O Brasil condenou oficialmente, pela primeira vez, a repressão do Irã contra manifestantes durante uma sessão extraordinária do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, realizada nesta sexta-feira (23), em Genebra. A manifestação representa uma inflexão na postura da diplomacia brasileira desde o início da mais recente onda de protestos no país, registrada em dezembro, quando o governo vinha se limitando a expressar preocupação e pesar pelas mortes, relata a Folha de São Paulo.
Durante o debate, o embaixador Tovar da Silva Nunes, representante permanente do Brasil na ONU em Genebra, condenou o uso da força letal e apontou violações graves de direitos fundamentais. “Condenamos fortemente o uso de força letal contra manifestantes pacíficos e estamos preocupados com relatos de prisões arbitrárias e de crianças como alvo. Notamos que bloqueios da internet violam o direito de liberdade de expressão, incluindo de acesso à informação”, afirmou o diplomata brasileiro.
Na mesma intervenção, Nunes ressaltou a posição histórica do Brasil em defesa da soberania dos povos e criticou medidas coercitivas internacionais. “O Brasil sustenta que apenas o povo iraniano tem o direito soberano de determinar o futuro do país. Por fim, o Brasil reitera sua condenação a medidas unilaterais coercitivas contra o Irã. Ressaltamos que essas medidas impactam negativamente os direitos humanos da população e exacerbam os desafios econômicos do país, que servem de pano de fundo para as atuais manifestações”, declarou.
As referências às medidas unilaterais foram interpretadas como uma alusão tanto às sanções impostas ao Irã, tradicionalmente criticadas pela diplomacia brasileira, quanto às recentes ameaças do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de recorrer ao uso da força contra Teerã. Nos últimos dias, os Estados Unidos deslocaram caças e navios de guerra para regiões próximas ao território iraniano.
A sessão extraordinária do Conselho de Direitos Humanos contou com o apoio de ao menos 50 países e teve como objetivo discutir denúncias de violência, repressão e violações de direitos humanos no Irã, em meio a grandes manifestações que atingiram Teerã e dezenas de outras cidades. O alto comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Turk, fez um apelo direto às autoridades iranianas: “Insto as autoridades iranianas a reconsiderar, recuar e colocar um fim à sua brutal repressão”. Segundo ele, trata-se de “um padrão de sujeição e força esmagadora que não pode nunca abordar adequadamente as queixas e frustrações do povo”.
O representante do Irã na reunião reagiu de forma crítica à convocação do encontro. “Os patrocinadores desta sessão e de seus resultados nunca se importaram genuinamente com os direitos humanos dos iranianos. De outro modo, não teriam imposto sanções desumanas, violando os direitos básicos de todos os iranianos, nem teriam apoiado a guerra de agressão de Israel que matou e feriu mais de 5 mil iranianos”, afirmou.




