Biguaçu (SC) — Um surto preocupante de escorpiões-amarelos tomou conta de um condomínio em Biguaçu, região metropolitana de Florianópolis, nesta segunda-feira (20), quando as autoridades de saúde confirmaram a captura de 256 exemplares da espécie, e animais foram localizados até o 4º andar dos prédios. O caso, considerado um dos mais graves já registrados em condomínios da Grande Florianópolis, trouxe insegurança para as cerca de 500 pessoas que vivem nos 160 apartamentos do residencial. Conforme a Vigilância em Saúde do município, a infestação pode estar ativa há pelo menos três anos, o que reacende o alerta sobre contaminação ambiental e riscos à saúde dos moradores.
Na última semana, o pânico se intensificou no residencial quando, em apenas um único dia, 109 escorpiões foram recolhidos, e outros 115 surgiram novamente três dias depois em diferentes pontos do empreendimento. Durante inspeções diárias, mais 32 espécimes foram achados, demonstrando que a infestação está longe de ser controlada, segundo explicações da equipe de monitoramento. O problema não seria isolado e pode ser um reflexo de desequilíbrios ambientais relatados em outros bairros de Santa Catarina, intensificando o debate sobre urbanização acelerada e saneamento essencial.
Segundo Paula Andreia Echer Dorosz, diretora de Vigilância em Saúde do município, a principal hipótese para a explosão populacional dos escorpiões-amarelos está ligada à presença de baratas, seu alimento predileto, que eram abundantes no condomínio até uma dedetização feita em fevereiro. Essa intervenção eliminou parte da fauna de baratas, forçando os escorpiões a deixarem seus esconderijos e a se deslocarem em busca de novas fontes de alimento. A situação chamou atenção das autoridades, que intensificaram a vigilância permanente em condomínios vizinhos, preocupando inclusive outros moradores da região metropolitana de Florianópolis.
Quais são os riscos do escorpião-amarelo para moradores de Biguaçu?
O escorpião-amarelo, também conhecido como Tityus serrulatus, representa um dos maiores desafios de saúde pública nas regiões urbanas do país, inclusive em Santa Catarina. O Ministério da Saúde reforça que esta espécie é responsável pela maioria dos acidentes com escorpiões no Brasil, sendo altamente adaptável e capaz de se reproduzir por partenogênese, ou seja, sem necessidade de macho. Uma única fêmea pode dar origem a diversas linhadas em poucos meses, agravando o potencial de infestação principalmente em áreas de alta densidade demográfica, como condomínios residenciais.
Os sintomas de uma picada variam de dor intensa local até complicações graves, especialmente em crianças pequenas, idosos ou pessoas com doenças cardíacas ou respiratórias. A rápida evolução do quadro, com risco de alterações cardíacas e até insuficiência respiratória, exige resposta emergencial das autoridades e estrutura de atendimento rápido. É por isso que, nos últimos dias, a prefeitura de Biguaçu intensificou as ações educativas e de monitoramento ambiental na região, recomendando que moradores estejam atentos a sinais do animal e saibam como agir em caso de acidente.
A situação registrada em Biguaçu não é isolada. Nos últimos anos, cidades catarinenses como Florianópolis e São José também reportaram aumentos de ocorrências, segundo registros do setor de Saúde Pública. A infestação de escorpiões-em condomínios é vista como consequência direta do acúmulo de resíduos e entulhos, condições ideais para proliferação de insetos que servem de alimento ao escorpião, além de sua incrível capacidade de adaptação aos ambientes urbanos.
O que explica o aumento de escorpiões em condomínios de Santa Catarina?
Especialistas apontam que a expansão das cidades da Grande Florianópolis, como Biguaçu, e o desenvolvimento de áreas próximas a rios, matas e terrenos baldios favorecem o aparecimento de pragas urbanas. O crescimento do número de condomínios e a maior impermeabilização do solo reduzem o hábitat natural desses animais, empurrando-os para os ambientes domésticos. Em relato ao DE, a diretora de Vigilância em Saúde destacou que frestas nas bases dos pilares dos prédios favorecem o abrigo dos escorpiões, tornando a erradicação ainda mais dificultosa.
O ciclo do surto no condomínio de Biguaçu começou, supostamente, após obras de manutenção e a posterior dedetização contra baratas em fevereiro — desde então, segundo a prefeitura, residentes passaram a visualizar mais escorpiões em áreas comuns, elevadores e até mesmo nas escadas de emergência dos edifícios. Essa movimentação foi intensamente documentada e reportada pelas equipes técnicas, que estudam os caminhos percorridos pelos escorpiões até o 4º andar, fato considerado raro segundo biólogos, já que a espécie costuma permanecer em níveis próximos ao solo, a não ser que haja forte motivação ambiental.
Além dos prejuízos à saúde pública, as ocorrências ampliaram os debates em Santa Catarina sobre as responsabilidades de manutenção de condomínios privados e fiscalização municipal em áreas de maior vulnerabilidade ambiental. A legislação estadual obriga que locais particulares tenham planos contínuos de limpeza, embora muitos síndicos relatem dificuldades em adotar medidas eficazes, sobretudo diante de infestações persistentes e da necessidade de apoio técnico regular.
Como a população de Biguaçu pode se proteger de novos surtos de escorpião?
O incidente em Biguaçu reacendeu a preocupação sobre acidentes domésticos envolvendo animais peçonhentos e levou a prefeitura a divulgar um roteiro de orientações preventivas. Entre as recomendações está o reforço da limpeza de quintais, eliminação de entulhos, manutenção de jardins e fechamento de frestas em portas e janelas — ações essenciais para barrar o acesso dos escorpiões aos lares. Segundo a Vigilância em Saúde Ambiental, o papel da comunidade é fundamental para evitar a formação de criadouros e reduzir os riscos de novas infestações no município e em cidades próximas, como São José e Palhoça.
Caso ocorra picada de escorpião, especialistas alertam para a importância de lavar imediatamente a área atingida com água e sabão, sem aplicar pomadas, gelo ou realizar cortes no local, e buscar atendimento médico o mais rápido possível. Em Santa Catarina, o protocolo indica que hospitais de referência devem ser procurados para avaliação e eventual administração de soro antiescorpiônico, reduzindo complicações e óbitos. O município reforçou a necessidade de informar casos imediatamente à Secretaria de Saúde, facilitando a coleta de dados epidemiológicos e permitindo respostas rápidas para o controle das ocorrências.
Por fim, é imprescindível que síndicos e administradores de condomínios de Biguaçu mantenham contato contínuo com o setor de Vigilância em Saúde e implementem rotinas de vistoria, agendamento regular de dedetizações e orientações periódicas aos moradores. O caso serve de alerta para toda a região metropolitana de Florianópolis, onde o adensamento populacional e deficiência pontual nos serviços urbanos podem abrir caminho para novos surtos de escorpiões e outros animais considerados perigosos.
Como medida adicional de segurança, a prefeitura de Biguaçu anunciou que voltará a realizar inspeções quinzenais no condomínio enquanto a situação não estiver totalmente controlada, e que outras ações poderão ser adotadas de acordo com a evolução do caso e a colaboração dos moradores na manutenção da limpeza e descarte adequado de resíduos.
O caso já gerou mobilização de órgãos municipais e estaduais, sendo acompanhado por equipes multidisciplinares que monitoram não apenas o prédio em questão, mas também imóveis vizinhos. Técnicos da Secretaria Estadual de Saúde visitaram a região para analisar a possibilidade de situações semelhantes em outras localidades da Grande Florianópolis.
Enquanto isso, o medo paira sobre as famílias do residencial, que relatam preocupação constante ao encontrarem escorpiões nos corredores, elevadores e até no interior de seus apartamentos. Apoiados por ações informativas do poder público municipal, síndicos e residentes estão buscando soluções definitivas para restaurar a sensação de segurança e evitar registros ainda mais numerosos nos próximos meses.
De acordo com a mais recente atualização da prefeitura, não houve, até o momento, registro de acidentes com humanos, embora um cachorro tenha sido picado e precisado de atendimento veterinário. O monitoramento permanece ininterrupto, e medidas emergenciais continuam sendo adotadas na tentativa de controlar completamente o avanço dos escorpiões em Biguaçu.
A expectativa é que o intercâmbio de informações entre cidades catarinenses contribua para o aprimoramento das estratégias de prevenção e resposta rápida a surtos dessa natureza, protegendo, assim, toda a população da Grande Florianópolis. Os órgãos de saúde enfatizam ainda que qualquer suspeita de infestação em outros bairros deve ser imediatamente comunicada ao serviço municipal para evitar a repetição de episódios como o vivido pelo condomínio de Biguaçu.
Reportagem: Diário do Estado de Santa Catarina



