Mãe põe gravador na mochila e flagra maus-tratos contra filho em creche no DF: ‘Vai ficar o dia todo aí, pode morrer de chorar’
Criança de 2 anos passou mais de uma hora chorando; em vez de acolhimento, recebeu broncas e ameaças. Profissionais foram demitidas; Secretaria de Educação acompanha o caso.
Funcionárias são demitidas de creche após denúncia de maus-tratos
Uma moradora do Distrito Federal instalou uma escuta na mochila do filho de 2 anos após identificar que ele tinha “mudado de comportamento” após passar a frequentar uma creche pública.
As gravações confirmaram a suspeita: a criança vinha sofrendo maus-tratos das cuidadoras em sala de aula.
> “Ele chegava com muita fome e como se tivesse passado o dia todinho chorando. Os olhinhos bem lacrimejados. Eu perguntava: ‘Heitor, você chorou?’. E ele: ‘Chorei'”, descreve a técnica de enfermagem Gessicarla de Almeida.
Ela diz que Heitor também passou a chorar ao ver a mochila – e a dizer que não queria ir para a “escolinha”. As gravações revelam que Heitor chegou a ficar chorando por pelo menos uma hora seguida na creche, sem pausas.
Gessicarla de Almeida mostra mochila do filho, onde instalou escuta para flagrar maus-tratos em creche no DF — Foto: TV Globo/Reprodução
Os áudios obtidos pela TV Globo mostram a gritaria dos alunos em sala e a ríspida das funcionárias que deveriam cuidar das crianças. Os nomes da professora e das duas monitoras que atuavam na sala não foram divulgados.
Em vários trechos, uma monitora se dirige diretamente ao filho de Gessicarla com grosseria.
> “Vai adiantar você ficar chorando, não. Você não vai me ganhar no choro. Vai ficar o dia todo aí, nem que fique com fome”, diz a mulher ao menino de 2 anos e 8 meses.
Em outro momento, no mesmo dia, ela ameaça o filho de Gessicarla.
> “Eu só vou ligar para o seu pai, para a sua avó e para a sua mãe quando você parar de chorar. […] Vai embora agora não, vai ficar o dia todo aí. Pode morrer de chorar”.
O choro da criança continua. Em vez de acolher o menino, a monitora manda ele se afastar de forma ríspida.
> “Não quero você aqui perto de mim não. Vai para lá, pode ir para lá” diz a mulher, enquanto o menino segue chorando.
As profissionais foram demitidas. A Secretaria de Educação afirmou que acompanha o caso e que qualquer conduta irregular é rigorosamente apurada pela corregedoria da pasta.
Monitora repreende e ameaça aluno em creche no DF; mãe flagrou conduta com gravador — Foto: TV Globo/Reprodução
VIOLÊNCIA PSICOLÓGICA
A mãe registrou um boletim de ocorrência na Polícia Civil e fez exame de corpo de delito no Instituto Médico Legal. O Conselho Tutelar também foi acionado.
Para Gessicarla, o filho sofreu violência psicológica na creche.
> “Ele só queria colo, só queria que alguém desse a atenção devida para ele”, resume.
A psicóloga Alessandra Araújo afirma que crianças nessa idade precisam de segurança e estabilidade. Casos como este podem trazer grandes impactos emocionais.
“Ela [a criança] começa a desenvolver dois pontos muito fortes: um estresse muito grande e uma ansiedade de separação intensificada”, explica.
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PROFISSIONAIS FORAM DESLIGADAS
O Centro de Educação da Primeira Infância (Cepi) Araçá-Mirim fica em Sobradinho II, a poucas quadras da casa da família.
A creche é pública, de responsabilidade do governo do DF, mas administrada pelo Instituto Vitória-Régia.
A Coordenação Regional de Ensino de Sobradinho afirmou que o instituto demitiu as três profissionais que atuavam nessa sala assim que recebeu a denúncia.
Como os nomes não foram divulgados, a TV Globo não conseguiu contato com os advogados da professora e das educadoras.
OUTRO CASO NA MESMA CRECHE
A TV Globo apurou que este não foi o primeiro caso de maus-tratos registrado na creche.
Fotos feitas pela família mostram a testa e as pernas machucadas de uma menina de 2 anos que frequentava a mesma escolinha. A família também registrou ocorrência.
“A minha netinha passou por maus-tratos na creche, mas calaram a gente. Hoje a gente tem voz e a gente quer justiça, para que outras crianças não passem por isso”, diz a aposentada Renata de Queiroz, avó da vítima.
> “Minha neta era uma criança amável, amorosa, nunca agrediu outro coleguinha. Ela passou a não querer mais ir para a creche, teve uma febre de 40 ºC emocional”, relata.




