Cabelo sugado por ralo em piscinas: saiba como proteger crianças e como agir em caso de afogamento
Uma adolescente foi apreendida em 14 de janeiro por suspeita de omissão de socorro ao presenciar o afogamento de uma criança presa na piscina dos avós, em Campinas (SP). Metrópole sancionou lei que proíbe funcionamento de motores de sucção em piscinas coletivas durante o uso.
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Cabelo sugado por ralo: como proteger crianças em piscinas e agir em caso de afogamento
Diante de casos de afogamentos em piscinas registrados em Campinas (SP), o DE ouviu especialistas que orientam como agir com segurança caso alguém fique preso no ralo ou submerso – confira abaixo. Além dos primeiros-socorros, as principais orientações envolvem ações de prevenção, como desligar os motores de sucção de piscinas sempre que houver banhistas, instalar dispositivos de proteção e garantir supervisão adulta constante.
Em um caso de repercussão na metrópole, uma adolescente foi apreendida em 14 de janeiro por suspeita de omissão de socorro depois de presenciar o afogamanto de uma criança, de 11 anos, que prendeu o cabelo no ralo da piscina dos avós. Segundo o boletim de ocorrência, a adolescente não teria pedido ajuda de imediato.
Também no mês de janeiro, Campinas sancionou a Lei Manuela, que proíbe o funcionamento dos motores de sucção enquanto piscinas coletivas estiverem em uso e determina a instalação de equipamentos de segurança para evitar novas tragédias. A lei leva o nome de Manuela Cotrin Carósio, de 9 anos, que morreu após ter o cabelo sugado por um dispositivo irregular em um resort da cidade, em 2024.
Nesta reportagem, você vai conferir:
Quais equipamentos deixam a piscina mais segura?
Hábitos que podem fazer a diferença
O que fazer ao presenciar um afogamento?
O que acontece no corpo de uma pessoa que se afoga?
CASOS EM CAMPINAS
No dia 26 de dezembro de 2025, uma menina de 11 anos teve o cabelo preso no ralo da piscina da casa dos avós, no Jardim Itaguaçu I. Imagens mostram que ela ficou cerca de 16 minutos submersa antes de ser retirada.
A adolescente de 15 anos que estava com ela na piscina foi apreendida, em 14 de janeiro deste ano, por suspeita de omissão de socorro, já que, segundo o boletim de ocorrência, não teria pedido ajuda de imediato. A criança foi socorrida e levada ao Hospital de Clínicas da Unicamp, mas não resistiu.
Dois anos antes, em novembro de 2024, Manuela Cotrin Carósio, de 9 anos, sofreu um acidente parecido em um resort de Campinas. O cabelo dela ficou preso em um dispositivo de sucção que, de acordo com o laudo pericial, estava fora das normas técnicas. A menina ficou sete minutos submersa e chegou a ser internada, mas morreu 11 dias depois, no dia em que completaria 10 anos. O caso motivou a mobilização da família e levou à criação de uma lei municipal que define padrões de segurança para piscinas coletivas.
Manuela Cotrin Carósio tinha 9 anos quando sofreu um acidente em uma piscina de um resort de luxo de Campinas (SP). — Foto: Arquivo pessoal
O instrutor técnico Fábio Forlenza, conhecido como Professor Piscina, explica que o motor da piscina puxa a água com força para filtrá-la. Esse processo ocorre por meio do ralo de fundo — localizado na parte mais profunda — e do bocal de aspiração, que costuma ficar na lateral.
Se esses dispositivos não tiverem proteção adequada, a bomba funciona como um aspirador potente. Caso alguém encoste o corpo ou aproxime o cabelo da área de sucção, pode ficar preso.
> “Essas sucções são altamente potentes, eles realmente afundam, eles sugam, e às vezes, estando sozinho, você não consegue mais reagir dali”, diz o professor de Enfermagem Luiz Fernando Fogaça.
QUAIS EQUIPAMENTOS DEIXAM A PISCINA MAIS SEGURA?
Ralo de fundo “anti-turbilhão” ou “anti-hair” — Foto: Estevão Mamédio/g1
É um ralo com formato arredondado e grelhas com aberturas também nas laterais. Assim, mesmo que alguém bloqueie a parte superior, a água continua circulando, o que impede a formação de vácuo.
> “Se alguém vir a colocar o pé, a mão em um lado do dispositivo, ele imediatamente distribui a vazão da peça para os outros lados. Consequentemente, não tem sucção, ele não aprisiona a criança, o adulto, qualquer coisa que seja”, explica o vendedor especializado Adão Luís, que atua na loja Mundo das Piscinas em Vinhedo (SP).
As normas também recomendam instalar dois ou mais ralos interligados para dividir a força da sucção.
Dispositivo de aspiração com fechamento automático, para ser colocado em piscinas. — Foto: Estevão Mamédio/g1
É um adaptador que possui uma tampa com mola, uma espécie de escotilha. Quando a mangueira de limpeza é retirada, a tampa se fecha sozinha, bloqueando o buraco e evitando sucção direta.
Sistemas de desligamento do motor e construção da piscina
Piscinas podem contar com um botão de emergência para desligar o motor rapidamente. Existem ainda bombas com sensores que interrompem o funcionamento quando detectam bloqueio na entrada de água — porém, esses sistemas são mais caros e menos comuns.
Adão Luís reforça ainda que a construção da piscina também influencia na segurança. Há modelos em que o ralo é instalado por baixo da alvenaria, com saída lateral, o que reduz a pressão.
> “A gente sempre recomenda quem quiser construir uma piscina a ir atrás de um profissional, de uma pessoa que é capacitada”, reforça Adão Luís.
HÁBITOS QUE PODEM FAZER A DIFERENÇA
Equipamentos de segurança ajudam, mas hábitos preventivos são essenciais. O principal é a supervisão constante de um adulto — sem celular, sem leitura e sem distrações.
> “Quando a gente fala da prevenção, é estar sentado ou mesmo dentro da piscina, observando tudo que está ocorrendo naquele espaço, naquele momento, onde as crianças estão brincando, se divertindo. Não adianta eu estar lá olhando o ‘zap’, olhando uma mensagem, lendo um livro, porque a sua atenção não estará focada à observação”, destaca Fogaça.
A supervisão não pode ser delegada a crianças ou adolescentes. Em festas, o ideal é revezar o adulto responsável pela observação da piscina.
Outro ponto importante é desligar a bomba sempre que houver pessoas na água, no caso de piscinas residenciais. Isso elimina a força de sucção — a causa principal dos aprisionamentos.
> “Uma academia não pode desligar o motor, tem que estar ligado basicamente 24 horas, ou até um clube. Então, obrigatoriamente, vai ter que colocar os dispositivos de segurança”, diz Forlenza.
Também é recomendável que ninguém nade sozinho, mesmo adultos. Brincadeiras bruscas devem ser evitadas e crianças precisam aprender noções básicas de flutuação e segurança.
Moradores e responsáveis devem saber onde fica o disjuntor ou a chave geral da bomba, para agir rápido em emergências.
O QUE FAZER AO PRESENCIAR UM AFOGAMENTO?
Antes de tudo, é essencial chamar o Corpo de Bombeiros pelo 193.
> “Se o máximo que você consegue fazer é ligar pro Corpo de Bombeiros, liga que por telefone a gente vai conseguir te orientar, ajudar a manter a calma e fazer os primeiros socorros”, afirma a tenente do Corpo de Bombeiros, Olivia Perrone Cazo.
Se for seguro, retire a vítima da água e inicie os primeiros socorros.
Como agir no aprisionamento e resgate
A tenente explica que, ao perceber que alguém está preso, o motor da piscina deve ser desligado imediatamente.
Se o cabelo ou roupa estiverem presos, apenas desligar a bomba pode não bastar. Nesse caso, é preciso cortar os fios ou o tecido.
Se não for possível retirar a vítima, o objetivo passa a ser manter o rosto dela fora da água para que consiga respirar.
> “E lembrando que precisa ser um conjunto paralelo de apoio, né? Uma pessoa vai lá, desliga a bomba e a outra pessoa oferece flutuabilidade para essa vítima ou até, conseguindo cortar um pedaço de roupa, de cabelo, consegue livrá-la dessa sucção”, orienta Cazo.
Primeiros socorros após a retirada da água
Com a vítima fora da água, verifique consciência e respiração.
Se estiver respirando, coloque-a deitada sobre o lado direito.
Se estiver inconsciente e sem respiração, inicie a massagem cardíaca com 100 a 120 compressões por minuto, entre o lado esquerdo e o centro do tórax.
O QUE ACONTECE NO CORPO DE UMA PESSOA QUE SE AFOGA?
O afogamento impede que o corpo absorva oxigênio e pode causar morte ou sequelas em poucos minutos.
Segundo Fogaça, o tipo mais comum é o afogamento úmido, quando a água entra nos pulmões e impede a troca de oxigênio.
Já o afogamento seco acontece quando a glote fecha em espasmo, bloqueando a entrada de ar mesmo sem água nos pulmões.
A gravidade é dividida em seis graus, que vão de casos leves, com ingestão mínima de água, até situações com parada respiratória e cardíaca.
> “Quanto maior é o grau de afogamento, maiores as consequências e maior é o risco de morte dessa pessoa”, reforça o professor Fogaça.
E o que acontece no corpo? Quando ocorre a falta de oxigênio, chamada hipóxia, as células do cérebro começam a morrer. Se a vítima fica submersa ou sem respirar por muito tempo, geralmente acima de 10 minutos, mesmo que ela sobreviva pode haver danos neurológicos irreversíveis.
Essas sequelas podem deixar a pessoa em estado vegetativo, perdendo a capacidade cognitiva e motora e exigindo cuidados por toda a vida, segundo Fogaça.




