Cardeais católicos dos EUA questionam política externa do país após ataques à Venezuela
Líderes da Igreja citam sequestro de Nicolás Maduro e cobram política internacional baseada no diálogo
Três dos mais altos representantes da Igreja Católica à frente de arquidioceses nos Estados Unidos divulgaram nesta segunda-feira uma declaração conjunta na qual colocam em xeque o papel moral dos Estados Unidos na política internacional, citando diretamente episódios recentes na Venezuela, na Ucrânia e na Groenlândia. As informações são do jornal estadunidense The New York Times.
O documento foi assinado pelo cardeal Blase Cupich, arcebispo de Chicago, pelo cardeal Robert McElroy, arcebispo de Washington, e pelo cardeal Joseph Tobin, arcebispo de Newark.
No texto, os cardeais afirmam que, em 2026, o país entrou “no debate mais profundo e doloroso sobre o fundamento moral das ações dos Estados Unidos no mundo desde o fim da Guerra Fria”. A declaração, embora não cite Donald Trump nominalmente, é direcionada às diretrizes do atual governo dos EUA.
Os líderes religiosos associam esse debate a eventos recentes que, segundo eles, levantaram questões centrais sobre o uso da força militar. Entre os exemplos citados está a Venezuela, onde o governo Trump ordenou ataques a embarcações, além do sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa por militares dos EUA, sem autorização do Congresso.
Na avaliação dos cardeais, esses episódios evidenciam a necessidade de uma “política externa genuinamente moral”, na qual “a ação militar deve ser vista apenas como último recurso em situações extremas, e não como instrumento normal da política nacional”.
A declaração também menciona ameaças feitas pelo governo estadunidense de assumir o controle da Groenlândia “pela força”, além da continuidade da guerra na Ucrânia, como parte de um cenário mais amplo de questionamentos sobre soberania e direito internacional.
O posicionamento dos cardeais foi inspirado por conversas realizadas no início do mês, em Roma, durante um encontro reservado convocado pelo papa Leão XIV, que reuniu todos os cardeais do mundo. Segundo o cardeal Cupich, houve entre os participantes “um sentimento de alarme sobre os rumos do mundo e sobre algumas das ações que estavam sendo tomadas nos Estados Unidos”.
Em entrevistas concedidas ao The New York Times, os cardeais manifestaram preocupação com a consolidação de uma ordem global baseada na força e na dominação, em detrimento de princípios como paz, liberdade e cooperação entre nações.
O texto também menciona a inquietação de lideranças católicas com o desmonte da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional no ano passado, decisão que interrompeu fluxos de ajuda externa destinados a países mais pobres.
Embora Leão XIV tenha evitado confrontos diretos com Donald Trump, sua atuação tem sido observada de perto. Em outubro, diante da intensificação das deportações em Chicago, sua cidade natal, o papa pediu que bispos estadunidenses apoiassem firmemente os imigrantes e incentivou a leitura de uma nota episcopal crítica à política migratória do governo.
A nova declaração dos cardeais apresenta essa visão como uma interpretação do papel do papa Leão XIV na construção de um “compasso ético duradouro” para orientar a política externa dos Estados Unidos nos próximos anos.




