A troca de afagos entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e Pablo Marçal no ato de filiação deste segundo ao União Brasil sinalizou que os embates entre o influenciador digital e o bolsonarismo, explicitados nas eleições de 2024, são página virada.
Neste texto, a IstoÉ ouve especialistas para explicar o potencial dessa reconcilicação para os dois personagens e explica a mudança de comportamento do grupo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que historicamente descartou desafetos na direita.
Pré-candidato à Presidência da República, Flávio faltou ao evento do União Brasil por razões médicas, mas enviou um vídeo em que chamou o novo aliado de “guerreiro” e disse contar com ele para a “guerra espiritual” que travará na campanha contra o presidente Lula (PT), utilizando termos conhecidos do vocabulário do ex-coach.
O gesto restabelece uma relação rompida nas eleições de 2024, quando o grupo de Bolsonaro, em especial o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e o pastor evangélico Silas Malafaia, atacaram Marçal na medida em que o ex-coach, então candidato à prefeitura de São Paulo, avançou sobre o eleitorado da direita e ameaçou a ida do prefeito Ricardo Nunes (MDB), apoiado pela família — e que acabou reeleito —, ao segundo turno.
Mais do que a quantidade, Marçal demonstrou alcance em setores do eleitorado paulistano que o bolsonarismo não conseguiu atrair. No primeiro turno, o ex-coach foi o mais votado nas regiões de São Miguel Paulista, Itaquera, Ermelino Matarazzo, Ponte Rasa, Parque do Carmo e Teotônio Vilela, onde Lula teve maioria dos votos contra Bolsonaro no segundo turno da eleição presidencial de 2022.
Na esfera digital, território que o bolsonarismo alavancou a partir de 2018, quando o ex-presidente se elegeu com 16 segundos de propaganda eleitoral, Marçal também mostrou força.
Para o estrategista, a campanha do filho mais velho de Bolsonaro poderá usufruir da lógica de explorar os atos do presidenciável para mobilizar a audiência nas redes. “A campanha mais eficiente é aquela que consegue transformar seus apoiadores em produtores permanentes de conteúdo. Considerando o potencial de mobilização de sua base, Bolsonaro foi mal nas redes na última eleição”, afirmou à IstoÉ.
Mesmo com o potencial de ganho político, Marçal é um ex-desafeto que volta a habitar o terreno do bolsonarismo, o que é novidade no grupo. Anteriormente, políticos como o ex-governador de São Paulo João Doria e a ex-deputada federal Joice Hasselmann foram alvo da artilharia digital bolsonarista após protagonizarem desafetos com o ex-presidente ou seus filhos e não voltaram a disputar ou ganhar eleições.
Para a cientista política e pesquisadora do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento) Thaís Pavez, a mudança é gerada por um novo momento político. “O bolsonarismo enfrentou uma derrota eleitoral e tem seu principal líder preso e inelegível. Então, há necessidade de integrar essa espécie de ‘bolsonarismo 2.0’, que surgiu com Marçal“, afirmou à IstoÉ.




