A desistência do governador do Paraná, Ratinho Júnior (PSD), da corrida presidencial reconfigura o cenário eleitoral e pode influenciar diretamente o posicionamento dos principais candidatos na disputa pelo eleitor médio. A avaliação é do cientista político Leonardo Barreto, sócio da consultoria Think Policy.
Barreto analisa como diferentes candidaturas podem beneficiar ou dificultar os caminhos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Segundo ele, o modelo mais comum para entender eleições é o chamado “espacial”, no qual os eleitores são distribuídos em uma linha ideológica.
“Ganha a eleição quem conseguir o voto do eleitor mediano, aquele que está exatamente no meio e tem a mesma quantidade de eleitores à sua esquerda e à sua direita”, explica.
Ele ressalta, no entanto, que esse eleitor não necessariamente está no centro político. “Ele pode estar mais deslocado para a esquerda ou para a direita, dependendo da conjuntura”, diz. Ainda assim, Barreto destaca que é esse público que orienta a estratégia dos candidatos, sendo frequentemente chamado de “eleitor independente”.
A saída de Ratinho Jr., nesse contexto, altera a percepção das opções disponíveis. Para Barreto, caso o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSD), seja o nome escolhido pelo partido, haverá impacto direto sobre Flávio Bolsonaro. “Se Eduardo Leite, que se define como progressista-conservador, se tornar o candidato do PSD, ele empurrará Flávio Bolsonaro para a direita e para mais longe do eleitor mediano”, afirma.
Nesse cenário, a disputa tenderia a ser percebida como polarizada entre dois candidatos de centro-esquerda e um de direita. “Aos olhos dos eleitores, serão dois candidatos de centro-esquerda contra um de direita. Flávio vai parecer mais radical”, comenta.
Por outro lado, se o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), for o candidato, a dinâmica muda. “Ele tende a se posicionar mais à direita, dando a oportunidade de Flávio Bolsonaro caminhar para o centro”, pontua Barreto. Nesse caso, a disputa ficaria entre dois nomes de direita e um de esquerda, abrindo espaço para que Flávio busque uma imagem mais moderada.
“Se Caiado se dispor a fazer críticas duras ao presidente Lula e tratar fundamentalmente da pauta de segurança pública, não vai deixar dúvidas de que é um candidato de direita puro-sangue. Em tese, isso abrirá uma chance para o ‘filho 01’ [de Jair Bolsonaro] se deslocar para o centro”, acrescenta.
Barreto avalia que essa estratégia não representaria grande risco para o eleitorado mais fiel do bolsonarismo. “Não representa risco em razão da ‘calcificação’ do bolsonarismo enquanto movimento político. Flávio tem fidelidade de perto de 25% dos eleitores. A chegada de Caiado dará uma chance de Flávio se apresentar como moderado, coisa que ele está buscando. Se vai conseguir, é outra história”, destaca.
Já para Lula, a ausência de Ratinho Jr. também traz oportunidades e desafios. “Ele também pode buscar eleitores de centro que não terão a ‘tentação’ de votar Ratinho Jr.”, observa. No entanto, Barreto aponta um obstáculo importante: “o seu problema é o envelhecimento ruim de uma promessa feita em 2022, de fazer um governo moderado e com ‘pouco PT’”.
Segundo ele, a conquista desse eleitor mais cauteloso dependerá da percepção sobre os adversários. “Sabendo hoje que Lula permaneceu à esquerda, ele receberá um novo voto de confiança do eleitor ressabiado apenas se ele não sentir firmeza por parte dos outros candidatos”, pondera.
Por fim, Barreto levanta uma variável que pode ser decisiva para um eventual segundo turno: o posicionamento dos candidatos que ficarem de fora. “Quem Eduardo Leite apoiaria em um segundo turno sem ele? Lula ou Flávio? Quem Ronaldo Caiado apoiaria?”, questiona, indicando que essas alianças podem ser determinantes no desfecho da eleição.




