Delegada dá dicas essenciais de segurança para mulheres viajantes

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Delegada dá dicas de segurança para mulheres viajantes

A delegada de polícia Martha Vergine, titular da 5ª Delegacia Especializada de
Atendimento ao Turista, no Porto de Santos, no litoral de São Paulo,
soma mais de duas décadas de atuação na segurança pública. Ela também atua como
docente universitária e na formação de profissionais da área.

Além do trabalho policial e acadêmico, Martha compartilha nas redes sociais
conteúdos sobre segurança, com foco em mulheres que desejam viajar sozinhas ou
com mais autonomia. Com experiência de quem já visitou 93 países e deu três
voltas ao mundo, a delegada utiliza suas vivências pessoais e profissionais para
orientar as seguidoras.

Na entrevista ao g1, Martha falou sobre os desafios de atuar em um ambiente majoritariamente
masculino, a rotina intensa entre delegacia e docência, além da importância da
informação na prevenção da violência contra mulheres com os conteúdos que produz e chama de ‘inteligência urbana’.

Como é estar há mais de 20 anos atuando como delegada em um ambiente historicamente marcado pela predominância masculina?

Não é só historicamente masculino, ainda é atualmente. Hoje acredito que as
mulheres representam algo em torno de 25% da instituição, antes era ainda menos.
Durante muito tempo houve uma predominância masculina, mas hoje cada vez mais
mulheres ocupam espaços nas instituições de segurança pública e também posições
de liderança.

Ainda não é o cenário ideal, mas nesses mais de 20 anos eu vejo avanços claros.
Na prática, as mulheres demonstram competência, preparo técnico e capacidade de
decisão mesmo em ambientes de alta pressão. Algumas características nossas são
muito importantes para o trabalho policial, como paciência, sensibilidade no
atendimento às vítimas e perspicácia em interrogatórios.

Você é professora universitária e também atua na preparação de profissionais
da segurança pública. Como conciliar tantas atividades?

Eu preparei alunos para concursos durante 12 anos. Hoje continuo atuando na
docência, tanto na universidade quanto na formação de profissionais da segurança
pública. Conciliar tudo exige priorização. Eu amo o meu trabalho na delegacia e
tenho muito orgulho da equipe que construí. Ao mesmo tempo, dar aula é
extremamente gratificante.

A delegacia me mantém conectada com os problemas da área de competência que é o
Porto de Santos. Já a docência permite transformar essa experiência prática em
conhecimento para as novas gerações, estimulando o pensamento crítico e a
responsabilidade institucional.

Diante de tantas demandas, na delegacia e na docência, como é a sua rotina?

É uma rotina intensa. Acordo cedo e durmo relativamente tarde. Divido meu dia em
três períodos: antes de sair de casa já resolvo algumas demandas, depois passo o
dia na delegacia e à noite me dedico às aulas e ao atendimento de alunos. Também
cuido do corpo. Faço Krav Maga, corrida e musculação. É preciso ter um corpo
forte para sustentar uma rotina tão intensa.

Além disso, consigo ter tantas atividades, porque eu não tenho filhos. A mulher
que é mãe tem uma dificuldade maior, porque existem outras vidas que não a dela
que mexem muito na agenda. Reconheço e valorizo muito a mulher que, como eu,
também tem uma agenda insana e ainda cria seus filhos.

Existe alguma área do trabalho policial que considera mais desafiadora? Algum
caso marcou muito sua carreira?

A segurança pública como um todo já é naturalmente desafiadora. Lidamos
diariamente com conflitos humanos profundos e casos de violência grave. Os casos
que mais me impactaram são aqueles que envolvem mulheres e crianças. Trabalhei
um período na divisão antissequestro e essas ocorrências sempre marcaram muito.

Um dos que mais me marcou [ocorreu] no começo da carreira. O caso de uma menina
de cerca de oito anos vítima de abuso sexual por parte do namorado da avó dela.
Quando prendemos o agressor, ela ficou com muita raiva de mim, porque ainda não
entendia o que havia acontecido e pedia para não prendê-lo. Chorei naquela
madrugada pensando naquela criança.

Como começou a sua atuação nas redes sociais, com dicas de segurança para
mulheres, principalmente em viagens?

A ideia surgiu da união de duas coisas da minha vida, que são os mais de 20 anos
de experiência como delegada e minha paixão por viajar. Já visitei mais de 90
países e sempre viajei com planejamento e consciência de segurança. Percebi que
muitas mulheres têm o sonho de viajar, mas não têm a segurança ou o conhecimento
necessários para isso, e comecei a compartilhar as orientações.

Hoje esse conteúdo evoluiu para algo maior, que eu chamo de inteligência urbana.
Trabalho tanto com a informação, que é o preventivo, quanto com ajudar as
mulheres a entenderem e lerem o mundo para não serem vítimas. Meu foco é mostrar
como não se tornar alvo. Quanto mais pessoas aprendem o meu conteúdo, menos
vítimas eu acredito que terei na delegacia.

Quais atitudes básicas são importantes para mulheres se prevenirem em
viagens?

A segurança começa antes mesmo de fazer a mala. É fundamental pesquisar sobre o
destino, entender os costumes locais e evitar comportamentos que possam gerar
riscos. Também é importante manter atenção ao ambiente, observar o comportamento
das pessoas ao redor e saber interpretar situações. Essa capacidade de leitura
do ambiente é o que eu chamo de inteligência urbana.

Como a experiência de já ter visitado 93 países influência sua percepção
sobre o mundo?

Viajar amplia muito a percepção sobre o mundo. Cada lugar tem uma cultura,
hábitos e dinâmicas sociais diferentes. Eu sempre digo que nunca volto a mesma
pessoa de uma viagem. Mas, ao mesmo tempo, a segurança sempre precisa ser um
pilar. Não depende apenas do lugar, mas também da forma como nos posicionamos
naquele ambiente.

Como analisa o cenário atual da violência contra a mulher?

É um problema estrutural e muito sério. Acredito que no passado não existia
menos violência, apenas se falava menos sobre o assunto. Muitas situações de
violência contra a mulher eram culturalmente toleradas. Hoje se sabe mais, as
mulheres têm mais consciência e conseguem enxergar com um pouco mais de
facilidade um lar abusivo ou relacionamento tóxico, além de mecanismos
facilitados para procurar ajuda.

Apesar da evolução, ainda precisamos de políticas públicas eficazes, atuação
firme das instituições e uma mudança cultural com os homens e meninos que estão
crescendo. Precisamos fortalecer as mulheres com informação e autonomia.

Por que muitas mulheres ainda têm receio de denunciar?

Não existe uma resposta simples para um problema complexo. Muitas vezes há
dependência emocional ou financeira, medo de represálias, vergonha ou falta de
rede de apoio. Em alguns casos, o agressor é bem visto socialmente, o que faz
com que a vítima tenha medo de ser desacreditada. Por isso é fundamental
fortalecer a autonomia, seja emocional, física ou financeira das mulheres.

Quais atitudes simples ajudam na prevenção da violência no dia a dia?

Essa habilidade de reconhecer os sinais e se questionar. Se um relacionamento
causa medo, insegurança ou sofrimento constante, não é amor. É importante buscar
ajuda, seja com familiares, amigos, profissionais ou instituições como
delegacias e serviços de apoio. E nunca normalizar comportamentos violentos.

Quais habilidades são essenciais para mulheres que desejam seguir carreira
policial?

A carreira policial exige preparo técnico, equilíbrio emocional e capacidade de
tomar decisões sob pressão porque isso acontece quase todos os dias. Essa
carreira exige um compromisso de servir a sociedade. É uma profissão de serviço,
de ajudar pessoas em momentos difíceis. Se a mulher tem coragem e senso de
responsabilidade, vai ser muito feliz nessa profissão.

Para encerrar: qual mensagem você deixa neste Dia Internacional da Mulher?

Acho que o Dia da Mulher é todo dia, mas ter um dia específico é importante para
reflexão. Ainda vivemos em um mundo que não é totalmente seguro para as
mulheres. Por isso é fundamental investir em conhecimento, autonomia,
inteligência, autoestima e independência financeira.

Também é importante fortalecer a mente e o corpo, desenvolver coragem e
capacidade de reagir diante de situações de risco. Quando a mulher desenvolve
isso que chamo de inteligência urbana, ela consegue viver com mais liberdade e
segurança. Nesse dia é importante que a gente converse sobre ser mulher no mundo
moderno.

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