Entre Gigantescos Blocos e Diversidade Cultural: 10 Anos Transformando o Carnaval de Rua de SP – Entrevista com Minhoqueens, Pagu e Explode Coração

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Entre megablocos e resistência cultural: os 10 anos que transformaram o carnaval
de rua de São Paulo

O crescimento acelerado, a entrada de grandes marcas e a profissionalização dos desfiles ampliaram a festa. O DE conversou com os fundadores do Minhoqueens,
Pagu e Explode Coração.

O Bloco Minhoqueens arrastou milhares de foliões no centro da capital
paulista, neste sábado (14) de Carnaval. — Foto: RAUL LUCIANO/ATO PRESS/ESTADÃO
CONTEÚDO

Uma década depois de consolidar o carnaval de rua como política pública, São
Paulo colhe os frutos de uma expansão acelerada — e enfrenta o desafio de equilibrar crescimento
econômico e identidade cultural.

Desde 2013, quando a Prefeitura passou a regulamentar oficialmente os desfiles e
incorporá-los ao calendário da cidade, o número de blocos se multiplicou. A
festa deixou de ser dispersa e passou a contar com regras, autorizações formais
e planejamento urbano.

O público cresceu exponencialmente, o Centro voltou a ser ocupado por multidões
e o carnaval se tornou um dos principais eventos do calendário turístico da
capital. Somente no ano passado, 16 milhões de foliões participaram da
megafesta.

Ao longo desse processo, no entanto, a festa também passou a atrair grandes
marcas, artistas nacionais e investimentos mais robustos. O que começou como
movimento espontâneo de ocupação cultural ganhou escala industrial — com trios
elétricos de grande porte, estruturas interligadas de som e operações logísticas
comparáveis às de festivais privados.

É nesse cenário que blocos como Minhoqueens, Pagu e Explode Coração — que fazem
parte da segunda geração do carnaval de rua — completam dez anos. Criados em
2016, durante a fase de maior expansão da festa, eles cresceram junto com o
carnaval e hoje refletem as tensões desse modelo.

Primeiro desfile do bloco Minhoqueens em 2016. — Foto: Arquivo pessoal

Quando Fernando Magrin – que também dá a vida à drag queen Mama Darling – criou
o evento do Minhoqueens no Facebook, em 2016, a ambição era modesta: reunir
algumas centenas de amigos no Minhocão, no Centro, com uma caixa de som
portátil.

A resposta surpreendeu. Milhares confirmaram presença, e o grupo precisou correr
para alugar um caminhão com som às pressas. Entre 15 mil e 20 mil pessoas
apareceram no primeiro desfile.

A partir dali, o improviso deixou de ser opção. O crescimento exigiu trio
elétrico, equipe técnica, gerador, ambulâncias, equipe de segurança, estrutura
de produção. A profissionalização foi inevitável — e cara.

Ao mesmo tempo, o Minhoqueens se consolidava como um dos principais espaços da
cultura drag no carnaval paulistano, ampliando a presença LGBTQIAPN+ nas ruas e
transformando o asfalto em palco de afirmação e pertencimento.

> “O bloco levou essa coisa da boate para rua e a valorização da arte drag,
> porque o foco do bloco sempre foi, desde o início, um lugar onde você pudesse
> ser uma drag queen – mesmo que fosse por um dia de carnaval”, afirma Magrin.

Desfile do bloco Pagu, em 2017, reuniu centenas de foliões. — Foto:
Divulgação/Marcos Bacon

O Pagu também nasceu em 2016, criado por Mariana Bastos e outras mulheres a
partir de um coletivo feminista. O bloco estreou com cerca de 7 mil pessoas e
estrutura robusta. Hoje reúne entre 100 mil e 120 mil foliões.

A bateria exclusivamente feminina se tornou símbolo. Mulheres tocam todos os
instrumentos, inclusive aqueles mais pesados e historicamente associados à força
masculina. O desfile é também espaço pedagógico: oficinas, formação musical,
bolsas para quem não pode pagar.

Ao longo da década, o bloco virou rede de apoio para mulheres que encontraram
ali acolhimento após situações de violência ou exclusão.

Mas o crescimento trouxe camadas de complexidade. A cada ano, aumentam as
exigências técnicas, os protocolos de segurança e as negociações com o poder
público. Segundo Mariana, a principal dificuldade não é mobilizar pessoas — é
lidar com a instabilidade institucional. A gestão do carnaval já passou por
diferentes estruturas dentro da prefeitura, e a troca constante de
interlocutores obriga os blocos a recomeçar negociações anualmente.

Para ela, falta tratar o carnaval como política cultural permanente, com
planejamento contínuo e participação efetiva dos blocos nas decisões. “Não é só
evento. É formação, é cultura, é cidade”, afirma.

Explode Coração ocupa o Centro de São Paulo durante carnaval. — Foto:
Reprodução/Redes sociais

O Explode Coração, fundado pela baiana Gi Galvão, nasceu na Santa Cecília com
expectativa de 500 pessoas e trouxe o tropicalismo e a diversidade cultural da
Bahia para a Praça da República. Na estreia, recebeu 10 mil, enquanto a última
edição, levou cerca de 300 mil foliões ao Centro.

O bloco se notabilizou pela mistura de música popular brasileira rearranjada em
ritmos carnavalescos e intervenções artísticas que dialogam com a arquitetura da
cidade, como balés aéreos em prédios históricos. O centro, durante anos visto
como território degradado ou perigoso, virou palco de um ritual coletivo de
beleza.

“Ocupar as ruas com alegria também é uma forma de resistência. Colocar nossos
corpos expostos a essa alegria diante de tantas dificuldades que atravessamos no
âmbito político é uma forma, sim, de resistência”, resume Gi.

Mas a ocupação também exige infraestrutura. Nos anos em que a segurança virou
manchete, especialmente com relatos de arrastões, os blocos cobraram mais
planejamento integrado e escuta ativa do poder público.

Além disso, para financiar o desfile, o Explode passou a promover shows ao longo
do ano, em espaços como a Casa Natura e o Edifício Martinelli. A estratégia é
comum entre blocos independentes: criar receita própria para compensar a
instabilidade do patrocínio.

Embora o carnaval movimente cifras expressivas na economia paulistana, os
organizadores afirmam que a distribuição de recursos não acompanha a diversidade
da festa.

Ao longo da última década, o carnaval paulistano consolidou-se como um dos
maiores do país em número de foliões. No ano passado, a cidade registrou o
movimento de 16 milhões de foliões em oito dias de festa.

A diversidade virou marca registrada: blocos de bairro convivem com coletivos
identitários, música eletrônica, cortejos tradicionais e megablocos estrelados.
Se o carnaval cresceu, a estrutura pública não acompanhou no mesmo ritmo —
segundo os organizadores.

A relação com a prefeitura é descrita como instável. A cada gestão, muda o
modelo de organização, mudam as regras, mudam os interlocutores. Blocos relatam
dificuldade de diálogo e planejamento feito em cima da hora.

A gestão do carnaval já passou por diferentes formatos — das Subprefeituras à
SPTuris — e, na avaliação dos fundadores, a troca constante de comando impede
continuidade. Eles defendem a criação de uma instância permanente de gestão com
participação dos blocos, nos moldes do que ocorre em cidades como Rio de Janeiro
e Salvador.

Bloco Pagu celebra a força feminina com repertório de ícones como Rita
Lee e Gal Costa, desfilando no centro de SP. — Foto: Divulgação.

“O carnaval precisa ser tratado como política cultural permanente, não como
evento sazonal”, afirma Mariana.

Segurança também já foi gargalo, especialmente nos anos em que relatos de
arrastões dominaram o noticiário. Para os blocos, planejamento integrado e
escuta ativa são fundamentais para evitar que a festa seja criminalizada.

Dez anos depois, Minhoqueens, Pagu e Explode Coração defendem que ajudaram a
moldar a identidade do carnaval paulistano — ocupando o centro, afirmando
identidades, criando redes de apoio.

Se São Paulo hoje recebe milhões de foliões, isso começou com gente que
acreditou na rua quando ela ainda era vista como risco. “O carnaval é o maior
festival gratuito a céu aberto do planeta”, diz Gi.

Para quem construiu essa história, a disputa não é contra o crescimento. É
contra o esquecimento. O desafio agora é garantir que, no meio dos trios
patrocinados e dos cachês milionários, a essência continue passando: uma cidade
que se reconhece — plural, imperfeita e vibrante — quando decide dançar junta.

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