendido
que novos aportes poderiam ser feitos sem nova deliberação formal.
No depoimento, Robson Barbosa disse que, em todas as reuniões do Comitê de
Investimentos, as propostas apresentadas pela diretoria eram discutidas de forma
argumentativa, mas sem a apresentação e o embasamento de estudos técnicos,
laudos ou planilhas.
As aplicações do Rioprevidência no Banco Master foram feitas por meio de letras financeiras, um tipo de investimento de renda fixa no qual o investidor, na prática, empresta dinheiro à instituição financeira com a promessa de receber o
valor acrescido de juros.
Em maio do ano passado, o Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro emitiu um alerta aos gestores do Rioprevidência apontando “graves irregularidades” nos aportes feitos no Banco Master.
Em outubro, o tribunal voltou a criticar as aplicações e determinou que o fundo previdenciário fosse impedido de realizar novas transações com a instituição.
No mês seguinte, em novembro, o Banco Central decretou a liquidação do Banco Master, sob suspeita de gestão fraudulenta. Após a medida, o Rioprevidência recorreu à Justiça para tentar recuperar os recursos investidos e obteve uma decisão liminar que permitiu o bloqueio de parte dos valores.
Em meio à crise, Eucherio Lerner Rodrigues e Pedro Pinheiro Guerra Leal deixaram os cargos na diretoria de investimentos. Quem permaneceu na cúpula do fundo foi o diretor-presidente, Deivis Marcon Antunes. Os três foram ouvidos no fim do ano passado na investigação que apura possíveis irregularidades.
O Rioprevidência afirmou que o investimento junto ao Banco Master “foi realizado em conformidade com todas as regras vigentes à época, com a legalidade atestada pelo Ministério da Previdência e em acordo com o Plano Anual de Investimentos aprovado pelo Conselho de Administração da autarquia”.
Já a defesa de Eucherio Lerner Rodrigues informou que ele está colaborando com
as autoridades competentes e que, em razão do sigilo legal da investigação, está
impedido de se manifestar sobre o conteúdo do caso. A reportagem não conseguiu
contato com Pedro Pinheiro Guerra Leal.




