Na região Sul do Brasil, uma tradição centenária foi oficializada como patrimônio cultural imaterial pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Trata-se da pesca com botos, uma prática colaborativa entre humanos e animais da espécie Tursiops gephyreus, caracterizada como uma forma rara de interação interespécies. Em lugares como a Barra do Rio Tramandaí, a pesca com os botos, principalmente o boto-de-Lahille, é uma atividade comum, destacando a estreita relação entre pescadores e a natureza.
A decisão de reconhecer a pesca com os botos como patrimônio cultural imaterial foi tomada durante a 112ª reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural. Essa prática foi inscrita no Livro dos Saberes, evidenciando um conhecimento tradicional profundo dos pescadores do litoral. A partir desse reconhecimento, a atividade de pesca cooperada se torna protegida, garantindo a preservação da pesca colaborativa e das comunidades locais.
O boto-de-Lahille, como Geraldona, é considerado um membro importante nessa colaboração ancestral. Com mais de 40 anos, Geraldona é a decana entre os botos conhecidos na região. A fêmea de boto tem até uma família estabelecida, incluindo filhos e neta, o que reforça o vínculo duradouro e próximo entre os animais e os pescadores locais.
Tradição Centenária
A pesca artesanal com botos é uma prática antiga nos corpos d’água gaúchos, existindo há mais de um século entre os pescadores da região. Familiares de pescadores relatam que essa colaboração entre humanos e animais vem sendo passada de geração em geração, o que evidencia a profundidade dessa tradição na cultura local.
De acordo com José Roberto, dirigente do Sindicato de Pescadores de Tramandaí, a pesca cooperada é uma herança que será transmitida aos filhos dos pescadores, mantendo viva essa relação única com os botos e o ambiente marinho.
Maurino Ramos Francisco, um dos pescadores locais, também destaca a importância dessa parceria, descrevendo a convivência diária com os botos como uma experiência incrível e parte integrante de sua vida.
Risco de Extinção
Em 2025, a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) reclassificou o risco de extinção dos botos-de-Lahille como em perigo de extinção, destacando a importância da proteção desses animais. Com cerca de 330 indivíduos no mundo, a maioria deles no litoral Sul, a preservação dos botos torna-se uma prioridade para as comunidades costeiras.
Com o reconhecimento oficial da pesca colaborativa com os botos, a expectativa é de que essa prática seja mais valorizada e divulgada, contribuindo para a conscientização sobre a importância da preservação da vida marinha e das tradições locais.
Essa decisão do Iphan reforça a ligação profunda entre os pescadores, os botos e o ambiente marinho, destacando a importância da harmonia e cooperação entre humanos e animais na pesca artesanal.




