MACAPÁ (AP) — A soldado Gisele Alves Santana já temia o pior. Dias antes de ser morta com um tiro na cabeça, ela confessou a uma amiga de farda que desconfiava da própria sorte: “Você acredita que ele teria coragem de me matar?”. A pergunta, feita em tom de desabafo, ecoou como uma premonição trágica e se tornou uma das provas mais marcantes no processo contra o marido, o tenente-coronel Geraldo Rosa Neto, preso preventivamente.

A fase de coleta de provas foi encerrada pela Justiça nesta quarta-feira (8). Em MACAPÁ, o caso ganhou contornos de comoção nacional após os depoimentos de bombeiros e policiais que atenderam a ocorrência. Eles narraram detalhes que levantaram suspeitas desde o primeiro momento.

‘Ela já sabia: ‘Ele tem uma mente perigosa’’

Uma das testemunhas mais contundentes foi a sargento Damiana Alves da Silva, colega de Gisele. Ela contou que a amiga vivia com medo. “Nós estávamos na copa e ela perguntou se eu acreditava que ele teria coragem de matá-la. Eu disse que acreditava, sim!”, afirmou Damiana, em depoimento aos veículos de comunicação.

A sargento ainda complementou: “Falei: ‘Gi, antes dele ser major, ele é um ser humano dotado de uma mente’. Então, eu acreditava, sim, pelos comportamentos que ele tinha”. A amiga ouvia relatos diários de violência psicológica e abusos de poder dentro de casa.

Posição da arma na mão da vítima intrigou bombeiro

Outro detalhe que chamou a atenção foi a cena encontrada pelo sargento do Corpo de Bombeiros Rodrigo Almeida Rodrigues. Ele foi um dos primeiros a entrar no apartamento, no bairro do Brás, e fotografou a posição do corpo e da arma.

“A arma estava posicionada na mão dela. Pelo fato de eu ver uma arma, tipo, a pessoa tomou, deu um tiro na cabeça e a arma cair naquela posição, isso ficou muito curioso. Nunca tinha visto aquilo. Sempre num disparo a arma tem um impacto que joga ela pra fora. Com base no que já vi, ela não cairia reta”, explicou Rodrigo.

Marido ficou uma hora dentro do carro no hospital sem descer

O capitão Rafael Aguiar, que comandou a primeira equipe no local, também estranhou o comportamento do tenente-coronel. Após o disparo, Geraldo Neto foi junto com os policiais até o Hospital das Clínicas, onde Gisele foi socorrida. Mas ele nunca saiu do veículo.

“Ele foi pra lá com o intuito de ver a situação da esposa. Em nenhum momento desembarcou do carro para tentar ver qual era a situação, se ela chegou com vida ou não. Ficou ali uma hora, uma hora e meia e saiu de lá sem saber se ela tinha falecido”, relatou o capitão.

A filha de Gisele, uma menina de 7 anos, também foi ouvida e contou que já presenciou muitas brigas entre a mãe e o padrasto. O depoimento do tenente-coronel está marcado para o dia 28 de agosto. Ao fim da instrução, o juiz decidirá se ele será levado a julgamento pelo Tribunal do Júri.