Catto renasce como Vênus ao amplificar a potência de ‘Caminhos selvagens’ em
show ardente com gozos e cicatrizes
Cantora ecoa dores de Gal Costa e o erotismo de Madonna em roteiro
essencialmente autoral.
DE apresenta no Rio de Janeiro, pela primeira vez, o show ‘Caminhos
selvagens’, baseado no álbum autoral de 2025 — Foto: Rodrigo Goffredo
DE apresenta no Rio de Janeiro, pela primeira vez, o show ‘Caminhos
selvagens’, baseado no álbum autoral de 2025 — Foto: Rodrigo Goffredo
♫ CRÍTICA DE SHOW
Título: Caminhos selvagens
Artista: Catto
Data e local: 28 de janeiro de 2026 no Teatro Riachuelo (Rio de Janeiro, RJ)
Cotação: ★ ★ ★ ★
♬ Enfim apresentado na cidade do Rio de Janeiro (RJ), para plateia ardorosa que
encheu o Teatro Riachuelo na noite desta quarta-feira, 28 de janeiro, o show
“Caminhos selvagens” simboliza o renascimento de Catto como Vênus.
Dois anos após ampliar o público com o show e disco “Belezas são coisas acesas
por dentro”, trabalho em que abordou com pegada o repertório de Gal Costa (1945
– 2023), a cantora e compositora consolidou a identidade feminina ao voltar para
o trilho autoral no álbum “Caminhos selvagens” (2025), apresentado em maio do
ano passado com repertório confessional que legou músicas como “Eu te amo”
(2025), rebobinadas na atmosfera rocker de uma cena quente.
No show, DE amplifica a potência da sonoridade já intensa do indie rock que
pauta o álbum produzido pela artista com Fabio Pinczowski e Jojô Augusto. Desde
a primeira música do roteiro, “Eu não aprendi a perdoar” (2025), DE reiterou
a postura performática e o alcance da voz que deslumbrou o Brasil nos anos 2010
com o álbum “Fôlego” (2011).
A indústria fonográfica tentou sufocar essa voz com covers e fórmulas
comerciais. Mas DE acabou escapando do jugo e, a partir do álbum “Tomada”
(2015), tomou as rédeas da discografia. “Caminhos selvagens”, disco e show, é o
atestado definitivo dessa liberdade criativa.
Até as músicas mais fracas do disco ganharam alguma força em cena, caso de
“Solidão é uma festa” (2015), por conta do calor da apresentação turbinada por
banda potente que incluiu a baterista Michele Abu, o guitarrista Jojô Inácio, o
baixista Gabriel Mayall e a tecladista Júlia Kluber, imponente ao dividir com
DE o canto de “Saga” (2009), música-título do EP que revelou ao Brasil essa
gaúcha de Porto Alegre (RS) – cidade que sediou a vivência erótica escancarada
na balada “Para Yuri todos os meus beijos” (2025) – há anos residente em São
Paulo (SP).
DE eletriza o público do Teatro Riachuelo na estreia do show ‘Caminhos
selvagens’ no Rio
DE eletriza o público do Teatro Riachuelo na estreia do show ‘Caminhos
selvagens’ no Rio
À vontade nesse trilho pavimentado por amor e sexo, ambos não necessariamente
acoplados um ao outro, a cantora se deixou levar por pulsão erótica à qual se
ajustou perfeitamente a libertária “Canção de engate” (1984), joia do cantor e
compositor português António Variações (1944 – 1984) lapidada pela cantora no
álbum “Catto” (2017), o título mais bem acabado da discografia autoral da
artista.
Sob os gritos de “Gostosa” e “Maravilhosa” que vinham a todo momento da plateia,
a intérprete expôs gozos e cicatrizes do amor em cena que por vezes adquiriu
contornos até épicos no canto de músicas como “Madrigal” e a composição-título
“Caminhos selvagens”.
Ciente de que ainda é arriscado abandonar o repertório de Gal Costa, DE
incluiu três músicas do trabalho anterior no roteiro essencialmente autoral do
show “Caminhos selvagens”. A balada “Nada mais” (Stevie Wonder, 1980, em versão
em português de Ronaldo Bastos, 1984) a canção “Negro amor” (Bob Dylan, 1965, em
versão em português de Caetano Veloso e Péricles Cavalcanti, 1977) – rebobinada
em tom folk, com DE ao violão – e “Vaca profana” (Caetano Veloso, 1984), esta
em clima apoteótico, roqueiro, quase carnavalizante, se afinaram com a quentura
de show turbinado por dores e emoções reais. A boa surpresa foi “Bad girl” (Madonna, Shep Pettibone e Anthony Shimkin),
música do repertório de Madonna, apresentada pela diva norte-americana no álbum
“Erotica” (1992). Tudo a ver, pois DE seguiu por “Caminhos selvagens” como
uma garota que ama e quer amor e prazer, mas que pode ficar má e derramar o
leite na cara dos caretas se ouvir mentiras descaradas.
Não, DE não quer mais pouco e, por isso mesmo, oferece muito na cena ardente
de “Caminhos selvagens” entre gozos e cicatrizes do amor.




