Eu desenhava pregos e martelos, para entenderem o que eu precisava, conta imigrante coreano que chegou ao Paraná há 60 anos
Famílias vindas da Coreia do Sul chegaram ao estado em 1966, em busca de melhores condições de vida após a Guerra da Coreia. Comunidade celebra 60 anos da imigração neste domingo (18), em Curitiba
Comunidade coreana católica celebra 60 anos no Paraná
“Existia uma ansiedade por uma vida melhor”. Foi com essa perspectiva que 53 famílias coreanas católicas chegaram ao Brasil, em 1966. Entre elas estava a família do padre Man Young Lee, que relembra a chegada ao país, quando tinha 12 anos.
Hoje, aos 72 anos, Lee conta que a viagem de navio durou 55 dias até a chegada ao Brasil em 12 de janeiro de 1966. Ele e a família desembarcaram no Rio de Janeiro e chegaram até a Fazenda Santa Maria, em Castro, nos Campos Gerais do Paraná.
A imigração coreana católica contou com o apoio do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), do Itamaraty e de órgãos da igreja no Brasil. Na época, a Coreia do Sul enfrentava grandes dificuldades econômicas e sociais como consequência da Guerra da Coreia (1950–1953).
Segundo o governo brasileiro, o primeiro grupo de 109 coreanos partiu da cidade de Busan, em 1962, e desembarcou no porto de Santos em fevereiro de 1963. No entanto, foi a partir de 1965, com a assinatura de um acordo entre os governos do Brasil e da Coreia do Sul, que famílias coreanas católicas passaram a deixar o país de origem e a migrar para o Brasil em busca de um recomeço.
Segundo o padre Lee, o navio não era preparado para o transporte de passageiros, o que tornou a travessia difícil, principalmente para idosos. “Era tudo improvisado, com beliches separados por cortinas. Para mim, que era criança, não foi tão pesado. Eu andava pelo navio, brincava e fazia amizades. Mas para os mais velhos foi muito sofrido”, relembra.
Durante a viagem, as famílias fizeram paradas em Singapura e em Penang, na Malásia. Uma das lembranças mais marcantes foi a facilidade para comprar banana, fruta que não é nativa da Coreia do Sul e, por isso, costumava ser mais cara no país asiático. “Com 25 centavos de dólar compramos um cacho enorme de bananas na Malásia. Nunca tinha visto nada igual. Três pessoas sentadas numa praça, comendo banana até não aguentar mais”, conta.
Imigrante coreano que chegou ao Paraná aos 12 anos enfrentou desafios como língua, costumes e clima na adaptação. Os primeiros três meses foram vividos em condições precárias, enquanto as casas eram construídas. Os imigrantes montaram abrigos improvisados, cavaram poços e viveram sem eletricidade. As famílias também se preocupavam com a educação dos jovens e das crianças, pois, no primeiro momento não havia escola, O padre Lee relembra, “era uma das preocupações contínuas: como é que vamos educar os filhos?”
Outro fator desafiador era o trabalho na agricultura, já que nenhuma das 53 famílias tinha experiência nesse setor, o que fez com que a atividade agrícola não prosperasse na região. Cada família enfrentava barreiras para se adaptar à nova realidade no Paraná, afetando seu sustento e bem-estar.
*Mantenha a tradição há 60 anos*
O padre Man Young Lee encontrou formas criativas de se comunicar para aprender o português ao chegar no Brasil. Através de desenhos simples de itens de feira e materiais de obra, Lee conseguiu superar as barreiras linguísticas iniciais. Mesmo após mais de 60 anos no Brasil, ele mantém sua identidade coreana, enfatizando que faz parte de sua história.
A preservação da cultura é fundamental para as próximas gerações, conforme destaca o mestre Myong Jae Han, pioneiro na introdução do taekwondo no Paraná. Ele ressalta a importância de reforçar os valores e tradições coreanas aos filhos, contribuindo para a disseminação da cultura coreana globalmente.
A troca de culturas e a fé foram elementos essenciais para a integração da comunidade coreana no Paraná. O padre André, da Paróquia do Seminário, testemunha a profunda fé e acolhimento da comunidade coreana, enfatizando a importância de preservar a memória e a cultura para garantir a continuidade da trajetória dos imigrantes coreanos.
Por fim, a celebração dos 60 anos da imigração coreana católica no Paraná é uma oportunidade para relembrar as dificuldades enfrentadas, os sacrifícios feitos e as conquistas alcançadas ao longo desse período. Registros como esses são fundamentais para valorizar o passado e fornecer insights para as gerações futuras compreenderem a jornada e o legado deixado pelos imigrantes coreanos no Brasil. A missa em Ação de Graças e o evento no Clube Concórdia são formas de honrar a história e promover a união da comunidade coreana no Paraná.
*Assistente de produtos digitais do DE Paraná, sob supervisão de Douglas Maia.




