Bento Gonçalves (RS) — Um grande simulado de emergência mobilizou nesta quarta-feira (6) mais de 400 agentes de diferentes forças de segurança e resgate para testar, de forma inédita, os protocolos de resposta a deslizamentos de terra em áreas de risco do município. O treinamento foi realizado das 10h às 16h no bairro Zatt, região de encosta que coloca cerca de 140 moradores sob ameaça direta em condições extremas, mas que, segundo a coordenação do evento, pode impactar até 800 pessoas em uma situação real. A escolha de Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha, se deu por ser o quarto município com maior risco geológico do Rio Grande do Sul.
A operação, que contou com o sobrevoo de helicóptero para extração de vítimas em locais remotos e bloqueados, envolveu diferentes entidades: Brigada Militar, Corpo de Bombeiros Militar, Polícia Civil, Instituto-Geral de Perícias (IGP), secretarias estaduais e federais, Exército Brasileiro, Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e empresas concessionárias de energia, água e telefonia. De acordo com a Defesa Civil, o objetivo principal foi “validar e aprimorar” as novas operações de resposta rápida que ganharam força no estado após as graves enchentes deste início de ano.
No experimento prático, figurantes interpretaram moradores desaparecidos e feridos, enquanto manequins foram usados como vítimas soterradas em cenários montados para simular resgates delicados. O bairro Zatt ficou temporariamente sem energia elétrica, água e telefonia, a fim de aproximar o treinamento da realidade enfrentada em catástrofes naturais que têm atingido a região da Serra.
Por que Bento Gonçalves é tão vulnerável a deslizamentos no RS?
Bento Gonçalves integra a lista dos municípios gaúchos com maior vulnerabilidade a ocorrências geológicas, conforme estudos do Serviço Geológico do Brasil. Entre as razões estão sua geomorfologia marcada por encostas acentuadas, chuvas frequentes e um histórico de ocupação urbana acelerada, típica de cidades da Serra que concentraram crescimento ao redor de áreas de declive. Nos últimos anos, principalmente após os estragos provocados pelas tragédias de 2024, o município tem investido em mapeamento de riscos, realocação de famílias e atualização dos protocolos de evacuação de áreas críticas.
Os registros de deslizamentos na cidade e na região costumam crescer entre os meses de outono e inverno, quando o volume acumulado de chuva é significativo. De acordo com dados da própria Defesa Civil estadual, em Bento Gonçalves já foram registrados ao menos 13 deslizamentos de terra com vítimas ou grandes prejuízos em um intervalo de cinco anos, muitos deles no entorno de bairros como Zatt, Licorsul e Fenavinho. Nesse cenário, a preparação e o treinamento conjunto são essenciais para garantir resposta rápida e eficiente, minimizando riscos à vida e ao patrimônio dos habitantes.
Moradores mais antigos lembram dos episódios de 2013 e 2020, que deixaram dezenas de famílias desabrigadas e obrigaram a evacuação noturna de ruas inteiras. Segundo a prefeitura, o bairro Zatt concentra uma das maiores populações em área de encosta habitada de forma irregular, o que exige atenção redobrada do poder público.
Como foi organizado o simulado inédito de resgate em Bento Gonçalves?
O simulado desta quarta-feira envolveu o acionamento de um abrigo emergencial com capacidade para 80 pessoas e a formação de corredores exclusivos para ambulâncias e viaturas de resgate, num modelo que busca reduzir ao máximo o tempo de resposta para retirada de feridos. A operação incluiu, ainda, o encaminhamento das vítimas figurantes para acompanhamento médico e psicológico, reproduzindo o fluxo real em emergências como as vividas pelas comunidades gaúchas nos meses anteriores.
Um dos diferenciais da operação, segundo o coordenador da Defesa Civil, coronel Luciano Boeira, foi a imposição de restrições reais às famílias locais, como ausência de comunicação, energia e bloqueio de vias, além do uso do helicóptero para transporte de feridos graves de locais inacessíveis. “Exercícios deste porte são necessários para que possamos verificar e validar os protocolos. É um ambiente controlado, mas a aproximação com a realidade permite identificar com clareza o que já está consolidado e o que pode ser aperfeiçoado”, frisou Boeira.
Segundo a Defesa Civil estadual, todo o planejamento do evento levou em conta a necessidade de comunicação clara entre as forças, alinhamento de rotas de fuga e priorização do apoio rápido médico e psicológico aos moradores da área afetada. As equipes simularam desde a retirada de cidadãos até manobras de busca com cães da polícia, perícia acelerada e instalação de pontos de comando avançado.
Quais órgãos e agentes participaram do simulado no RS?
O exercício em Bento Gonçalves reuniu profissionais da Brigada Militar, Corpo de Bombeiros Militar, Polícia Civil, Instituto-Geral de Perícias (IGP), Exército Brasileiro, Anatel, Defesa Civil, secretarias estaduais e concessionárias. Foram mobilizados mais de 400 agentes entre resgatistas, policiais, peritos, soldados do Exército, voluntários da comunidade e servidores municipais das áreas de saúde, assistência social e obras.
O planejamento do simulado priorizou o uso de recursos típicos de emergências reais, como sistemas alternativos de comunicação (rádios), veículos 4×4 para acesso rápido, quadriciclos para áreas de difícil passagem e suporte aéreo. A participação do Exército foi fundamental na logística de evacuação e montagem de abrigos transitórios, enquanto a Anatel monitorou a interrupção e posterior restabelecimento dos serviços de telefonia local.
Profissionais da Polícia Civil e do IGP também atuaram na simulação de perícia de áreas atingidas, reforçando o compromisso da integração das forças para resposta eficiente em situações de risco geológico – dinâmica que, segundo o governo estadual, poderá ser replicada em cidades vizinhas de topo de serra, como Garibaldi e Carlos Barbosa, a depender dos resultados da avaliação técnica do exercício.
Por que os protocolos testados são considerados inovadores em Bento Gonçalves?
Os protocolos de resgate e resposta testados em Bento Gonçalves refletem aprendizados recentes das tragédias ambientais que marcaram o RS em 2024, sobretudo após múltiplos casos de alagamentos e desabamentos em cidades do interior. Entre as inovações adotadas, estão evacuação ordenada baseada em sistemas de alerta prévios, delimitação rigorosa de corredores de emergência para veículos de resgate e comando integrado presencial em campo. O uso de simulações com manequins e moradores figurando como desaparecidos permite, segundo os coordenadores, avaliar como a comunicação flui entre os setores – desde a primeira sirene até o encaminhamento ao abrigo seguro.
Outro ponto destacado por especialistas é o intercâmbio de dados em tempo real entre equipes móveis, já que falhas no compartilhamento de informações prejudicaram diversas operações reais em eventos anteriores. O simulado de Bento Gonçalves foi acompanhado de perto por técnicos e analistas da Justiça estadual, para avaliação da legalidade das operações de evacuação forçada e do direito dos moradores em situações de calamidade. Experiências como essa são consideradas inéditas na escala e no grau de integração promovidos pelo estado do RS.
O modelo aplicado no bairro Zatt pode servir de referência para cidades serranas que enfrentam cenários semelhantes de risco geológico e socorro difícil, ampliando a capacitação da máquina pública e também da sociedade civil, que em muitos casos exerce o papel chave de primeiro respondente.
Qual o impacto regional dessa operação no combate a desastres?
A realização do simulado com dimensões tão amplas em Bento Gonçalves tem potencial de influenciar cidades vizinhas, como Farroupilha e Caxias do Sul, que convivem com ameaças geológicas ligadas ao relevo acidentado e à ocupação urbana próxima a encostas. Conforme especialistas da Defesa Civil gaúcha, os desastres climáticos vêm aumentando em frequência e intensidade no Sul do Brasil, cobrando do poder público inovação e engajamento para resposta eficaz. Nos últimos cinco anos, episódios de deslizamento já afetaram mais de 3 mil famílias na região serrana, com prejuízos superiores a R$ 90 milhões entre realocação, reurbanização e reconstrução de moradias e vias.
Moradores de Bento Gonçalves relataram sensação de segurança diante da mobilização das equipes e disseram sentir que a cidade ganhou protagonismo regional ao adotar práticas de prevenção ativas, não apenas reativas. A expectativa é que abrigos com estrutura semelhante à do bairro Zatt sejam implementados em locais estratégicos do município e de cidades do entorno, agregando à resposta tática meios como drones, sensores de solo e plataformas digitais de alerta coletivo.
Além de treinar agentes públicos, a operação buscou impactar a rotina dos próprios moradores, disseminando informações sobre como agir diante de sinais de deslizamento, quando acionar o socorro e como colaborar com as autoridades, ponto considerado vital diante de cenários de destruição rápida provocada pelas chuvas intensas.
O que pode mudar na prevenção e no socorro após o simulado em Bento Gonçalves?
O resultado do simulado será analisado nas próximas semanas por uma comissão formada por representantes da Defesa Civil, Ministério Público do Estado, secretarias de Saúde, Assistência Social e Obras, e também por lideranças comunitárias. Entre os pontos a serem aprimorados estão a velocidade de evacuação das residências, fortalecimento do sistema de alerta das concessionárias e padronização dos protocolos de atendimento médico em ambiente de múltiplas vítimas.
Caso as recomendações sejam acatadas, Bento Gonçalves poderá adotar ainda em 2024 um sistema próprio de monitoramento de encostas via sensores e um aplicativo de alerta geolocalizado para os bairros de risco, iniciativa já estudada em cidades maiores como Porto Alegre. A cidade segue sendo referência de resiliência entre municípios da Serra Gaúcha, que historicamente sofrem com o impacto das fortes chuvas e, agora, ampliam o investimento em tecnologia e treinamento coletivo.
Em paralelo, prevê-se a intensificação das campanhas educativas para a população do bairro Zatt e do entorno, orientando sobre comportamentos seguros antes, durante e depois de incidentes, além do incentivo à participação de lideranças locais como multiplicadores de conhecimento em prevenção de desastres.
Segundo o governo do Rio Grande do Sul, o sucesso da ação em Bento Gonçalves vai determinar a extensão de programas semelhantes para o calendário 2025, buscando transformar o cenário de vulnerabilidade em exemplo nacional de preparo e defesa da vida. A população aguarda ansiosa por novas iniciativas, ciente de que os desafios climáticos demandam ação contínua e integrada.



