Equipe de ‘O Agente Secreto’ revela expectativa para cerimônia do Oscar
Os filmes O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, e Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, fizeram história ao colocar o Brasil nas principais premiações internacionais, como o Festival de Cannes, o Globo de Ouro e o Oscar.
No país de origem, os longas-metragens pautam conversas sobre a ditadura iniciada com o golpe militar de 1964.
Os silenciamentos trágicos causados pela violência e pela impunidade daquele período puderam se tornar debate nacional, estimulado pelas interpretações de Fernanda Torres e Wagner Moura.
Hoje o assunto pode circular, mas, naquele período, que se estendeu até 1985, o silêncio era a marca do sofrimento psicológico, destaca o psicanalista Rafael Alves Lima, professor de História e Filosofia da Psicologia na USP (Universidade de São Paulo).
Entrevista à BBC News Brasil
Na entrevista à BBC News Brasil, o pesquisador destaca a importância das políticas de memória, verdade e justiça como forma de trazer à tona “a dimensão psicológica do trauma” e de impedir repetições. Confira a seguir os principais trechos da entrevista.
Anúncio do filme ‘O Agente Secreto’ como finalista do Oscar 2026 — Foto: Getty Images/via BBC
Como era sofrer e ser escutado em um período de muita desconfiança, incerteza e violência?
“O silêncio é o critério fundamental para pensar no sofrimento sob regimes autoritários”, avalia Rafael Alves Lima. “A extensão do silêncio leva a um retraimento subjetivo, a uma autocensura implacável e a uma angústia permanente, dissolvida no cotidiano.”
Guardadas as devidas proporções, podemos arriscar uma aproximação com a pandemia de covid-19: não poder enterrar nossos mortos, não ter a chance de se despedir simbolicamente, é algo vivido como absolutamente trágico.
A tortura é avassaladora. É um nível traumático profundo, que desorganiza a orientação do sujeito no tempo e no espaço. As percepções e sensações se fragmentam, as ligações entre o eu e o corpo se desintegram.
Sonhos durante a ditadura
Em seu livro, Lima levanta uma hipótese sobre a expansão da psicanálise brasileira durante a ditadura: com algumas exceções, ela teria predominantemente servido a uma espécie de adaptação da pessoa ao próprio sofrimento, sem considerar as condições de surgimento do que a fazia sofrer.
Freud já dizia que há duas premissas do sonho: realizar desejos e proteger o sono. No caso da ditadura, os tipos de pesadelos envolvendo cenas de captura, interrogatórios, prisões e afins eram razoavelmente comuns.
Por isso se fala em ditadura “civil-militar”; é uma expressão que divide opiniões, mas tem o mérito de ressaltar a aliança entre os militares no poder e as elites civis, um casamento oportunista motivado pelo dinheiro e pelo autoritarismo, certamente, mas assentado em valores comuns retrógrados e coléricos.
Sequelas atuais
No livro que aborda a violência do Estado, Lima destaca que a violência policial atual faz uso dos mesmos instrumentos da tecnologia da violência da ditadura. “Foram todos ‘testados em laboratório’ entre 1964 e 1985, as escolas brasileiras da tortura remontam necessariamente a esse momento da nossa história”, complementa.
Em seu livro, Lima ressalta ainda a importância do reconhecimento das violações, da reparação delas e da punição dos agentes da ditadura para o processo de luto, afirmando que a perda da autonomia das ciências é um indicativo claro de crises democráticas.
Impactos da falta de resposta na pandemia
É possível reconhecer a violência do Estado, mesmo que ela se torne cotidiana e impune? Lima questiona a banalidade da violência nos meios de comunicação e a velocidade das informações como fatores que adormecem a sensibilidade da população, resultando em um estado de desamparo e ansiedade.
Apesar dos desafios psicológicos e sociais impostos, Lima ressalta a importância da escuta comprometida e da atuação ética dos profissionais para garantir a emancipação do sujeito, mesmo em tempos de crises democráticas e traumas coletivos.





