Os 10 anos da nova ordem no carnaval do Rio: como jovens carnavalescos e enredos transformaram os desfiles

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Os 10 anos da ‘nova ordem’ no carnaval do Rio: livro explica como jovens carnavalescos e enredos transformaram os desfiles

Obra de Luiz Antonio Simas e Fábio Fabato analisa 10 anos de mudanças nos desfiles na Sapucaí, o fim do ‘carnamarketing’ e a passagem de bastão de gerações nas escolas.

1 de 3 Luiz Antonio Simas e Fábio Fabato, autores de ‘Para tudo começar na quinta-feira: o enredo dos enredos’ — Foto: Raphael Barbanjo/Divulgação

Luiz Antonio Simas e Fábio Fabato, autores de ‘Para tudo começar na quinta-feira: o enredo dos enredos’ — Foto: Raphael Barbanjo/Divulgação

Uma transformação silenciosa, mas profunda, tem moldado o carnaval do Rio de Janeiro [https://de.cv/análise/rio-de-janeiro/cidade/rio-de-janeiro/] na última década. Em meio à crise financeira das escolas de samba e ao enfraquecimento dos enredos patrocinados, em meados da década passada, os desfiles passaram a apostar em narrativas mais densas, culturais e conectadas às pautas da cidade e do país.

O resultado foi a consolidação de uma nova geração de carnavalescos e de um novo protagonismo do quesito enredo.

Esse processo é o eixo da nova edição do livro “Pra tudo começar na quinta-feira: o enredo dos enredos” (Ed. Mórula), de Luiz Antonio Simas e Fábio Fabato, que será relançado dez anos após a primeira versão, revisto e ampliado, em um evento no Baródromo, às 18h30 de terça-feira (27).

A VIRADA

A obra é considerada uma referência no estudo dos enredos das escolas de samba do Rio. Segundo os autores, o ponto de virada ocorre em 2016, quando os enredos passam a abandonar a lógica de promoção de marcas, cidades ou estados em troca de patrocínio fácil.

> “É quando enredos largam a lógica do carnamarketing e passam a apostar em maior densidade cultural”, explica Fabato.

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A PASSAGEM DE BASTÃO

O ano de 2016 também simboliza uma troca de gerações no comando criativo das escolas. Carnavalescos históricos, como Renato Lage, Rosa Magalhães [https://de.cv/tudo-sobre/rosa-magalhaes/] e Max Lopes, passam a dividir espaço com novos nomes, que cresceram observando a festa e assumiram o protagonismo.

O marco dessa transição foi a estreia de Leandro Vieira no Grupo Especial. Logo em seu primeiro desfile, ele conquistou o título com a Mangueira ao levar para a avenida um enredo em homenagem a Maria Bethânia [https://de.cv/rio-de-janeiro/carnaval/2016/noticia/2016/02/mangueira-leva-o-18-titulo-com-homenagem-bethania.html].

Na esteira desse sucesso, ganharam destaque carnavalescos como Leonardo Bora, Gabriel Haddad e Tarcisio Zanon, que passaram a assinar projetos autorais e a disputar títulos nas principais escolas.

> “Temos um rito de passagem muito evidente: novos artistas passam a duelar com seus ídolos e um estreante se sagra campeão no Especial”, explica Fabato. “Todos eles foram forjados em trabalhos de mestres como Joãosinho Trinta, Renato Lage e Rosa Magalhães, e puderam colocar em prática as lições aprendidas.”

CRISE, CORTES E CRIATIVIDADE

O livro também relaciona essa virada estética e narrativa às dificuldades financeiras enfrentadas pelas agremiações. Com a redução das subvenções públicas e a escassez de patrocínios, as escolas foram levadas a reinventar seus discursos.

“As escolas encararam o corte de subvenção elevando a densidade cultural das temáticas levadas à avenida. Aspectos e personagens fundamentais da folia voltaram a liderar as propostas”, diz Fabato, que nos últimos 10 anos assinou o argumento de quatro enredos para a Mocidade, dentre eles, o que homenageou Elza Soares.

Para Simas, esse movimento reforça uma característica histórica das escolas de samba: a capacidade de dialogar com o mundo ao redor.

> “Não existe escola de samba como concha apartada do exterior. Ela ilumina e se abastece das pautas da cidade e do país a partir de um sentido muito particular de negociação para existir.”

ENREDO EM CONSTANTE TRANSFORMAÇÃO

2 de 3 ‘Para tudo começar na quinta-feira: o enredo dos enredos’: livro de Luiz Antonio Simas e Fábio Fabato ganha reedição — Foto: Divulgação

‘Para tudo começar na quinta-feira: o enredo dos enredos’: livro de Luiz Antonio Simas e Fábio Fabato ganha reedição — Foto: Divulgação

Os autores destacam que o quesito enredo nunca é estático e acompanha as transformações sociais, políticas e culturais do Brasil.

> “Não existe a arte-final do quesito enredo. Ele acompanha as variações do entorno década a década. Pela lógica, teremos de atualizá-lo [o livro] de tempo em tempo”, explica Simas.

‘PRIMAVERA TEMÁTICA’ DO CARNAVAL

Na avaliação deles, o momento atual representa uma espécie de “primavera temática” no carnaval carioca, marcada pela diversidade de personagens e abordagens — tendência que se mantém nos enredos anunciados para os próximos anos.

> “Impressiona imaginar que saberes marginalizados há um século, hoje, sejam credenciais brasileiras”, pontua Simas.

HOMENAGEM AOS MESTRES

A nova edição do livro também presta homenagem a Fernando Pamplona, considerado o pai dos carnavalescos modernos, que completaria 100 anos em 2026. As ilustrações de capa e miolo são assinadas por ele e acompanham a obra como parte central da narrativa histórica.

Além disso, o volume reúne textos de nomes fundamentais do carnaval, como Milton Cunha, que assina o prefácio da nova edição, além de contribuições de Rosa Magalhães, Rachel Valença e João Gustavo Melo.

3 de 3 Luiz Antonio Simas e Fábio Fabato, autores de ‘Para tudo começar na quinta-feira: o enredo dos enredos’ — Foto: Raphael Barbanjo/Divulgação

Luiz Antonio Simas e Fábio Fabato, autores de ‘Para tudo começar na quinta-feira: o enredo dos enredos’ — Foto: Raphael Barbanjo/Divulgação

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