Médica de hospital que atendeu advogada ferida em incêndio no PR diz que chance de sobrevivência em casos semelhantes é de 25%: ‘Corpo perde defesa’
Juliane Vieira teve 63% do corpo queimado depois de salvar família em incêndio em Cascavel, em outubro de 2025. Ela recebeu alta hospitalar do HU Londrina nesta terça-feira (20). O DE conversou com profissionais que trabalham no Centro de Tratamentos de Queimados, onde ela ficou internada por três meses.
Apartamento pega fogo no PR, e vítima se pendura para salvar mãe e criança
Juliane Vieira, de 29 anos, advogada que salvou a mãe e o primo de um incêndio no apartamento em que moravam, ficou três meses internada no Hospital Universitário (HU) de Londrina, no norte do Paraná, até receber alta hospitalar nesta terça-feira (20). O local atende pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e é referência no estado para tratamento de vítimas de queimaduras.
Juliane teve 63% do corpo queimado ao se pendurar no ar-condicionado do 13º andar para retirar a família do fogo. Veja no vídeo acima.
Nesta quarta-feira (21), o DE conversou com a superintendente e com a cirurgiã plástica do Centro de Tratamentos de Queimados (CTQ), setor responsável pelo atendimento de Juliane, que explicaram como são os procedimentos feitos em casos de pacientes graves e gravíssimos – como ela foi classificada no início.
A equipe do hospital informou que não está autorizada pela família a passar detalhes de como foi o tratamento da advogada.
Xenia Tavares, médica cirurgiã plástica, conta que um fator decisivo para classificar a gravidade de um quadro é a queimadura de via aérea. Se o paciente inalou fumaça tóxica e teve esses ferimentos, “já coloca ele na UTI [Unidade de Terapia Intensiva] entubado”, afirma a especialista. A esse critério se soma a quantidade e extensão das queimaduras de 3º grau.
A especialista ressalta que pacientes que ficam com mais de 50% do corpo queimado em um acidente têm, em média, 25% de chance de sobreviver. “Quando você queima a pele, você está perdendo defesa”, destaca.
CUIDADOS IMEDIATOS
A primeira equipe que recebe o paciente é a do trauma. Ela cuida das vias aéreas da vítima de queimadura e realiza os procedimentos para manter a pressão sanguínea estável.
A cirurgiã plástica também alerta que uma preocupação é com uma possível hipotermia – queda da temperatura corporal –, porque a pessoa está sem a barreira da pele. Também é preciso lidar com a desidratação.
A partir do momento em que o paciente está estabilizado, a equipe avalia se é necessário realizar uma escarotomia. Esse procedimento faz uma incisão (corte) para aliviar a compressão da pele que “endurece” com a queimadura.
TRATAMENTO DE QUEIMADURAS DE 3º GRAU
A médica explicou ao DE que o termo “3º grau” é comumente utilizado para classificar queimaduras que atingem a espessura total das camadas da pele: epiderme e derme. Ela é o tipo mais grave de queimadura e impede que a recuperação aconteça sem intervenção cirúrgica, porque a pele não é mais capaz de se regenerar sozinha.
No HU de Londrina, esse tipo de ferimento é tratado com enxerto e transplante. O enxerto é realizado com a pele saudável do próprio paciente, e o transplante é de doadores.
Depois que o paciente está estável, consciente, respirando naturalmente, passou para a enfermaria do CTQ e está apto à alta hospitalar, o tratamento para as queimaduras continua.
A médica explica que é um “longo caminho de reabilitação”, com possíveis registros de lesões e dores crônicas, coceira e queloide (cicatriz elevada na pele), por exemplo. Os tratamentos incluem procedimentos como cirurgias de sequela e uso de malhas – que pode durar mais de um ano.
ESTRUTURA DO CTQ DO HU LONDRINA
Conforme Iara Aparecida de Oliveira Secco, superintendente do CTQ, são aproximadamente 150 profissionais de diversas especialidades que trabalham no atendimento a pessoas vítimas de queimadura: infectologistas, cirurgiões plásticos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, fisioterapeutas, psicólogos e assistentes sociais, etc.
Estão disponíveis 16 leitos, no total: seis de UTI e 10 de enfermaria. Em 2025, a unidade realizou 414 internações. Parte desses pacientes permanecem com consultas frequentes nos ambulatórios e também para realização de curativos.
RELEMBRE O CASO
O incêndio aconteceu na manhã de 15 de outubro, em um apartamento no 13º andar, no cruzamento das ruas Riachuelo e Londrina, no bairro Country, em Cascavel.
Imagens que circularam nas redes sociais mostraram Juliane do lado de fora do prédio, pendurada sobre um suporte de ar-condicionado, tentando resgatar a família (veja no vídeo acima).
No apartamento, estavam a mãe dela, Sueli, de 51 anos, e o primo, Pietro, de 4 anos. Após conseguir ajudar os dois, Juliane foi resgatada pelo Corpo de Bombeiros.
A mãe dela teve queimaduras no rosto, nas pernas e inalou fumaça. Além disso, teve as vias respiratórias queimadas. Sueli ficou 11 dias internada no Hospital São Lucas, em Cascavel.




