Descoberta da única foto da casa de Tia Ciata na Pequena África: relíquia revelada após anos no Arquivo-Geral do Rio

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O Arquivo-Geral do Rio encontrou a única foto conhecida da casa de Hilária Batista de Almeida, a Tia Ciata, liderança religiosa e comunitária que foi figura central na sociabilidade negra urbana do fim do século 19 e início do 20 na região conhecida como Pequena África. É consenso entre historiadores que a casa de Ciata, frequentada por bambas como João da Baiana, Pixinguinha, Hilário Jovino e Sinhô, teve papel central na consolidação do samba como gênero e em sua relação com o carnaval. A informação sobre a descoberta da fotografia foi noticiada inicialmente pela Folha de S. Paulo e obtida posteriormente pelo DE.

O imóvel foi demolido nas obras que acabaram com o bairro residencial que formava a Praça Onze para a construção da Avenida Presidente Vargas, inaugurada em 1944. A foto foi encontrada em um conjunto de 14 mil imagens em álbuns da gestão do prefeito Henrique Dodsworth (1937-1945), interventor nomeado por Getúlio Vargas no período conhecido como Estado Novo — uma ditadura. As fotos foram feitas por Uriel Malta e Aristógiton Malta, filhos de Augusto Malta — fotógrafo da Prefeitura do Rio entre 1905 e 1938. “Uma das grandes obras desse período foi a abertura da Avenida Presidente Vargas, que acaba passando sobre a antiga Praça Onze. E isso acaba apagando uma série de ruas importantes para a história da cidade, em especial dessa região, do bairro da Praça Onze, uma região onde existia todo um contexto sociocultural de imigrantes, ex-escravizados, da comunidade judaica, gregos. Era uma região supercosmopolita, que acaba sendo em grande medida devastada com essas obras”, diz o gerente de Pesquisa do arquivo, Pedro Paiva Marreca. A casa de Ciata ficava na Rua Visconde de Itaúna 117. Na imagem encontrada é possível ver uma anotação feita à mão com o número do imóvel, indicando que ele estava entre os que seriam demolidos. Ciata morreu em 1924; portanto, não estava viva quando sua casa foi demolida.

“A gente foi conseguindo reconstruir a rua inteira e conseguimos cruzar dados com outras documentações parecidas com o que a gente chama hoje de PAA, plantas que mostram os lotes de cada território. Então, a gente foi conseguindo localizar, praticamente, georreferenciar onde ficava cada uma das casas, até que a gente chegou ao número 117 da Rua Visconde de Itaúna, que é o número dela”, explica o pesquisador Rafael Martins de Araújo. “A gente conseguiu localizar tanto o positivo quanto o negativo da imagem e contextualizar ela com o contexto da Visconde de Itaúna, junto com as próprias grandes reformas do Dodsworth. Ela tava inserida ali, a a derrubada da casa tava inserida nesse contexto. Então, a gente recupera não só a foto, como a própria história da casa: onde ela estava, como ela vai embora, qual é o processo e porque que o registro dela aconteceu”, acrescenta.

O conjunto de fotos mostra ainda várias imagens derradeiras e raras da Praça Onze durante as obras para a Presidente Vargas. As imagens foram encontradas durante a pesquisa para o livro ‘Achados e Perdidos: imagens inéditas do Rio de Janeiro (1937-1945)’, que foi disponibilizado para o público nesta segunda-feira (9). Presidente do Arquivo, Elizeu Santiago afirma que, com a divulgação das imagens através do livro, outras descobertas podem surgir. “Quantos pesquisadores, quantos curiosos não vão identificar a casa de um antepassado, a casa de um avô, de um bisavô, a um local em que já ouviu uma história de um familiar. Então eu acho que esse livro é uma obra que dialoga com a população e dialoga com a memória das pessoas, dialoga com a memória das famílias que habitaram toda a cidade”, afirmou. Nas páginas do livro, além das transformações urbanas na Pequena África, há imagens do início da Avenida Brasil, a expansão dos subúrbios, a urbanização da Pavuna e da Zona Sul, a finalização da Esplanada do Castelo, a inauguração do Jardim de Alah, entre outros recortes que ajudam a compreender como a cidade se redesenhou nesse período.

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