DE ‘Homem com H’ a ‘Vira’, entenda as referências à obra de Ney Matogrosso no samba da Imperatriz
Carnavalesco Leandro Vieira cita os álbuns ‘Água do Céu- Pássaro’, ‘Bandido’, ‘Feitiço’ e ‘Pecado’ como referências para seu projeto. Signos que misturam masculino e feminino estarão evidentes nas fantasias.
Obra de Ney Matogrosso vira manifesto estético e político em enredo da Imperatriz [https://s02.video.glbimg.com/x240/14318337.jpg]
Obra de Ney Matogrosso vira manifesto estético e político em enredo da Imperatriz
O samba da Imperatriz Leopoldinense [https://de.de/de/escola-de-samba/imperatriz-leopoldinense/], que desfila neste domingo (15) pelo Grupo Especial do carnaval do Rio, é um verdadeiro tributo à obra e à trajetória de Ney Matogrosso. Intitulado “Camaleônico”, o enredo idealizado pelo carnavalesco Leandro Vieira percorre diferentes fases musicais do cantor e utiliza expressões que fazem referência direta a canções consagradas de seu repertório, além de imagens que remetem à sua estética corporal, teatral e transgressora.
Referências a peculiaridades e sucessos do artista poderão ser vistas em alas, fantasias e alegorias durante o desfile. Ao costurar títulos, versos e símbolos do repertório do cantor, a Imperatriz Leopoldinense mostra também, na estrutura do seu carnaval, um samba-enredo que funciona como uma narrativa de clássicas canções e álbuns marcantes do cantor.
Leandro Vieira cita quatro álbuns do artista como referências para o enredo da Imperatriz [https://s01.video.glbimg.com/x240/14324880.jpg]
Leandro Vieira cita quatro álbuns do artista como referências para o enredo da Imperatriz
Leandro Vieira destaca que sua ideia nunca foi fazer uma biografia, mas, sim, um enredo pautado exclusivamente nas obras. O carnavalesco cita quatro álbuns do artista como referências para o seu projeto: “Água do Céu- Pássaro”, “Bandido”, “Feitiço” e “Pecado”.
> “Se você imaginar esses quatro discos pós- Secos e Molhados, que ele já se apresenta como uma criatura que inaugura a performance, a androginia. Esses discos já demonstram a força e uma intelectualidade de entender que a estética é um discurso muito potente”, revela.
Signos que misturam o masculino e o feminino estarão evidentes também nas fantasias, uma ambiguidade bem característica do universo de Ney Matogrosso.
“Quando eu apresento o Homem com H, esse homem com H é uma ala masculina que mistura signos do imaginário feminino. Por quê? Porque a própria canção é um deboche, né? O Ney grava isso como um deboche. Utilizo essa ideia de caricatura da masculinidade para apresentar um figurino. É homem de meia-calça arrastão cor-de-rosa”, explica Leandro.
Alas e fantasias vão mostrar a versatilidade e potência estética de Ney Matogrosso (foto do 1º ensaio-técnico da Imperatriz) — Foto: Nelson Malfacini/Divulgação
ENTENDA AS REFERÊNCIAS DO SAMBA-ENREDO
No trecho “Pois, sou Homem com H”, o samba cita explicitamente um dos maiores sucessos da carreira solo de Ney, lançado em 1981. A música se tornou um hino de afirmação e liberdade de expressão e dialoga com o tom do enredo, que exalta a quebra de padrões.
Outra referência clara aparece em “O sangue latino que vira / Vira, vira lobisomem”, verso que remete às canções “Sangue Latino” e “Vira”, dos tempos do grupo Secos & Molhados. A letra original fala de metamorfose e instinto, elementos que se conectam com a ideia de camaleonismo presente no enredo.
O samba também faz alusão a “Pavão Mysterioso”, sucesso popular interpretado por Ney, ao usar o verso “Pavão de mistérios, rebelde, catiço”. A imagem do pavão simboliza exibicionismo, sedução e teatralidade.
Em “A voz que a cálida Rosa deu nome”, há referência a “Rosa de Hiroshima”, poema de Vinicius de Moraes musicado por Gerson Conrad e eternizado na voz de Ney Matogrosso. A canção se tornou uma das interpretações mais emblemáticas do cantor, conhecida pela carga dramática e pela crítica à violência e à destruição.
O verso “A força de Athenas que o mau não consome” cita diretamente a música “Mulheres de Atenas”, que associa a figura mitológica à ideia de resistência e poder.
Já em “Não Vejo Pecado ao Sul do Equador”, o samba faz referência à canção de Chico Buarque e Ruy Guerra que ganhou projeção nacional na interpretação de Ney durante os anos finais da ditadura militar. A música ficou marcada como símbolo de liberdade corporal e contestação moral.
Outras imagens evocadas pelo samba dialogam com personagens e temas recorrentes no repertório do cantor, como em “bandido, pecado e feitiço”, que remete a três álbuns lançados em 1976, 1977 e 1978, respectivamente.
O trecho “Pássaro, mulher” recupera a ideia de hibridismo e animalidade presente tanto na estética do artista quanto no álbum “Água do céu- Pássaro”, de 1975.
O verso “Eu sou o poema que afronta o sistema” funciona como síntese conceitual do enredo e dialoga com a canção “Poema”, que também reforça o papel de Ney Matogrosso como artista que enfrentou censura, o conservadorismo e padrões de gênero ao longo de cinco décadas de carreira.
VEJA O SAMBA-ENREDO 2026 : CAMALEÔNICO
Vem meu amor Vamos viver a vida Bota pra ferver Que o dia vai nascer feliz na Leopoldina Sou meio homem, meio bicho O silêncio e o grito Pássaro, mulher Que pinta a verdade no rosto Traz a coragem no corpo E nunca esconde o que é Pelo visível, indefinível Ressignifica o frágil O que confunde é o desbunde Do que desafia o fácil Canto com alma de mulher Arte que sabe o que quer E não se esqueça: Eu sou o poema que afronta o sistema A língua no ouvido de quem censurar Livre para ser inteiro Pois, sou Homem com H E como sou O bicho, bandido, pecado e feitiço Pavão de mistérios, rebelde, catiço A voz que a cálida Rosa deu nome A força de Athenas que o mau não consome O sangue latino que vira Vira, vira lobisomem Eu juro que é melhor se entregar Ao jeito felino provocador Devoro pra ser devorado Não vejo Pecado ao Sul do Equador Se joga na festa, esquece o amanhã Minha escola na rua pra ser campeã




