Por que as raias gigantes mergulham a 1 mil metros antes de viajar? – Segredo da ‘zona da meia-noite’

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Segredo da ‘zona da meia-noite’: por que raias gigantes descem a 1 mil metros
antes de viajar?

Pesquisa monitorou gigantes do oceano por uma década e descobriu que mergulhos a
mais de 1.000 metros de profundidade funcionam como um ‘GPS biológico’ antes de
longas migrações.

1 de 5 Raia-manta-oceânica faz mergulhos a mais de 1 mil metros de profundidade
— Foto: davelascoc / iNaturalista

Raia-manta-oceânica faz mergulhos a mais de 1 mil metros de profundidade — Foto:
davelascoc / iNaturalista

Não é fome, nem medo. Quando a raia-manta-oceânica (Mobula birostris) — uma das
maiores e mais carismáticas criaturas dos mares — decide mergulhar em direção à
escuridão total das profundezas, ela pode estar, na verdade, consultando um
‘mapa’.

Um estudo pioneiro publicado na revista científica Frontiers in Marine Science
revelou um comportamento inédito: estes animais descem a profundidades que
ultrapassam os 1,2 mil metros, na chamada zona da meia-noite (ou zona
batipelágica), não para caçar, mas para coletar informações ambientais cruciais
para sua orientação.

A descoberta desafia o que se sabia sobre a espécie e sugere que, na imensidão
monótona do oceano aberto, as raias precisam “tocar o fundo” — ou chegar perto
dele — para calibrar seu ‘GPS’ interno antes de grandes viagens.

2 de 5 Segredo da ‘zona da meia-noite’: por que raias gigantes descem a 1 mil
metros antes de viajar? — Foto: davelascoc / iNaturalista

Segredo da ‘zona da meia-noite’: por que raias gigantes descem a 1 mil metros
antes de viajar? — Foto: davelascoc / iNaturalista

O MISTÉRIO DO MERGULHO EXTREMO

Para desvendar os segredos dessas gigantes, uma equipe internacional liderada
por pesquisadores da Universidade Murdoch (Austrália) rastreou 24 raias-manta na
Indonésia, Peru e Nova Zelândia. Utilizando etiquetas de satélite de alta
tecnologia, eles registraram mais de 46 mil mergulhos.

A maioria dos mergulhos era rasa, onde a vida e o alimento (o plâncton) abundam.
Mas, em 79 ocasiões, os cientistas registraram o que chamaram de “mergulhos
extremos”, ultrapassando a barreira dos 500 metros. O recorde registrado foi
impressionante: 1.246 metros de profundidade.

> “Propomos que mergulhos extremos permitem que as raias-manta oceânicas
> levantem as propriedades da coluna d’água… para guiar a navegação e a
> decisão de deixar ou permanecer em uma área.” — Trecho do estudo.

COMO FUNCIONA O ‘GPS’ DAS PROFUNDEZAS

3 de 5 Raia-manta-oceânica faz mergulhos a mais de 1 mil metros de profundidade
— Foto: albertkang / iNaturalista

Raia-manta-oceânica faz mergulhos a mais de 1 mil metros de profundidade — Foto:
albertkang / iNaturalista

O que intrigou os cientistas foi o perfil do mergulho. Quando uma raia mergulha
para comer, ela faz movimentos de “sobe e desce”, oscilando para capturar
presas. Mas nos mergulhos extremos, o padrão era totalmente diferente:

* A queda Livre: A raia desce em alta velocidade (chegando a quase 3 metros por
segundo), muito mais rápido do que o normal.
* Os degraus: Durante a descida e a subida, elas fazem breves pausas, como se
estivessem parando em andares específicos de um prédio para “sentir” o
ambiente.
* Sem comida: Elas não ficam tempo suficiente no fundo para se alimentar.

A conclusão dos pesquisadores é que esses mergulhos funcionam como uma missão de
reconhecimento.

Na zona profunda, as condições de temperatura e oxigênio são estáveis e podem
servir de referência. Além disso, acredita-se que elas estejam detectando
gradientes geomagnéticos — linhas invisíveis do campo magnético da Terra que
funcionam como rotas de navegação.

O estudo notou que, frequentemente, logo após um desses mergulhos profundos, a
raia iniciava uma viagem de longa distância, percorrendo centenas de quilômetros
em poucos dias. É como se elas descessem para checar o trânsito e o mapa antes
de pegar a estrada.

4 de 5 Raia-manta-oceânica faz mergulhos a mais de 1 mil metros de profundidade
— Foto: rafi1 / iNaturalista

Raia-manta-oceânica faz mergulhos a mais de 1 mil metros de profundidade — Foto:
rafi1 / iNaturalista

O CUSTO DO FRIO

Mergulhar na zona da meia-noite tem um preço alto. Nessas profundidades, a luz
do sol não chega e a temperatura despenca para perto de 4°C. Como as raias não
têm a capacidade de reter calor corporal tão bem quanto outros gigantes do mar
(como o atum ou o tubarão-branco), elas precisam se preparar.

Os dados mostraram que, antes e depois desses mergulhos, as raias passam longos
períodos na superfície, “tomando sol” para aquecer o corpo — uma estratégia de
termorregulação vital para sobreviver ao choque térmico das profundezas.

CONSERVAÇÃO ALÉM DA SUPERFÍCIE

Essa descoberta muda a forma como pensamos a preservação da espécie, que hoje é
classificada como ameaçada de extinção. Proteger apenas os recifes de coral onde
elas se alimentam e limpam não é suficiente.

> “Em ambientes de oceano aberto, onde pontos de referência externos estão
> ausentes, mergulhos custosos, mas infrequentes, podem fornecer informações
> críticas para movimentos de longa distância”, alertaram os autores do estudo.

Se as raias usam o fundo do oceano como mapa, a mineração em águas profundas e a
perturbação desses habitats podem deixá-las, literalmente, perdidas no azul.

QUEM É A GIGANTE DOS OCEANOS?

5 de 5 Raia-manta-oceânica faz mergulhos a mais de 1 mil metros de profundidade
— Foto: jane_tours / iNaturalista

Raia-manta-oceânica faz mergulhos a mais de 1 mil metros de profundidade — Foto:
jane_tours / iNaturalista

A raia-manta-oceânica (Mobula birostris) é a maior espécie de raia do mundo,
podendo alcançar até 7 metros de envergadura e pesar cerca de 2 toneladas.

Diferente de suas “primas” que vivem repousando no fundo de areia, esta espécie
é pelágica, ou seja, vive em constante nado pelos oceanos tropicais e
subtropicais do globo. Dóceis e desprovidas de ferrão venenoso, são animais
filtradores que usam seus lobos cefálicos (os “chifres” na cabeça) para
direcionar grandes quantidades de zooplâncton para a boca enquanto nadam.

Apesar de seu tamanho, a espécie é altamente vulnerável e está classificada como
ameaçada de extinção na Lista Vermelha da IUCN.

O estudo recente publicado na Frontiers in Marine Science reforça que esses
animais são viajantes de longa distância, capazes de percorrer mais de 1 mil km
em migrações que cruzam fronteiras internacionais.

A descoberta de que utilizam as profundezas para navegação evidencia ainda mais
a complexidade de seu comportamento e a necessidade urgente de proteger não
apenas as águas costeiras, mas também os corredores de alto-mar por onde
transitam.

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