Acordo UE-Mercosul: Impacto positivo na indústria calçadista brasileira

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Competitividade e diversificação: o que a indústria calçadista brasileira espera do acordo UE-Mercosul

A expectativa é de que as exportações aumentem 60% em 15 anos com isenção tarifária prevista no termo de cooperação. O acordo foi assinado em janeiro, mas precisa ser aprovado por cada país do Mercosul.

O acordo UE-Mercosul deve alavancar o setor calçadista brasileiro. Importante destino do calçado brasileiro, a União Europeia deve se tornar um parceiro comercial ainda mais estratégico com a concretização dos termos do acordo de cooperação com o Mercosul.

Graças a uma esperada isenção tarifária para 27 países, as exportações devem crescer 62%, segundo um estudo de impacto realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Além do ganho de competitividade, com produtos mais baratos para os compradores de fora, grandes polos como Franca, Vale dos Sinos, e Nova Serrana podem se beneficiar de uma exportação mais diversificada, com a queda nos impostos não só para os artigos de couro, mas também para aqueles fabricados com outros materiais, hoje menos relevantes para os negócios internacionais.

“Esses mercados detêm 40% de todos os calçados importados no mundo. É um bloco de significância muito grande”, afirma Priscila Linck, economista e coordenadora de Inteligência de Mercado da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados).

Assinado provisoriamente em 17 de janeiro no Paraguai, o acordo discutido há anos prevê a redução ou eliminação gradual de tarifas de importação e exportação e estabelece regras comuns para áreas como bens industriais e agrícolas, investimentos e padrões regulatórios. Para entrar em vigor, o termo ainda precisa ser aprovado por cada país do Mercosul. No início do mês, o presidente Lula encaminhou o documento para o Congresso Nacional.

Em 2025, o Brasil faturou US$ 105,2 milhões com a exportação de 17,5 milhões de pares de calçados para a União Europeia. Franca, Portugal, Itália, Alemanha, e Espanha são os principais destinos. Em volume financeiro, o bloco econômico corresponde a 10% de todas as exportações de sapatos do país. “Naturalmente com os últimos anos um próprio desaquecimento do mercado internacional, a gente acabou perdendo um pouco de espaço em alguns países da União Europeia, (…) mas a gente acabou alocando maiores volumes para outros destinos ou até na Europa, abrindo outros mercados com mais força, como a Espanha,” analisa Priscila.

Um dos pontos mais importantes estabelecidos no acordo entre a União Europeia e o Mercosul é a isenção gradativa de impostos de importação dos dois lados. No caso dos países da América do Sul, os calçados, com uma taxação de 3,5% a 17%, terão isenção total em até dez anos. Para a economista da Abicalçados, um dos efeitos mais importantes é o aumento da competitividade dos calçados de couro, hoje taxados em 7%, que entrariam sem tarifas em território europeu dentro de sete anos.

Ainda que com um prazo maior para a isenção e hoje mais tarifados que o couro, os produtos feitos com outros materiais, como os sintéticos e têxteis, passariam a ocupar mais espaço nas exportações, o que levaria uma diversificação dos negócios calçadistas. Com isso, Priscila destaca o fortalecimento de toda a cadeia produtiva, com uma maior demanda e contratações nas fábricas, além de um ganho na desburocratização dos processos. “Tanto a Abicalçados quanto as entidades representantes de todos os membros do Mercosul, quanto a Câmara Europeia de Calçados, sempre tiveram esse envolvimento muito de perto de negociar em conjunto, de construir um acordo que fosse viável para ambas as partes. (…) No âmbito do calçado, ele foi muito bem construído em conjunto. Houve essa interlocução durante as negociações”, diz.

Por tudo isso, Priscila analisa que o acordo deve surtir efeito positivo nos diferentes polos calçadistas do país. Os ganhos para a indústria calçadista são significativos, proporcionando uma maior previsibilidade nas negociações internacionais em tempos de incertezas econômicas e políticas. No entanto, os calçadistas devem ficar atentos à origem dos sapatos que venham a ser comercializados com o Brasil, a fim de evitar brechas para a entrada de produtos asiáticos por meio de triangulação.

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