Aos 70 anos, Marina Lima lança o 22º álbum da discografia, ‘Ópera Grunkie’. A melodia rala de “Olívia” dá o tom fragmentado do álbum lançado hoje, 24 de março, pela cantora, compositora e instrumentista de 70 anos. “Ópera Grunkie” apresenta a mais irregular safra de músicas inéditas de Marina Lima, compositora relevante que abriu alas no pop brasileiro ao longo dos anos 1980 em parceria com o irmão poeta Antonio Cicero.
Individualmente, quase todas as canções de “Ópera Grunkie” se revelam aquém do histórico da artista, embora haja lampejos da inspiração da compositora em “Só que não” – parceria de Marina com Adriana Calcanhotto e Giovanni Bizzotto – e em “Um dia na vida”, colaboração da artista com Ana Frango Elétrico.
No conjunto da obra, o álbum resulta mais interessante do que as canções em si porque flagra Marina Lima em ebulição, sem ligar o piloto automático. “Ópera Grunkie” é disco para a tribo de Marina, artista desde sempre antenada com as novas tendências e famílias.
Capa do álbum ‘Ópera Grunkie’
Capa do álbum ‘Ópera Grunkie’, de Marina Lima. No resumo da “Ópera Grunkie”, o álbum soa – no todo – melhor do que as canções em si porque mostra uma artista tentando dar um passo à frente, sem clonar fórmulas de sucessos anteriores, mas não a ponto de cativar além da tribo que celebra tudo o que Marina Lima faz sem senso crítico.
Partida de Antonio Cicero
O primeiro ato é atravessado pelo luto enfrentado por Marina com a morte de Antonio Cicero, que optou por sair de cena na Suíça, há dois anos, em procedimento de morte assistida. Na sequência, “Perda” encadeia vozes e poemas de Antonio Cicero sobre arranjo concebido por Marina com Arthur Kunz. “Grief-stricken”, faixa do álbum, dá voz a versos que podem ser traduzidos como “Aflito, enlutado, / Sob céus trovejantes você se aproxima / E então, deliberadamente, finge não vê-los chorar”.
Samba pra diversidade
No segundo ato, “Samba pra diversidade” (Marina Lima) soa mais sedutor, deslizando macio, embalado pelas percussões de Dominique Vieira e pelo coro que entra no último minuto da faixa. Marina se junta a Adriana Calcanhotto para trazer à tona “Chega pra mim”, música que jazia esquecida em EP de Leila Pinheiro. O violoncelo de Daniel Silva e os violinos de Daniel Albuquerque e Thiago Teixeira dão revestimento levemente erudito à faixa em sintonia com “Finale (Brahma Chopin)”, tema de Marina Lima e Arthur Kunz que encerra efetivamente o álbum na recorrente atmosfera eletrônica.




