‘A Vila negra é’: enredo afro marca carnaval da Vila após polêmica com Paulo Barros em 2025; entenda
Escola aposta em temática africana, troca de carnavalescos e resgate da própria história depois de debate que marcou o carnaval do ano passado, quando Paulo Barros criticou o excesso de enredos afros no Rio.
Enredo e samba: Vila Isabel explora a conexão de Heitor dos Prazeres com o Rio, a cultura afro-brasileira e a África
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Apontada como uma das favoritas ao título do carnaval 2026, a Unidos de Vila Isabel levará para a Sapucaí o enredo “Macumbembê, samborembá: sonhei que um sambista sonhou a África”, uma proposta de forte identidade afro centrada na trajetória do sambista, compositor e pintor Heitor dos Prazeres.
A escolha é vista por estudiosos do carnaval como um movimento que reconecta a escola à própria história e à cultura negra carioca, um ano após a polêmica envolvendo o então carnavalesco da agremiação Paulo Barros, que criticou publicamente o que chamou de “excesso” de enredos afros nos desfiles de 2025.
Para o pesquisador e jornalista Fábio Fabato, a decisão dialoga diretamente com a identidade histórica da agremiação.
“A DE é uma bandeira de 80 anos que se entende com enredos ligados à cultura negra, aos saberes de sua comunidade, tem o Martinho da Vila mais do que como baluarte: um totem. Foi a escola que fez o, para muitos, maior desfile da história, Kizomba, no centenário da libertação dos escravizados”, acrescentou.
O primeiro casal de mestre‑sala e porta‑bandeira da Unidos de Vila Isabel, Felipe Lemos e Daniella Nascimento, no desfile de 2019. — Foto: Gabriel Nascimento | Riotur
Após a repercussão negativa das declarações de Paulo Barros no mundo do samba, a Vila Isabel passou a adotar decisões que reforçaram esse reposicionamento.
Este ano, a escola apresenta um enredo totalmente ancorado na África, na ancestralidade negra e em territórios simbólicos do samba, como a Pequena África, a Pedra do Sal e a casa de Tia Ciata.
Além do tema escolhido, a mudança se refletiu na equipe artística. Para 2026, a DE contratou a dupla de carnavalescos Gabriel Haddad e Leonardo Bora, identificada com narrativas ligadas às culturas negras e vencedora em 2022 com um desfile histórico sobre Exu na Grande Rio.
EXCESSO DE ENREDOS AFRO
Toda a polêmica teve início em fevereiro de 2025, quando Paulo Barros declarou não gostar de enredos com temática africana. Na ocasião, ele comandava o carnaval da própria Vila Isabel, com enredo “Quanto mais eu rezo, mais assombração aparece”, sobre assombrações que vivem no imaginário popular.
Os comentários geraram forte reação no universo do samba, sobretudo porque a Vila Isabel é historicamente associada a enredos ligados à cultura negra e conquistou seu título mais emblemático, em 1988, com Kizomba, sobre o centenário da Abolição da Escravidão.
A repercussão ganhou força após novas declarações do carnavalesco, que disse que “desfiles com temática africana são todos iguais, e ninguém entende nada”.
Uma das reações mais duras partiu de Tunico da Vila, músico e filho de Martinho da Vila. Para ele, a declaração foi “infeliz” e atingiu diretamente a identidade da escola.
ÁFRICA FORTE NA SAPUCAÍ
O debate levantado por Barros ocorreu em um contexto em que 9 das 12 escolas do Grupo Especial abordaram ou fizeram referência à África e às religiões de matriz africana em 2025.
Para Fabato, a decisão da Vila Isabel também se relaciona com a leitura do momento histórico do carnaval.
Desfile da Vila Isabel na Sapucaí — Foto: Reuters/Pilar Olivares
Tunico da Vila reforça que os temas afros são estruturais para todas as escolas de samba do Rio de Janeiro.
CHEGADAS E PARTIDAS
A mudança de rumo da Vila Isabel se consolidou com a saída de Paulo Barros, após um 8º lugar em 2025, e a contratação de Gabriel Haddad e Leonardo Bora.
A dupla chegou à escola após uma sequência de bons resultados e títulos, incluindo o campeonato da Grande Rio em 2022 com um enredo centrado em Exu, considerado um marco recente do carnaval carioca.
Gabriel Haddad e Leonardo Bora, carnavalescos da Vila Isabel, na Pedra do Sal — Foto: Divulgação
Fabato vê na chegada dos dois carnavalescos um alinhamento natural com a identidade da Vila.
‘A VILA NEGRA É’
O enredo da Vila Isabel em 2026 tem como eixo a vida e a obra de Heitor dos Prazeres, artista fundamental na formação do samba e da cultura popular carioca.
A narrativa propõe uma “África imaginada”, recriada no Rio de Janeiro a partir de territórios como a Pequena África, a Pedra do Sal, a Praça Onze e a casa de Tia Ciata, espaços centrais para a história do samba e das religiões de matriz africana.
Carro alegórico da Vila Isabel traz São Jorge em movimento e dragão soltando fumaça — Foto: Alexandre Durão / g1
O lançamento do enredo ocorreu na Pedra do Sal, com uma roda de samba aberta ao público, reforçando a conexão simbólica entre o tema escolhido e os espaços históricos da cultura negra carioca.
O samba-enredo traz versos como “De todos os tons, a Vila Negra é”, reafirmando de forma explícita a identidade que a escola pretende levar para a Avenida.
Vila Isabel reafirma suas raízes e reúne centenas de pessoas na Pedra do Sal para apresentação dos sambas finalistas — Foto: Divulgação
CHANCE DE TÍTULO
Com um enredo de forte apelo simbólico, um samba bem recebido no pré-carnaval e uma dupla de carnavalescos consagrada, a Vila Isabel aparece entre as favoritas ao título em 2026, segundo os especialistas.
Tunico vai além e aposta no campeonato da Vila Isabel em 2026.
Fim.




