Atores de Hollywood podem dominar as telas de cinema, como a premiação do Oscar deste domingo (15) deve mostrar. Mas, no Brasil, o caminho para o estrelato muitas vezes começa sob as luzes intensas de um estúdio de TV, e não em um grande set de filmagem.
Desde pelo menos os anos 1960, as telenovelas — séries de TV latino-americanas frequentemente comparadas às soap operas norte-americanas — produzidas pela principal emissora do país, a TV Globo, evoluíram de dramas diários simples para uma indústria multimilionária, com 13 estúdios, três cidades cenográficas, 122 ilhas de edição e alcance semanal de até 60 milhões dos 213 milhões de brasileiros.
Muitos atores brasileiros associados a filmes que disputaram o Oscar — como “A Central do Brasil (1998)”, “Ainda Estou Aqui” (2024) e o indicado deste ano em quatro categorias “O Agente Secreto” (2025) — primeiro se tornaram nomes conhecidos do grande público por meio da TV Globo. Atores como Wagner Moura e Fernanda Torres ganharam ampla visibilidade nacional através das telenovelas.
TELENOVELAS ALIMENTAM A FAMA
Wagner Moura, protagonista de “O Agente Secreto”, atuou na telenovela “A Lua Me Disse” há 21 anos. De forma semelhante, Fernanda Torres, estrela de “Ainda Estou Aqui”, que conquistou o primeiro Oscar para o Brasil na categoria de melhor filme internacional, já era uma atriz muito querida graças a duas grandes séries cômicas da TV Globo que muitos do público consideram telenovelas.
“As telenovelas da TV Globo são fundamentais para a produção audiovisual do Brasil”, disse Amauri Soares, diretor da TV Globo e do Globo Studios, descrevendo-as como “uma plataforma contínua de criação e produção de conteúdo”.
A TV Globo exibe três telenovelas simultaneamente, do início da noite ao horário nobre. Elas são produzidas em estúdios no Rio de Janeiro e costumam ficar no ar por seis meses, de segunda a sábado, envolvendo mais de mil pessoas na produção. O capítulo final pode se transformar em um evento nacional de audiência, com bares, restaurantes e academias exibindo os episódios principais.
A indústria exige adaptabilidade. Com alguns capítulos escritos apenas dias antes da exibição, com base na audiência, as telenovelas permitem que os espectadores assumam a cocriação da narrativa. E seu impacto econômico é poderoso: um remake do sucesso “Vale Tudo” teria gerado mais de R$ 200 milhões em publicidade — quatro vezes a bilheteria global de “O Agente Secreto”.
DEZENAS DE ATORES DESCOBERTOS TODOS OS ANOS
Todos os anos, a TV Globo recruta até 70 novos atores vindos do teatro, do cinema e de produções regionais. Amauri Soares diz que eles aprimoram suas habilidades durante um ano com equipamentos de ponta e novas técnicas. Depois, muitos partem para outras produções, enquanto alguns permanecem na emissora para séries mais curtas.
Dira Paes, atriz veterana e uma das comentaristas frequentes da TV Globo na noite do Oscar, observa que as indústrias de telenovelas e cinema no Brasil estão cada vez mais interligadas, já que profissionais transitam entre uma e outra para criar — e também ganhar mais dinheiro. Ela esteve recentemente na novela “Pantanal” e no filme “Manas”, elogiado por Julia Roberts e Sean Penn.
TV COMO “PORTO SEGURO” PARA ALGUNS ATORES
Stycer acrescenta que muitos atores enfrentam um dilema quase hamletiano sempre que são convidados para uma telenovela.
“Ser popular e ter uma renda garantida todo mês ou correr riscos em uma carreira que envolve teatro e cinema? A TV sempre foi um porto seguro para a maioria dos atores”, afirmou.
Embora outras redes de TV brasileiras tenham tentado desafiar a supremacia da TV Globo no gênero, poucas alcançaram sucesso. Ainda assim, até mesmo as produções da Globo já não são tão dominantes quanto eram até o início dos anos 2010. Executivos da empresa reconhecem que enfrentam concorrência crescente do vídeo por streaming.
Mesmo assim, “a Globo ainda é a maior empresa do Brasil para atores”, disse Stycer. “Até o ano 2000, a Globo sozinha era responsável por cerca de 50% da audiência de TV no Brasil.”




