Um episódio de violência extrema. Em Bagé (RS) — Um homem de 60 anos morreu após esfaquear a ex-companheira e tentar fugir da polícia na manhã desta segunda-feira (11). A tentativa de feminicídio e o fatídico desfecho marcaram os moradores do bairro São Bernardo e toda a cidade, que já enfrenta crescente preocupação com crimes passionais nos últimos meses.
De acordo com a Polícia Civil, o caso ocorreu por volta das 7h45, no início de mais uma semana de trabalho na região sul do Rio Grande do Sul. A vítima, uma mulher de 44 anos, foi surpreendida pelo ex-companheiro, que a agrediu com golpes de faca em frente à residência dela. Testemunhas relataram à reportagem que o agressor aguardava a vítima sair para o trabalho e, sem diálogo, investiu contra ela pouco antes do ponto de ônibus local.
Após a tentativa de homicídio, o suspeito fugiu em um automóvel pela BR-293, iniciando uma perseguição policial de alta velocidade. Por quase três horas, a região do entorno de Bagé viveu momentos de tensão. Segundo a Polícia Rodoviária Federal, a fuga terminou no quilômetro 195 da rodovia, próximo ao limite rural do município. O carro dirigido pelo agressor colidiu frontalmente contra uma carreta, resultando em sua morte instantânea. Outras duas pessoas, que estavam na carreta com placas de Morro Redondo, também se feriram. O motorista saiu ileso, enquanto a passageira teve apenas ferimentos leves e foi encaminhada para atendimento no pronto-socorro de Bagé.
Qual a motivação para o crime em Bagé (RS)?
Segundo informações apuradas pela polícia, a motivação do crime seria o inconformismo do homem diante do fim do relacionamento, que havia terminado havia cerca de seis meses. Familiares da vítima relataram que ela vinha sofrendo ameaças e perseguições constantes, situação que se agravou nas semanas anteriores ao ataque.
O delegado Guilherme Fagundes, titular da 2ª Delegacia de Polícia de Bagé, declarou oficialmente que a investigação trabalha com a possibilidade de suicídio, já que tudo indica que o agressor provocou a colisão fatal de forma intencional, encerrando a fuga abruptamente ao se lançar contra a carreta. “Todos os indícios reforçam que houve premeditação tanto para a tentativa de feminicídio quanto para o desfecho trágico na rodovia”, afirmou Fagundes à reportagem.
No RS, dados do Ministério da Justiça apontam que crimes motivados por questões passionais vêm crescendo, principalmente em cidades do interior. De acordo com levantamento do Observatório da Violência Contra a Mulher, Bagé já havia registrado outros dois casos de tentativa de feminicídio nos primeiros meses deste ano – cenário que acendeu alerta das autoridades locais e estaduais.
Por que o caso chocou os moradores de Bagé (RS)?
A cidade de Bagé, que tem pouco mais de 120 mil habitantes, já vivia sob tensão após notícias de crimes violentos nas famílias. O episódio dessa segunda-feira gerou indignação e mobilização social, principalmente entre grupos voltados ao combate da violência contra a mulher. Nas redes sociais, moradores se mostraram preocupados com a frequência de casos semelhantes e cobraram mais ações da Justiça e do poder público.
Entidades civis e movimentos feministas organizaram rapidamente uma vigília em frente à delegacia local, pedindo celeridade nas apurações e reforço das políticas de proteção às mulheres na cidade. Conforme especialistas em segurança consultados pela nossa reportagem, este é reflexo de um fenômeno nacional, no qual o interior do estado apresenta aumento nas ocorrências desse tipo de crime desde 2022.
Para a redação do Diário do Estado, este caso evidencia o impacto profundo das falhas sistêmicas na rede de proteção à mulher em cidades médias do Rio Grande do Sul, onde o acesso à denúncia e a execução de medidas protetivas ainda enfrentam obstáculos. De acordo com dados do Ministério Público Estadual, apenas em 2023, o município de Bagé recebeu 98 pedidos formais de medidas protetivas. Isso coloca a cidade acima da média proporcional do estado, segundo o mais recente relatório divulgado pelo governo do RS.
Como está a situação da vítima e o que dizem as autoridades em Bagé?
A vítima foi socorrida imediatamente após o ataque por vizinhos e encaminhada ao pronto-socorro local pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Conforme boletim médico divulgado pela instituição, ela sofreu ferimentos moderados no braço e no abdômen. Após procedimentos de emergência, foi liberada na tarde de segunda-feira e não corre riscos de morte. Psicólogos do Serviço Social do município estão prestando apoio à vítima, que tem mantido sigilo quanto à identidade por razões de segurança.
O delegado Guilherme Fagundes reiterou em coletiva à imprensa que “as investigações continuarão para apurar possíveis omissões ou falhas em notificações anteriores de ameaça”. A polícia busca entender se havia solicitação prévia de proteção judicial e se a vítima tentou registrar boletins ou pedidos de medida protetiva em meses anteriores.
A equipe de jornalismo do Diário do Estado apurou que, apesar do recente aumento de campanhas de prevenção ao feminicídio em Bagé, faltam recursos para abrigar todas as mulheres que sofrem ameaças graves. O Sindicato dos Policiais Civis do Rio Grande do Sul também alertou que a delegacia da cidade está operando abaixo do quadro ideal de servidores, o que pode comprometer a agilidade nas investigações.
Qual o histórico desse tipo de crime no Rio Grande do Sul?
Conforme dados do Observatório Nacional da Mulher, o Rio Grande do Sul figura entre as cinco unidades da federação com maiores índices proporcionais de feminicídio, atrás apenas de estados do Centro-Oeste e do Nordeste. Bagé, em particular, já havia se destacado negativamente no relatório de 2022 devido ao número de tentativas e ameaças registradas pela Polícia Civil.
A circulação de casos como o atual reacendeu o debate sobre as políticas públicas de combate à violência doméstica na região. Entidades locais e juristas cobram a ampliação de delegacias especializadas e reforço das redes de apoio psicológico e abrigo temporário. Segundo o portal da Transparência do Estado do Rio Grande do Sul, o orçamento destinado a programas voltados ao combate ao feminicídio cresceu apenas 6% nos últimos dois anos, percentual considerado insuficiente por especialistas e movimentos sociais.
No decorrer do ano anterior ao caso, havia sido instalado em Bagé o programa “Mulher Segura”, que busca fortalecer a articulação entre órgãos de justiça, segurança e assistência social. Representantes da Secretaria de Política para as Mulheres consideram o caso desta semana especialmente preocupante, pois revela a persistência de falhas em mecanismos de prevenção, mesmo em cidades com programas pioneiros.
O Diário do Estado conseguiu contato junto à Polícia Rodoviária Federal, órgão responsável pelo esclarecimento das circunstâncias do acidente fatal, que confirmou que a perícia será encaminhada para o Laboratório de Engenharia Forense da Universidade Federal do Pampa, instituição regularmente acionada em colisões graves na região sul do estado.
Como a Justiça do RS deve tratar episódios como este?
A legislação brasileira prevê pena de 12 a 30 anos para crimes de feminicídio tentado ou consumado, além de agravantes quando há descumprimento de medidas protetivas. No entanto, em situações como esta, na qual o autor morre durante a fuga, o processo criminal é extinto com a sua morte. Ainda assim, o Ministério Público do RS costuma acompanhar de perto as investigações para mapear fragilidades nos protocolos de proteção.
De acordo com juristas ouvidos pela nossa reportagem, episódios semelhantes podem gerar ações civis de responsabilização contra o Estado, caso fique comprovado que houve negligência na proteção da vítima. Bagé já foi cenário de processos desse tipo em ocasiões anteriores, como ocorreu em 2018, quando a Promotoria demandou reforço na patrulha Maria da Penha após outra tentativa de feminicídio não evitada.
A comunidade local exige respostas sobre a efetividade das políticas protetivas. Entidades de defesa dos direitos das mulheres reforçam o apelo por mais rigor e celeridade nas respostas judiciais. Campanhas com distribuição de cartilhas e palestras escolares têm sido intensificadas na região sul do estado, buscando sensibilizar a população masculina e estimular denúncias de casos suspeitos.
O Diário do Estado segue acompanhando cada desdobramento do caso de Bagé, realizando contato direto com delegados, representantes dos movimentos sociais e autoridades de saúde. Nossa reportagem esteve no bairro São Bernardo conversando com moradores que, abalados, pedem mais estrutura policial e transparência na apuração dos fatos. Novas informações e eventuais atualizações sobre o caso serão publicadas assim que confirmadas oficialmente pelas autoridades competentes.



