Show “Balada de um vagabundo” estreia com Jussara Silveira e Sylvia Patricia no Rio de Janeiro

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Dois anos após ter estreado em Salvador (BA), o show “Balada de um vagabundo – A
música de Waly Salomão” (2024) chegou à cidade do Rio de Janeiro (RJ) na noite
de ontem, 17 de março, realizando sonho da pequena plateia de amigos e
admiradores das cantoras.

Artista multimídia de alma efervescente que legou cancioneiro composto com
parceiros do naipe de Adriana Calcanhotto, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Jards
Macalé (1943 – 2025), João Bosco e Lulu Santos, Waly Salomão teve a vida cheia
de som e fúria poética.

Em cena, sob direção musical do guitarrista e arranjador Alex Mesquita, Jussara
e Sylvia vibraram e se afinaram nessa pulsão poética que gerou músicas como
“Vapor barato” (Jards Macalé e Waly Salomão, 1971), repetida pelas cantoras no
bis, em levada de reggae que remeteu à gravação feita pelo grupo Rappa há 30
anos no álbum “Rappa mundi” (1996).

Experiência Única

Desde a primeira música do show, “Negra melodia” (Jards Macalé e Waly Salomão,
1971), ficou evidente o balanço sedutor da banda de origem baiana, como
sublinhou Jussara Silveira, também ela baiana de criação e espírito, ainda que
nascida em município do interior do estado de Minas Gerais. Como Sylvia Patricia
é legítima baiana nascida em Salvador (BA), estava todo mundo em casa.

A vibração das cantoras, a potência dos arranjos, a exibição das projeções (com
imagens de Waly cedidas pelo filho do poeta, Omar Salomão) e o toque sempre
azeitado da banda valorizaram o show, mas não disfarçaram o fato de que, às
vezes, o compositor parceiro de Waly não acompanhou a pulsão do poeta na criação
da melodia.

Exemplo foi “Dono do pedaço”, número que transcorreu sem poder de sedução pela
música insípida de Gilberto Gil, gravada por Gil no álbum “Extra” (1983) –
titulo da fase pop da discografia do cantor – e sintomaticamente nunca regravada
desde então. Adriana Calcanhotto tampouco brilhou ao musicar postumamente versos
de Waly na composição “Motivos reais banais” (2014).

Riqueza Musical

Em contrapartida, Caetano Veloso e Jards Macalé quase sempre valorizaram
musicalmente a poesia imagética de Waly Salomão. Da parceria de Waly com Macalé,
fundamental na era da contracultura da década de 1970, Jussara e Sylvia cantaram
“Mal secreto” (1970) em número que conciliou vibe roqueira e atmosfera bluesy.

No verso “Vejo o Rio de Janeiro”, as intérpretes abriram os braços em sincronia
com a exibição da imagem do Cristo Redentor no telão. O gesto resultou
significativo porque, embora baiano, foi no Rio de Janeiro (RJ) que Waly Salomão
floresceu como poeta.

Dominante no roteiro, a parceria de Caetano Veloso com Waly Salomão rendeu
números como “A voz de uma pessoa vitoriosa” (1978) e “Alteza”, solos de Sylvia
Patricia e Jussara Silveira, respectivamente. “Cobra coral” (2000) se enroscou
no ouvinte com as vozes das cantoras em uníssono.

Lirismo e Poesia

Também pouco conhecido, o rock “Grafitti” (1984) – composto por Caetano com
versos da primeira letra assinada por Waly com Antonio Cicero (1945 – 2025),
outro poeta relevante da música brasileira – se enquadrou com menor naturalidade
na moldura do show “Balada de um vagabundo”, cuja música-título – lançada em
1985 no primeiro álbum solo de Cazuza (1958 – 1990) – foi outro exemplo de que
nem sempre o parceiro de Waly (no caso, Roberto Frejat) acompanhou o ímpeto dos
versos do poeta.

Lulu Santos foi bem mais certeiro e feliz ao musicar os versos de “Assaltaram a
gramática” (1984), número de grande empatia com o público, assim como “Natureza
humana” (1984), versão em português de “Human nature” (Steven Porcaro e John
Bettis, 1982), um dos sucessos do álbum “Thriller” (1982), título blockbuster da
discografia solo do cantor e compositor norte-americano Michael Jackson (1958 –
2009). Detalhe: “Natureza humana” é a única letra escrita por Waly com o irmão
Jorge Salomão (1946 – 2020), também poeta e letrista.

Considerações Finais

Mesmo sem jamais ter se rendido ao tatibitate da música do mainstream, Waly
Salomão também soube ser pop, ainda que os versos do poeta tenham encontrado em
Caetano Veloso e em Jards Macalé a mais completa tradução musical longe da
esfera pop. São essas duas parcerias musicais de Waly Salomão que nutrem o show
de Jussara Silveira e Sylvia Patricia.

Na obra musical de Waly Salomão, a melodia do parceiro pode vez por outra até
definhar, mas o pulso dos versos jamais fraqueja e é nessa pulsão que, cientes
de que a vida é sonho e poesia, Jussara Silveira e Sylvia Patricia se agarram
para manter a força do show.