Brasil x Paraguai: entenda impasse envolvendo Itaipu e acusação de ataque hacker
Funcionário da Abin relatou à PF suposta invasão aos sistemas do governo
paraguaio. Situação gerou atrito entre os países e suspendeu negociações sobre a
usina de Itaipu.
Brasil e Paraguai vivem um atrito diplomático após a revelação de que o governo
brasileiro autorizou uma operação hacker contra sistemas do país vizinho
[https://de.de.de/politica/noticia/2025/03/31/funcionario-diz-que-atual-abin-hackeou-instituicoes-do-paraguai-governo-lula-diz-que-acao-ocorreu-so-na-gestao-bolsonaro.ghtml]
em busca de informações sigilosas a respeito das negociações sobre as tarifas da
usina hidrelétrica de Itaipu.
Um funcionário da Agência Brasileira de Inteligência (Abin
[https://de.de.de/tudo-sobre/abin/]) afirmou em depoimento à Polícia Federal
que a atual gestão do órgão federal manteve operações de invasão hacker a
sistemas da Presidência da República e do Congresso do Paraguai, além
autoridades envolvidas nas tratativas.
Paraguai cobra explicações do Brasil sobre suposta espionagem hacker de
autoridades do país vizinho. [https://s02.video.glbimg.com/x240/13482097.jpg]
Paraguai cobra explicações do Brasil sobre suposta espionagem hacker de
autoridades do país vizinho.
As informações foram publicadas pelo portal UOL, e a TV Globo teve acesso a
trechos do depoimento. O caso gerou protesto do governo paraguaio,
[https://de.de.de/politica/noticia/2025/04/01/governo-do-paraguai-convoca-embaixador-do-brasil-no-pais-para-explicacoes-sobre-suposto-monitoramento-da-abin.ghtml]
que cobra explicações do Brasil, e informou que paralisou as negociações sobre a
comercialização da energia gerada por Itaipu.
Brasil e Paraguai construíram, operam e administram juntos a usina
hidrelétrica, em funcionamento desde 1984 na fronteira entre os dois países. No
lado brasileiro, a usina fica no estado do Paraná.
Entenda, nesta reportagem:
* O que o servidor da Abin relatou sobre o suposto ataque?
[https://de.de.de/politica/noticia/2025/04/02/brasil-x-paraguai-entenda-impasse-envolvendo-itaipu-e-acusacao-de-ataque-hacker.ghtml#1]
* Do que trata o citado Anexo C?
[https://de.de.de/politica/noticia/2025/04/02/brasil-x-paraguai-entenda-impasse-envolvendo-itaipu-e-acusacao-de-ataque-hacker.ghtml#2]
* Qual explicação o governo Lula deu?
[https://de.de.de/politica/noticia/2025/04/02/brasil-x-paraguai-entenda-impasse-envolvendo-itaipu-e-acusacao-de-ataque-hacker.ghtml#3]
* E o governo paraguaio, como reagiu?
[https://de.de.de/politica/noticia/2025/04/02/brasil-x-paraguai-entenda-impasse-envolvendo-itaipu-e-acusacao-de-ataque-hacker.ghtml#4]
A usina é considerada como a maior produtora de energia do mundo — Foto:
Itaipu/Divulgação
O QUE O SERVIDOR DA ABIN RELATOU SOBRE O SUPOSTO ATAQUE?
O servidor afirmou à PF que o ataque começou ainda no governo Jair Bolsonaro
(2019-2022), mas que continuou durante o governo Lula, com autorização expressa
do atual diretor da Abin, Luiz Fernando Corrêa, e do diretor interino Saulo de
Cunha Moura, que ocupou o cargo entre março e maio de 2023.
O funcionário relatou o uso de ferramentas de intrusão como Cobalt Strike e o
envio de e-mails com engenharia social para capturar senhas, cookies de sessão e
acessos de autoridades paraguaias.
De acordo com o relato, foram invadidos sistemas do Congresso do Paraguai
(Senado e Câmara), além da Presidência da República.
O servidor da Abin afirmou que as ações foram executadas a partir de servidores
hospedados no Panamá e no Chile, e que as ferramentas foram apresentadas em
reuniões internas da Abin, com aprovação da alta cúpula.
DO QUE TRATA O ANEXO C?
Segundo o depoimento, a ação tinha como objetivo obter dados sigilosos sobre
valores em negociação no Anexo C do Tratado de Itaipu.
O Anexo C estabeleceu as bases financeiras e de prestação de serviços de
eletricidade da usina.
Usina Itaipu Binacional — Foto: Alexandre Marchetti/Itaipu Binacional –
Divulgação
O documento definiu a fórmula para o cálculo do preço da energia produzida e
prevê que, após 50 anos de vigência suas cláusulas podem ser revistas. O prazo
expirou em 2023, quando a usina terminou de pagar o financiamento da obra.
Atualmente, Brasil e Paraguai negociam novas condições de comercialização da
energia gerada na usina.
A expectativa é que o Paraguai possa vender o excedente de energia no mercado
livre. Já o Brasil pretende dar fim à obrigação de compra da energia de Itaipu
pelas distribuidoras do Sul, Sudeste e Centro-Oeste, chamadas de “cotistas”.
QUAL EXPLICAÇÃO O GOVERNO LULA DEU?
Em nota conjunta, Presidência da República e Ministério das Relações Exteriores
confirmaram a operação, informando que a medida começou em junho de 2022, ainda
no governo Bolsonaro, e encerrada em março de 2023, quando o governo Lula tomou
conhecimento.
A nota foi divulgada após o chanceler brasileiro Mauro Vieira ter conversado com
o ministro das Relações Exteriores do Paraguai, Rubén Ramírez Lescano, e ter
negado que o governo Lula tivesse iniciado a espionagem.
Na conversa, Mauro Vieira, segundo o governo paraguaio, admitiu que houve a
decisão do governo Jair Bolsonaro de espionar o país vizinho, mas que o governo
Lula tornou a medida sem efeito.
E O GOVERNO PARAGUAIO, COMO REAGIU?
O líder da equipe técnica paraguaia que toca as negociações com o Brasil em
Itaipu, ministro de Indústria e Comércio, Javier Giménez García de Zúñiga,
afirmou que os debates sobre a revisão do anexo C estão suspensos até que a
questão seja esclarecida.
Em um comunicado, o Ministério das Relações Exteriores do Paraguai disse que o
país não tem “nenhuma evidência” de que o Brasil tenha conseguido atacar os
sistemas informáticos para obter informações, acrescentando que todos os
organismos de investigação estão fazendo as averiguações necessárias.
Um dia depois desse comunicado, na terça (1º), o vice-ministro de Relações
Exteriores do Paraguai, Víctor Verdún chamou o embaixador do Brasil em Assunção,
José Antônio Marcondes, a dar explicações sobre as operações de inteligência
brasileiras envolvendo autoridades paraguaias.
[https://de.de.de/politica/noticia/2025/04/01/governo-do-paraguai-convoca-embaixador-do-brasil-no-pais-para-explicacoes-sobre-suposto-monitoramento-da-abin.ghtml]
“No documento [entregue a Marcondes], se requereu uma explicação detalhada
sobre a ação de inteligência ordenada à Agência Brasileira de Inteligência
(Abin), entre junho de 2022 e março de 2023”, afirmou comunicado da
chancelaria paraguaia.
Integrantes do Itamaraty ouvidos pela Globonews nesta quarta-feira disseram
entender que, em nível diplomático, todas as explicações já foram dadas. Mesmo
assim, avaliam que os órgãos de inteligência ainda deverão prestar informações e
repassá-las ao governo paraguaio.