Do batuque de rua ao sambódromo em Batatais: conheça a história das escolas de samba
Reunião de negros originou a 1ª agremiação da cidade em 1955. Ao longo do tempo, desfiles enfrentaram interrupções, mas hoje movimentam milhares de foliões na passarela do samba.
Carnaval de Batatais: conheça a história das escolas de samba
Carnaval de Batatais: conheça a história das escolas de samba
Quando o primeiro surdo bate, Batatais (SP) reconhece o próprio passado. O Carnaval da cidade não nasceu grande nem organizado como é hoje. A festa começou na década de 1920 de forma simples, ocupando ruas, praças e clubes com blocos carnavalescos, marchinhas e fantasias improvisadas.
Foi somente em 1955 que surgiu a Princesa Isabel, considerada a primeira escola de samba de Batatais.
Segundo o vice-presidente do Núcleo de Aprendizagem Princesa Isabel (Nuapi), Gabriel Oliveira, a escola foi fundada em um clube criado por pessoas negras e nasceu em um contexto de exclusão social.
> “Essa escola, ela nasceu de dentro de um clube criado por pessoas negras, para pessoas negras, em uma época que os negros não eram bem-vindos em outros clubes. Então, em 1955, ela desfila pela primeira vez como escola de samba, com outros blocos que já havia na cidade e faziam parte mais da elite”.
Após esse primeiro desfile, as manifestações ganharam estrutura e identidade própria, abrindo caminho para o surgimento das escolas de samba, inspiradas nos grandes carnavais do país.
Stella, Riachuelo, UE4, a escola da Jumil e, na década de 1970, a Castelo, que se tornaria a maior campeã da história do Carnaval batataense, também preservavam características locais.
ASCENSÃO E MOMENTOS MARCANTES
Com a criação das primeiras agremiações, o Carnaval de Batatais assumiu um formato competitivo. Na década de 1980, o crescimento do evento trouxe maior visibilidade regional e passou a atrair visitantes de cidades vizinhas. Comércio, rede hoteleira e serviços foram beneficiados em Batatais.
Esse período também foi marcado pela consolidação de escolas que seguem até hoje na disputa. É o caso da Acadêmicos do Samba, fundada em 1979 e tricampeã durante a década de 1980. Um dos membros da diretoria, presidente da Acadêmicos no último título e radialista, Osvaldo Batista, conhecido como Compadre Batista, relembra o período campeão e a conquista de 1989.
> “Eu estou nos três títulos da Acadêmicos, dois eu não era presidente, mas da diretoria, e, no último, eu fui o presidente. Em 1989, eu tinha 1.150 pessoas na escola, o enredo daquele carnaval foi ‘Clara Nunes’ e eu consegui liderar os companheiros, os amigos, me envolvi com eles. E foi aí que nós crescemos a Acadêmicos e colocamos a terceira estrela no pavilhão da escola”.
Outro momento histórico da escola aconteceu em 1996, quando a Acadêmicos do Samba trouxe para desfilar o Boi Garantido, marca registrada do popular Festival de Parintins, no Amazonas. Gabriel Oliveira conta que, na época, a escola enfrentou concorrência e o boi chegou diretamente de uma apresentação de Paris para desfilar no Carnaval de Batatais.
“Eles estavam fazendo um show em Paris e eles chegaram direto no Brasil para desfilar na Acadêmicos. Nesse mesmo ano inclusive, a X-9 Paulistana, em São Paulo, estava fazendo um enredo sobre a Amazônia e eles queriam a presença do boi lá. Só que aí, como o desfile era no mesmo dia e eles já tinham combinado com a gente antes, eles desfilaram em Batatais e não desfilaram em São Paulo”.
UM CARNAVAL QUE MUDOU DE ENDEREÇO
Com o crescimento ao longo dos anos, o Carnaval de Batatais percorreu diferentes pontos da cidade. Os primeiros desfiles aconteceram na região central, próximo à Praça da Matriz. Depois, passaram por avenidas como a Nove de Julho, a Quatorze de Março e a Moacir Dias de Moraes.
Com a conquista do título de Estância Turística em 1994, o nível da festa precisou acompanhar a nova realidade do município. No final dos anos 1990 e no início dos anos 2000, foi idealizada e construída a estrutura do sambódromo, que passou a concentrar os desfiles a partir de 2001. Na época, Osvaldo Batista ocupava o cargo de secretário de Turismo e viu a necessidade de estruturação.
> “Eu vou para a Secretaria de Turismo e eu entendi que, como tinha esse movimento carnavalesco e cultural de Batatais, nós não tínhamos suporte. Então, eu comecei o processo da instalação da Estância Turística de Batatais e, graças a Deus, eu fui muito feliz em 94”.
PAUSAS E INSTABILIDADES
Apesar da consolidação, a história do Carnaval de Batatais não foi marcada apenas por crescimento. Durante a construção do sambódromo, entre 1999 e 2001, os recursos da Estância Turística foram direcionados à obra, o que interrompeu temporariamente os desfiles.
Mais recentemente, o Carnaval deixou de acontecer em 2015, retornou em 2018 e voltou a ser interrompido até a retomada em 2024. As pausas foram atribuídas à falta de investimentos e, posteriormente, à pandemia da Covid, que impossibilitou a realização do evento.
NOVOS ARES
Nos últimos anos, o Carnaval de Batatais passou a incorporar novas formas de celebração. Além dos desfiles competitivos, blocos de rua, shows musicais e a eleição da corte carnavalesca passaram a integrar a programação.
Esse novo formato ganhou o nome de Batatais Folia e trouxe uma proposta de entretenimento que combinou tradição e modernização. Nesse momento, a festa passou a ocupar não apenas o sambódromo do desfile, mas também diferentes pontos da cidade.
A ampliação da programação também contribuiu para fortalecer o turismo e impulsionar a economia local, consolidando o evento como um dos principais do calendário cultural do município.
UMA TRADIÇÃO QUE RESISTE
Mais do que o espetáculo na avenida, o Carnaval de Batatais mantém um papel social ativo ao longo de todo o ano na cidade. A festa ultrapassa os dias de desfile e se consolida como espaço permanente de convivência, formação e pertencimento.
De acordo com Gabriel Oliveira, as escolas de samba seguem cumprindo uma função que vai além do entretenimento, atuando como pontes entre a comunidade e a cultura popular.
> “As escolas têm esse papel social mais forte com atividades que acontecem durante o ano todo. Então, a maioria das escolas hoje tem escolinha de bateria para as crianças e isso é uma forma de tirar a criança da rua, de ter uma atividade ali no final de semana. Eu acho que o papel da escola de samba hoje tem sido cumprido, que é o de fazer essa ponte da escola com a comunidade e preparar o futuro do Carnaval da cidade”.
Para Compadre Batista, o Carnaval é ainda mais profundo e se tornou parte inseparável da própria história de vida.
> “Eu nasci numa casa de um homem que não executava nenhum instrumento: Sebastião Batista, que tinha apelido de chato. Mas ele tinha todos os instrumentos dentro de casa e eu nasci e vivi música. Então, eu não vivo, vamos dizer assim, sem Carnaval. Eu levanto cedo e eu penso no Carnaval, vou dormir e eu penso no Carnaval”, afirma.
Batista também é idealizador e criador do projeto Casa do Samba, que realiza a cobertura do Carnaval de Batatais anualmente e festas nos finais de semana nas quadras das escolas de samba da cidade. Para ele, o Carnaval e o projeto são momentos de paz e foram criados para manter a cultura de uma comunidade.
“Quando eu vejo um desfile com aquela multidão, os programas Casa do Samba, você vê essa multidão, todos os membros de todas as escolas cantando o samba-enredo das outras escolas, é com isso que eu fico muito feliz. Nós vemos que estamos no caminho certo”.
*Sob supervisão de Thaisa Figueiredo
Veja mais notícias da região no DE Ribeirão Preto e Franca
VÍDEOS: TUDO SOBRE RIBEIRÃO PRETO, FRANCA E REGIÃO
50 vídeos




