‘DataToalha’ não tem valor científico, mas funciona como termômetro

Cientista político diz que mensurar popularidade do candidato com base na venda de toalhas não representa fielmente a realidade

O fenômeno “DataToalha” pode até ser curioso e, definitivamente, faz parte da crônica cotidiana. Ele não é cientificamente relevante, ainda que represente um termômetro das ruas. O Diário do Estado conversou com o cientista político, consultor e especialista em marketing Ricardo Arreguy, com mais de 30 anos de experiência na carreira, para saber mais a respeito do assunto.

• Compartilhe essa notícia no Whatsapp• Compartilhe essa notícia no Telegram

O que é o “DataToalha”?

“DataToalha” foi uma maneira informal que as pessoas encontraram para denonimar uma espécie de disputa presidencial extraoficial entre Lula (PT) e Bolsonaro (PL). Nessa disputa, o que está em jogo é a quantidade de toalhas vendidas com o rosto de cada candidato. Aquele que vender mais, fica na frente da “pesquisa”. O sistema viralizou.

LEIA TAMBÉM

• Homem é preso por atacar vizinha com foice após briga por lixo, em Goiânia• Romário Policarpo é internado com alteração arterial• Goiânia terá internet 5G a partir do dia 16 de agosto

A pesquisa informal vale de algo?

Em primeiro lugar, Ricardo Arreguy explica que, em qualquer pesquisa, sempre haverá uma margem de erro. No entanto, é necessário entender a diferença entre uma pesquisa com metodologia científica e aquela que se assemelha a uma enquete.

Na pesquisa científica, há como controlar os elementos da amostra, com representação de partes da sociedade em dimensões pequenas. Nesse caso, é possível ter controle da amostra e obter resultados probabilisticamente relevantes, com valor estatístico real. É uma probabilidade que assegura uma representação fiel do universo. Não é o que ocorre no DataToalha.

“É um processo semelhante a de uma enquete. Na enquete, ela gera resultados definidos pelo ato espontâneo do pesquisado. Manifesta-se quem quer, então não tem valor científico propriamente dito. Entretanto, é bastante utilizado porque serve como termômetro”, analisa.

Se, por exemplo, eleitores de direita começarem a se interessar por uma enquete específica, provavelmente começarão a viralizá-la entre si mesmos. Ao descobrir, a esquerda iniciará uma espécie de corrida para ver quem consegue mais expressividade. Por esse motivo, uma enquete jamais representará a opinião reinante do universo.

Um termômetro interessante

Na Avenida Olinda, em Goiânia, nas proximidades da Alego, José Henrique começou a vender toalhas de Lula e Bolsonaro há cerca de duas semanas. Perguntado sobre qual candidato está vendendo mais, José Henrique não quis se comprometer. “É um empate. Se fosse DataFolha, seria empate técnico”, brinca.

Segundo o homem de 52 anos, até hoje não houve nenhum tipo de animosidade, apesar dos nervos à flor da pele dos cidadãos a dois meses das Eleições. “Um mercador de esquina conhece muito bem a temperatura do público”, comenta Ricardo Arreguy.

Além disso, o cientista político ainda acrescenta que não dá para concluir que a venda de toalhas pode vir a influenciar algum eleitor. “Quem já gosta, pode reforçar. Quem não gosta, tende a se irritar mais”, pontua.

Na sua visão, o DataToalha é um termômetro interessante. Um observador atento pode enxergar uma tendência de mudança de opinião em uma determinda região. No entanto, outros meios são mais relevantes nessa questão de influência.

“As pessoas se informam sobre política para fundamentar suas opiniões. Isso se dá muito em função dos meios de comunicação e, mais recentemente, da Internet e das redes sociais, especialmente WhatsApp e meios de comunicação pessoal. A grosso modo, é por aí que se forma opinião pública a respeito de política. Logicamente, a paisagem também influencia, mas eu não diria que há algo decisivo”, conclui.

Tags: