Mais de 50 anos de reinado: as rainhas que fazem história à frente das baterias
As quatro rainhas mais longevas em ação, Bianca Monteiro, Evelyn Bastos, Sabrina
Sato e Viviane Araújo, falam sobre trajetória, identidade e competição no
carnaval.
A paixão de quatro rainhas de bateria pelas escolas de samba do coração
A paixão de quatro rainhas de bateria pelas escolas de samba do coração
Chegar ao posto mais cobiçado da Avenida é para poucas. Sustentar a coroa por
uma década — ou quase duas — é para raríssimas. No carnaval do Rio, quatro
mulheres atravessaram gerações, modas e julgamentos para se tornarem referências
absolutas à frente das baterias: Bianca Monteiro, da Portela; Evelyn Bastos, da
Mangueira; Sabrina Sato, da Vila Isabel; e Viviane Araújo, do Salgueiro.
Juntas, elas somam mais de 50 anos no cargo que não vale nota, mas faz a Sapucaí
parar. Duas delas, Bianca e Evelyn, desfilam neste domingo (15) na abertura dos
desfiles do Grupo Especial (veja a ordem
DE PASSISTA A CAMPEÃ
Bianca Monteiro, rainha da Portela — Foto: Anderson Bordê/AgNews
Bianca Monteiro, rainha da Portela — Foto: Anderson Bordê/AgNews
Bianca Monteiro conhece cada centímetro do chão azul e branco. Foram 16 anos
como passista da Portela até assumir a frente da bateria. Na estreia como
rainha, em 2017, veio também o título.
“Eu peguei uma Portela muito desacreditada. Sempre torci pela escola, mas me
perguntava se um dia eu ia ver a Portela campeã. Quando estreei, joguei isso
para o universo. E o universo me deu esse presente”, diz.
Para Bianca, ser rainha vai além da fantasia ou da estética.
> “A rainha é mensageira. Ela fala por uma comunidade inteira. Para quem vem da
> comunidade, isso tem um peso muito maior.”
A COROA QUE VEM DO MORRO
Evelyn Bastos, rainha de bateria da Mangueira — Foto: Rafael Quintão/TV
Globo
Evelyn Bastos, rainha de bateria da Mangueira — Foto: Rafael Quintão/TV Globo
Evelyn Bastos nasceu e cresceu no Morro da Mangueira. Filha de rainha, criada na
quadra, ela carrega no corpo e no samba a identidade da escola.
> “É o retrato da mulher negra que sobe e desce o morro todos os dias, que vive
> sua rotina, mas que no carnaval coloca a coroa e reina no maior palco a céu
> aberto do mundo.”
Para ela, a conexão com a bateria é física, energética.
“Quero que o público sinta alguma coisa quando me vê. Arrepio, emoção,
felicidade. O meu corpo manifesta o som de mais de 250 ritmistas.”
DO INTERIOR PAULISTA AO CORAÇÃO DA VILA
Sabrina Sato no ensaio da Vila — Foto: Anderson Bordê/AgNews
Sabrina Sato no ensaio da Vila — Foto: Anderson Bordê/AgNews
Sabrina Sato cresceu em Penápolis (SP) assistindo ao carnaval pela TV. Sem
sambistas na família, encontrou na Vila Isabel um lar improvável — e definitivo.
> “Eu me sinto uma filha adotiva da Vila. Pisei naquele chão com muito respeito.
> O samba não tem preconceito, e a minha história prova isso.”
De ascendência japonesa, Sabrina diz que a escola a abraçou de um jeito
impossível de explicar.
“A bateria é o coração da escola. A rainha está ali para colorir ainda mais esse
coração.”
A RAINHA DAS RAINHAS
Viviane Araújo completa ‘maioridade’ no Salgueiro: veja a evolução da ‘Rainha
das Rainhas’
Viviane Araújo completa ‘maioridade’ no Salgueiro: veja a evolução da ‘Rainha
das Rainhas’
Viviane Araújo ostenta um apelido que nasceu na bateria do Salgueiro e nunca
mais a largou: “rainha das rainhas”. Mesmo não sendo da comunidade, construiu
uma relação de pertencimento baseada em respeito.
“É entender o lugar que você ocupa. Respeitar quem é dali e saber que você
também é respeitada.”
Aos 50 anos, Viviane enfrenta comentários sobre idade com a mesma firmeza que
encara a avenida.
> “Tem gente que diz que já está na hora de parar. Eu vou parar quando eu
> quiser.”
MUITO ALÉM DA BELEZA
Nenhuma delas é julgada oficialmente. A fantasia da rainha não entra no quesito
fantasia. Ainda assim, poucas figuras mobilizam tanto o público.
Para as quatro, o segredo está na conexão direta com a bateria e com quem
assiste.
> “Não é sobre perfeição. É sobre segurança. Ser rainha é estar segura do seu
> corpo e do seu lugar”, diz Bianca.
A pressão estética existe — e se intensificou com as redes sociais —, mas não
define o posto.
“A perfeição é subjetiva. O que é perfeito pra mim pode não ser pra você”,
resume Evelyn.
Sabrina compara a função à de um atleta sob pressão.
> “Você não pode ouvir tudo. Tem que seguir o coração, lembrar do que é
> importante e respeitar quem veio antes.”
RIVALIDADE NA AVENIDA, UNIÃO FORA DELA
Na competição, cada uma defende sua escola. Fora dela, o que prevalece é
admiração e troca.
“A gente quer ganhar pela nossa escola, mas se admira de verdade. Cada uma tem
seu jeito, sua identidade”, diz Viviane.
Sabrina concorda:
> “O mais bonito do carnaval é que nenhuma rainha é igual à outra. Isso é beleza
> na pluralidade.”
Bianca resume o espírito coletivo:
“Cada uma tem sua identidade. O gostoso do samba é isso.”
Evelyn completa:
“Eu aprendi que não posso avançar sozinha. A gente precisa aplaudir umas às
outras para ser digna de aplauso também.”




