Tem que ser ruim da cabeça ou doente do pé para enxergar uma linha reta e segura nos 700 metros da Passarela do Samba. O mágico altar dos bambas tem curvas, atalhos, obstáculos e ciladas para quem não sabe chegar. Atravessá-lo demanda cautela, reverência e bom senso – mas respeitar o protocolo não escrito é muito compensador. A dimensão invisível da avenida sabe ser generosa e cruel em doses igualmente maciças. A consagração, no dia derradeiro da odisseia de 2026, chegou para Pixulé, o espetacular intérprete do Paraíso do Tuiuti, que encantou o público ao entoar o samba da escola acompanhado somente pelo violão. Um arrebatamento viabilizado pelo novo sistema de som da Sapucaí. A escola de São Cristóvão teve ainda a bateria de mestre Marcão e a espetacular rainha Mayara Lima, a maior dançarina da festa na atualidade. O enredo sobre o ifá cubano rendeu abertura imponente, com o abre-alas branco, mas alegorias e fantasias estiveram abaixo dos quesitos ligados à musica e ao ritmo. Em seguida, passou uma das favoritas do ano, a Vila Isabel, ostentando toda a beleza plástica característica dos carnavalescos Leonardo Bora e Gabriel Haddad, que estrearam na escola, para narrar a história do multiartista Heitor dos Prazeres. A azul e branco teve alegorias e fantasias lindas para realizar desfile técnico, praticamente sem erros. Confirmou-se na disputa do título. O samba, tido como melhor da safra, passou com a avenida fria, mas os componentes têm nada com isso: cantaram o tempo todo e participaram das paradinhas da criativa bateria do mestre Macaco Branco. Foi bonita a viagem pelos primórdios do carnaval promovida pela Vila Isabel. Heitor dos Prazeres está feliz. Desde os tempos do homenageado pela Vila, a festa se renova incessantemente. Agora, chegou a vez de Antônio Gonzaga, que assinou com brilhantismo seu primeiro carnaval, pela Grande Rio. Com identidade estética e coragem para propor novos temas e propostas visuais. Terminou como protagonista da tricolor. Ué, e Virginia? A rainha de bateria influencer ficou com o mico do ano, ao retirar o costeiro da fantasia em plena pista – o que pode custar décimos à escola no quesito. A alteza de Caxias ainda teve problemas com o tapa-sexo, mostrando (com trocadilho) que não soube chegar na avenida escorregadia aos desatentos. Melhor se regalar com o que veio depois dela: a bateria do maravilhoso mestre Fafá, que conduziu o poético samba da Grande Rio, com citação a Paulo Freire e os versos ‘A vida, parecida com as águas, Não é doce como o rio, Nem salgada feito o mar’. E a última a pisar o altar dos sambistas foi a academia que inventou o carnaval contemporâneo. O Salgueiro celebrou a própria festa, cantando Rosa Magalhães num desfile pontilhado por referências a desfiles caros ao povo de samba. A escola escolheu o bom humor, entre as inúmeras possibilidades na obra da homenageada, como estilo. Os componentes cantaram o samba cheio de referências a enredos de Rosa. No fim, a carnavalesca surgiu coroada num carro que tinha diversos herdeiros de sua arte, hoje espalhados por várias escolas. Vida longa à manifestação cultural dos muitos virtuoses, que se renovarão para sempre.




