Quinze anos após redescoberta do Cais do Valongo, arqueólogos ainda analisam objetos
A redescoberta do Cais do Valongo, por onde chegaram mais de 1 milhão de africanos que seriam escravizados no Brasil, completou 15 anos no dia 26 de fevereiro. O achado teve imensa importância histórica, mas o trabalho de pesquisadores na região está muito longe de acabar: as obras que revelaram o cais também desenterraram cerca de 1,5 milhão de objetos de valor arqueológico que ajudam a contar muitos fragmentos da história da cidade.
O material segue sendo analisado e se encontra no Laboratório Aberto de Arqueologia Urbano (LAAU) que fica no Armazém Docas André Rebouças – antigo edifício Docas Dom Pedro II, em frente ao Valongo. O estabelecimento de um centro de interpretação dos achados foi uma exigência da Unesco quando o local foi reconhecido como patrimônio da humanidade.
Os objetos encontrados dão um panorama valioso sobre como era o cotidiano dos cariocas há séculos atrás
Os cerca de 1,5 milhão de itens foram achados em diferentes pontos da Zona Portuária – aproximadamente 500 mil itens que têm uma ligação mais direta com o Cais do Valongo. Entre estes, há objetos que mostram elementos da religiosidade e da riqueza cultural de alguns dos africanos que foram trazidos violentamente para ser escravizados no Brasil. Entre esses itens há búzios, contas, anéis, figas e outros artesanatos.
O acervo está distribuído em caixas em 12 contêineres com temperatura controlada, protegidos da umidade e outros fatores de desgaste.
Para continuar com as pesquisas, a equipe do LAAU conta atualmente com 6 profissionais, sendo três arqueólogos/conservadores, dois auxiliares de arqueologia e um profissional de serviços gerais.
Todos os itens já passaram por análises que confirmaram seu valor arqueológico. O desafio agora é aprofundar a pesquisa em cerca de 60% dos objetos, cruzando informações para entender a história de cada um deles.
É o que foi feito, por exemplo, com uma garrafa inglesa de graxa encontrada nas escavações do Cais do Valongo, a cerca de 2 a 3 metros de profundidade, na área da atual Avenida Barão de Tefé, a rua do LAAU.
Um sapato masculino e um feminino que resistiram relativamente ao tempo também estão sendo analisados
Um sapato masculino e um feminino que resistiram relativamente ao tempo – provavelmente que foram posses de pessoas abastadas – também estão sendo analisados. Esses itens estavam em uma área onde, há dois séculos, batia o mar perto do Cais do Valongo e eram usados para descarte de lixo.
A equipe ressalta que a contribuição de outros pesquisadores de outras instituições pode ser fundamental para contribuir nesse trabalho. Algumas instituições já ajudam inclusive a montar exposições temáticas com recortes dos achados.
Desde 2014, a Prefeitura investiu mais de R$ 20 milhões na conservação, pesquisa e guarda do acervo.
A maioria dos objetos analisados pelo LAAU é do século XIX
Rebouças foi um engenheiro, intelectual e abolicionista brasileiro. Formado em engenharia militar na Escola Militar do Rio de Janeiro, destacou‑se como um dos primeiros engenheiros negros do país e construiu uma carreira marcada por obras de infraestrutura, como docas, estradas de ferro e sistemas de abastecimento de água nas principais cidades do Império, além de ter atuado como engenheiro militar na Guerra do Paraguai.
Prédio projetado por André Rebouças será restaurado e requalificado
O prédio onde todos esses itens são analisados foi projetado pelo engenheiro André Rebouças (1838-1898). Rebouças foi um engenheiro, intelectual e abolicionista brasileiro. O prédio onde fica o LAAU, que era chamado de Docas Dom Pedro II foi inaugurado em 1871 como parte da modernização do porto do Rio de Janeiro.
Recentemente, o Governo Federal anunciou um investimento de cerca de R$ 86,2 milhões, por meio do Fundo de Defesa dos Direitos Difusos, para o restauro e requalificação do edifício. A reforma visa transformar o prédio em um grande complexo voltado à memória e cultura afro‑brasileira, abrigando, além do LAAU, o Centro de Interpretação do Patrimônio Mundial Cais do Valongo. A estrutura seria adaptada para uso público e cultural.




