Chico Buarque completa 50 anos do álbum ‘Meus Caros Amigos’ como ‘best of’ da carreira musical

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Álbum ‘Meus caros amigos’, de Chico Buarque, faz 50 anos como ‘best of’ de artista que avançou com sinal fechado

Chico Buarque na foto exposta na capa do álbum ‘Meus caros amigos’, lançado em 1976 — Foto: Orlando Abrunhosa / Reprodução

Quando Chico Buarque entrou em estúdio para gravar o álbum que seria lançado em 1976 pela gravadora Philips com o título “Meus caros amigos”, o sinal ainda estava fechado para os compositores da MPB que denunciavam os horrores da ditadura militar brasileira através de letras escritas com alusões e metáforas engenhosas.

Cantor e compositor revelado em 1964, projetado nacionalmente em 1966 e autoexilado em 1969, para escapar de prisão iminente, Chico tinha se tornado na década de 1970 o alvo preferencial desse governo ditatorial.

O simples nome do artista nos créditos de uma composição já era motivo bastante para que os censores pusessem na letra o carimbo de “vetado”. Tanto que, em 1974, Chico teve que criar maroto pseudônimo, Julinho da Adelaide, para driblar a censura e poder incluir um samba autoral (“Acorda amor”, creditado a Julinho e a Leonel Paiva) no repertório do álbum anterior de estúdio, “Sinal fechado”, disco de intérprete, única saída possível naquele momento.

“Meus caros amigos”, o álbum seguinte de 1976, marcou a retomada da discografia solo autoral do artista, que vinha de show apoteótico com Maria Bethânia, perpetuado em álbum ao vivo de 1975. E que retomada! Com repertório povoado por temas criados pelo compositor nos últimos anos para trilhas sonoras de filmes e musicais de teatro, o álbum “Meus caros amigos” completa 50 anos em 2026 como um best of do magistral compositor, visto na capa do disco (criada por Aldo Luiz) em foto de Orlando Abrunhosa.

Produzido por Sérgio Carvalho (1949 – 2019), com arranjos distribuídos entre Francis Hime (maestro de sete das 10 músicas do álbum), Luiz Cláudio Ramos (que se tornaria o maestro de Chico Buarque a partir dos anos 1990) e Perinho Albuquerque (1946 – 2025), o álbum “Meus caros amigos” ombreia com o emblemático disco “Construção” (1971) – o primeiro grande título da discografia do artista na gravadora Philips – pela excelência do repertório.

Assim como “Construção”, o álbum “Meus caros amigos” traz somente grandes e memoráveis canções, dignas de qualquer antologia do artista. A começar por “O que será (À flor da terra)”, tema do filme “Dona Flor e seus dois maridos” (1976), ouvida com a mais famosa das três letras em gravação feita por Chico com Milton Nascimento em andamento acelerado.

Na sequência, Chico cantou “Mulheres de Atenas”, um dos hits radiofônicos do álbum. Nessa canção, escrita em parceria com o dramaturgo Augusto Boal (1931 – 2009), o tema da forçada submissão feminina – abordado sob a perspectiva da antiga sociedade grega – é veículo para o exercício de crítica ao domínio da ditadura. É como se Chico dissesse, com fina ironia, que as mulheres de Atenas eram o povo brasileiro subjugado pelo império dos militares naquele ano de 1976.

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