“Crítica: beleza e reflexões em ‘Sonhos de Trem’, disponível na Netflix”

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Assim que começa “Sonhos de Trem”, filme que já está disponível na Netflix desde
21 de novembro e chegou a ser exibido em alguns cinemas (para se tornar elegível
para o Oscar), o seu ponto forte já fica claro logo na sua primeira cena: cada
imagem é de uma beleza incrível e hipnótica que não dá para resistir. Dá para
tirar um quadro do longa, pedir para emoldurar e colocar na parede da sala de
estar ou num quarto que vai ficar ótimo.

O filme deslumbra do primeiro ao último fotograma, com belíssimos
enquadramentos, ótimo uso de cores e uma iluminação utilizada sempre na
intensidade adequada que as cenas exigem. Só que tanta beleza não é suficiente
para esconder o fato de que o longa traz uma história que, apesar de
interessante, é contada da maneira mais convencional possível.

Ambientada no ínicio do século 20, a trama é centrada em Robert Grainier (Joel
Edgerton), um lenhador cuja vida se resume a trabalhar cortando árvores em
diversas florestas, além de ajudar na construção de pontes para ferrovias. Até
que, um dia, conhece Gladys Olding (Felicity Jones) e se apaixona por ela. Os
dois se casam, têm uma filha e constroem uma casa à beira de um rio.

CONEXÃO COM A NATUREZA

“Sonhos de Trem” adota uma condução mais cadenciada para fazer o espectador
refletir sobre a relação entre o homem e a natureza. Por isso, o diretor Clint
Bentley, roteirista de “Sing Sing”, se vale de takes mais lentos, onde a câmera se move mais devagar diante de seu
elenco ou das belas locações que surgem no filme para causar uma maior
contemplação do espectador diante de suas imagens.

O efeito lembra um pouco o cinema de Terrence Malick, de filmes como “A Árvore
da Vida” ou “Além da Linha Vermelha”, que também busca discutir essa reflexão.
Claro que há um abismo bem grande entre Bentley e Mallick em termos de talento.
Mas, mesmo assim, o resultado é bem eficiente. Especialmente para quem gosta de
pensar sobre o que fazemos enquanto estamos nesse mundo.

Tanto que Bentley, também autor do roteiro ao lado de Greg Kwedar, discute como a natureza é explorada de forma predatória através de um personagem
que trabalha ao lado do protagonista e demonstra não se importar em cortar
árvores porque acredita que elas vão crescer novamente e renovar as que são
derrubadas. A discussão é vista de maneira discreta na trama, porém revela o
cuidado que o diretor-roteirista tem com assuntos como meio ambiente.

Outro ponto curioso é como o filme (adaptado de um livro do mesmo nome, escrito
por Denis Johnson) mostra situações e eventos históricos do início do século 20
através do personagem vivido por Edgerton. Assim, as duas grandes guerras
mundiais e a ida do homem ao espaço, por exemplo, são reveladas pelo olhar do
protagonista, que tenta compreender as mudanças que estão acontecendo ao seu
redor, ainda que de forma mais distanciada por sentir que não faz parte daquele
universo.

Tudo isso é fortalecido pelo ótimo trabalho do diretor de fotografia, o
brasileiro Adolpho Veloso. Ele cria imagens incríveis que, quando o espectador
acha que certa cena é a mais bela do filme, Veloso surpreende e cria uma ainda
mais bonita mais adiante na trama. Até uma sequência que resulta na morte de um
dos personagens tem tanta beleza que é impossível não ficar impressionado com o
que obteve nessa produção. Não é à toa que ele foi indicado ao Oscar 2026 de
Melhor Fotografia. Se vencer, além de justa, será a primeira vez que um
brasileiro ganha nessa categoria.

Só que, mesmo com tanta beleza, o filme falha em cativar além da parte
técnica/estética. A direção e o roteiro não conseguem sair do lugar comum e as
situações mostradas no longa são interessantes, porém pouco empolgam. Apenas
imagens estonteantes não são o suficiente para construir uma boa obra
cinematográfica. E seus realizadores pareceram não compreender isso.

Pelo menos, “Sonhos de Trem” também chama a atenção pela reunião de ótimos
atores e atrizes em seu elenco. O principal destaque é mesmo Joel Edgerton como
o introvertido Robert Granier. O ator-diretor sabe como dar o tom certo para o
homem rústico que se retrai em relação aos outros que passam por sua vida, mas
que revela suas emoções apenas à mulher que ama e sua filha.

Edgerton sabe como construir personagens com esse perfil e já teve atuações até
melhores, como em “Loving: Uma História de Amor” (2016). Mas ainda assim, ele dá
conta do recado e consegue manter o espectador focado em seu desempenho.

Menos sorte teve Felicity Jones, que pouco tem a oferecer como Gladys. Embora
convença como a esposa apaixonada pelo protagonista, a atriz fica praticamente
presa num papel onde quase nada de excepcional acontece com ela. Pelo menos ela
demonstra uma boa química com Edgerton.

Quem aproveita bem o pouco tempo de tela que tem é Wiliam H. Macy. O ator de
filmes como “Fargo”, “Magnólia” e “O Sobrevivente”, tem alguns dos melhores momentos do filme como Arn Peeples, um veterano lenhador
que se destaca pelo seu mau humor e por seus pensamentos a respeito do cuidado
com a natureza. Suas cenas só comprovam ainda mais seu talento que vem mostrando
ao longo dos anos.

Além de Macy, o filme também conta com a pequena, mas importante participação de
Kerry Condon como uma guarda florestal que se torna confidente do personagem
de Edgerton.

Indicado a quatro Oscars (Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Canção
Original e Melhor Fotografia – já citada anteriormente), “Sonhos de Trem”
realmente arrebata com a força e a beleza de suas imagens. Só precisava ter um
pouco mais de potência para se tornar mais relevante.

De qualquer forma, é uma produção sensível que pode deixar o espectador
emocionado com o espetáculo visual que aparece na tela e com a mensagem de que a
vida é como um trem. E que é preciso saber como apreciar a sua viagem antes do
ponto de chegada.

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