Machado de Assis e o Carnaval: Vida e obra do escritor em folia

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Machado de Assis foi folião? Entenda a relação da vida e da obra do escritor com o carnaval

Textos do ‘Bruxo do Cosme Velho’ abordam a festa com saudosismo, ironia e crítica social. Biógrafo C.S. Soares, autor de ‘Machado: O filho do inverno’, lembra que escritor participou de desfile na juventude e estava atento a movimentos culturais da época.

A maioria das fotos de Machado de Assis, frequentemente citado como o maior escritor brasileiro, mostra um homem de olhar sério, terno escuro e postura austera. Levando em conta essas imagens, é difícil imaginar que ele era uma pessoa envolvida com o carnaval. Mas pesquisas sobre sua vida e obra revelam o contrário: o “Bruxo do Cosme Velho” se interessava pela folia e chegou a participar dela na juventude – ainda que nos moldes do século XIX.

Há indícios de que Machado, ainda jovem, chegou a desfilar em uma das formas de folguedo que emergiam na década de 1850, as chamadas sociedades carnavalescas.

“O Machado, quando era novo, ele era um cara muito social. Ele era assim, qualquer festa ele estava envolvido”, conta o escritor C.S. Soares, autor de “Machado: o filho do inverno” (Ação Editora, 2025).

Ele explica que a participação direta de Machado no carnaval, desfilando, se deu em sua juventude, através da participação da Sociedade Petalógica – grupo literário fundado pelo tipógrafo, livreiro, editor e intelectual negro Paula Brito, que o livro de Soares mostra como mentor de Machado.

A Petalógica está ligada a uma das primeiras sociedades carnavalescas, o Congresso das Sumidades Carnavalescas e participou de seu desfile em 1855, o que é descrito na imprensa da época. Basicamente o mesmo ciclo de intelectuais esteve nas duas iniciativas.

“A Sociedade Petalógica participou ativamente da modernização do Carnaval. Era claro que ainda era um evento muito ligado às elites. Mas Machado participou. Machado inclusive desfilou. Então assim, Machado ele tinha qualquer evento social, fosse carnaval, fosse inauguração de estátua, fosse 21 de abril”, brinca Soares.

Autor de um trabalho que mostra que Machado se enxergava como escritor negro, Soares também observa que Machado, neto de escravizados, nasceu no Morro do Livramento, a 200 metros da região conhecida como Pequena África – intimamente ligada com o carnaval e com a formatação do samba.

“Ele olhava lá de cima, ele via o Cais do Valongo […] Isso, é óbvio, teve impacto na vida dele. E aí, quando você começa a perceber o componente racial, é óbvio que ele estava de olho no carnaval, no teatro, na ópera, uma representação do baile de máscaras. E ele consegue identificar as máscaras que a gente usa na sociedade, independente das várias vidas que a gente acaba vivendo”, diz o biógrafo.

Machado viveu o fim de sua adolescência e o início da juventude em um momento de uma forte campanha de governantes e de parte da imprensa da época por uma “modernização” do carnaval.

A forma mais popular de brincar o carnaval no Brasil era desde a época de colônia o entrudo, que envolvia uma “guerra” de líquidos e outras substâncias com o uso de invólucros chamados de limões de cheiro, ou diretamente em baldes e seringas. Essa forma de brincadeira vinha sendo classificada como violenta e passava por frequentes ameaças de proibições.

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