O homem preso na Operação Shadowgun e apontado como mentor de um modelo de arma feito com impressora 3D já tinha sido denunciado pelo próprio pai por agressão em 2023. De acordo com informações da denúncia do Ministério Público, a Polícia Militar foi acionada para a residência da família de Lucas Alexandre Flaneto Queiroz, atualmente conhecido como Zé Carioca e preso. O caso foi em maio de 2023 no Espírito Santo. O boletim de ocorrência diz: “que Lucas lhe golpeou com um soco, empurrão e um chute, devido ter chamado atenção do Lucas sobre desobediências” e depois aponta o motivo: “a discussão familiar se deu após pedir para que o seu filho Lucas retirasse a impressora 3D de sua casa, pois, segundo o pai, o filho utiliza a impressora 3D para imprimi carregadores alongados de pistolas de todos os calibres para vender no Mercado Livre. O registro de ocorrência teve que ser feito na própria casa da família por conta da condição de saúde do idoso: “devido ao seu estado de saúde, se recuperando de uma cirurgia, ele não conseguiria prosseguir até a delegacia porque não poderia ficar muito tempo sentado por estar aparado por cadeira de rodas devido acidente de queda de nível.”
Detalhes do Caso
Nas redes sociais, Lucas se apresenta como desenvolvedor de equipamentos de defesa. Para a polícia, ele criou, vendeu e mentorou a fabricação de armas de grosso calibre através de impressoras 3D. A denúncia mapeou mais de 100 vendas e diz que ele também comercializava o curso de como montar sua própria arma. A informação foi divulgada nesta terça-feira (12) pelo procurador-geral de Justiça do Ministério Público do Rio de Janeiro, Antônio José Campos Moreira, durante coletiva sobre a investigação. “O que surgiu a partir dessa investigação foi algo diferente. Não são fábricas, são pessoas, principalmente duas pessoas, que idealizaram um projeto digital e passaram, além de comercializar as armas fabricadas, passaram a comercializar esse projeto, oferecendo inclusive um tutorial e acompanhamento técnico”, disse procurador-geral.
“Isso é extremamente preocupante porque permite que qualquer um a partir desse projeto digital e uma impressora 3D possa produzir, fabricar armas de fogo”. Segundo ele, a fabricação utilizava polímero — um plástico de alta resistência — aliado à tecnologia de impressão tridimensional. A apuração também identificou 79 compradores em todo o Brasil, incluindo pessoas com condenações por tráfico de drogas, homicídio, roubo e porte ilegal de armas. No Rio de Janeiro, foram identificados 10 compradores, na capital, na Região dos Lagos e no Norte Fluminense.
Expansão da Investigação
Os investigados responderão na Justiça pelos crimes de organização criminosa, lavagem de dinheiro e comércio ilegal de arma de fogo. Os investigadores alertaram para a facilidade de fabricação das chamadas “armas fantasmas”, que podem ser produzidas dentro de casa com equipamentos relativamente simples. Segundo o delegado Marcos Buss, titular da 32ª DP (Taquara), um dos modelos investigados na operação é a carabina Urutau, criada por um brasileiro que usava o pseudônimo “Zé Carioca”. De acordo com o delegado, o modelo representa um avanço em relação a versões anteriores de armas impressas em 3D, porque pode ser produzido praticamente sem peças regulamentadas. A fabricação de uma arma poderia custar cerca de R$ 800, utilizando uma impressora 3D de baixo custo e materiais acessíveis.
Riscos e Repercussões
O procurador-geral de Justiça do Rio também alertou para os riscos de disseminação desse tipo de armamento entre grupos radicais e até organizações terroristas. Segundo Antônio Moreira, a facilidade de produção de armas com impressoras 3D pode atrair outros perfis de usuários, estimulados por discursos que defendem o acesso irrestrito ao armamento. “Esse grupo estimula pessoas, sobretudo, jovens a fazer e portar armas de fogo, com o argumento que esse seria um direito de todos. Isso é muito perigoso porque retira do Estado e dos órgãos responsáveis pela fiscalização de controle, produção e circulação de armas, qualquer possibilidade de controle”. O procurador afirmou que a tecnologia pode ampliar a circulação de armas fora de qualquer sistema de rastreamento ou fiscalização. “Essas armas podem inclusive ser utilizadas não somente pelas organizações criminosas tradicionais, comando vermelho e outros, por cidadãos comuns e por grupos de fanáticos, por grupos terroristas”.




