Heitor dos Prazeres: O Legado Afro-Brasileiro no Carnaval da Vila Isabel

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“Arquiteto do carnaval”: o papel de Heitor dos Prazeres, enredo da Vila, na história da folia

Sambista, cantor, compositor, pintor e muito mais, Heitor dos Prazeres foi um dos responsáveis por criar os desfiles que marcam o carnaval moderno.

Enredo e samba: Vila Isabel explora a conexão de Heitor dos Prazeres com o Rio, a cultura afro-brasileira e a África

Enredo e samba: Vila Isabel explora a conexão de Heitor dos Prazeres com o Rio, a cultura afro-brasileira e a África

Nesta terça-feira (17) a Unidos de Vila Isabel leva para a avenida o sonho de Heitor dos Prazeres. O enredo conta a história do carioca que, traduzindo a observação do seu cotidiano em arte, ajudou a criar a folia como ela é hoje.

Mais do que sambista, cantor, compositor e pintor, Heitor dos Prazeres foi um “arquiteto do carnaval moderno”, como define Mauro Cordeiro, professor de sociologia do Colégio Pedro II e pesquisador da festa, em entrevista ao DE

Detalhes da fantasia que fazem referência à pintura de Heitor — Foto: Reprodução

ÁFRICA EM MINIATURA

Nascido e criado no berço do samba, o Mano Heitor, como era conhecido, já definia a região da Praça Onze como uma “África em miniatura”, muito antes da Gamboa ser batizada de Pequena África.

Ao falar da biografia de Heitor, Cordeiro ressalta o ano do seu nascimento – 1898, só dez anos depois da abolição da escravidão.

“Uma abolição tardia, incompleta, no qual a população negra não teve acesso a terra, à educação, à saúde, ou qualquer política compensatória” diz o professor.

“O Sonho”, pintura de Heitor dos Prazeres — Foto: CCBB

E com essa liberdade, ainda que recente e longe de ser plena, a comunidade negra do Rio de Janeiro efervescia. Foi esse cotidiano, da fé, da música e das festas, que inspiraram a produção de Heitor, na música e na pintura.

O samba veio de casa e do Candomblé. Ogã e tocador de atabaque, ainda na infância, frequentou a Casa da Tia Ciata, onde tocou com grandes nomes da época. Mas os primeiros ensinamentos vieram do pai, marceneiro, e do tio Hilário Jovino Ferreira, o Laláu de Ouro. Na juventude, começou a desfilar tocando cavaquinho.

Nesse ambiente, o rapaz se envolveu com a geração de sambistas que produziu a transição mais marcante do estilo. Com a chamada Turma do Estácio, o samba “amaxixado” foi ganhando um ritmo mais marcado, com os batuques aprendidos nas celebrações religiosas afrobrasileiras.

“Outros instrumentos vão sendo criados e esses instrumentos vão oferecer a base para a construção de uma outra forma de brincar o carnaval que são as escolas de samba”, explica Cordeiro.

Antes dos desfiles do carnaval moderno, a festa era mais segregada. As elites brincavam nas suas festas, nos seus salões, e as populações periféricas se juntavam para tocar as marchinhas nos bairros.

Foi com esse samba ritmado que surgiram as grandes baterias que deram origem às escolas de samba que definem o carnaval de hoje. E Heitor estava lá na concepção dessas instituições da folia carioca.

“Arlequim”, de Heitor dos Prazeres — Foto: CCBB

Ele que escolheu o azul e o branco da Portela, ajudou a fundar a Estação Primeira de Mangueira e a União do Estácio.

“Ao longo de quase um século, as escolas de samba conseguiram conquistar a hegemonia da festa, se transformando nesse grande símbolo do carnaval carioca, símbolo do carnaval brasileiro. E o Heitor é uma figura decisiva desse processo.”

E não foi só com batuque e melodia que ele fez arte. Autodidata, também produziu várias obras visuais, colocando, sempre, a sua comunidade em primeiro plano.

“A vida na favela, nos subúrbios, as festas, o candomblé, o samba, tudo isso nas cores do Heitor, representavam uma vida no Rio de Janeiro a partir da experiência negra da cidade”, explica o professor.

MODERNISTA NEGRO

É difícil definir Heitor, mas, se o historiador precisasse resumi-lo em um termo seria “um pensador do Brasil”.

“O Heitor é um grande intelectual de uma forma de modernidade brasileira pensada a partir da negritude” diz o pesquisador.

“A gente olha a modernidade, pensa o modernismo brasileiro a partir da semana de arte, a partir do modernismo paulistano, como se fosse modernismo nacional. E outros projetos estavam em disputa. O Heitor é um grande intelectual de um projeto de modernidade negra pensado a partir do samba.”

Heitor dos Prazeres com pintura, 1963 — Foto: Foto de Patrick Ward, cedida pelo CCBB

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