Um flagrante impressionante da vida selvagem chamou a atenção de moradores de Tejupá (SP). No dia 16 de fevereiro, uma cobra-verde (Philodryas olfersii) foi registrada enquanto predava um morcego da família Vespertilionidae no forro de uma casa em uma área rural do município.
A cena foi filmada pela bióloga de formação e observadora de aves Ligia Carvalho, que acompanhou de perto o comportamento do animal e comenta que a presença da cobra já vinha sendo percebida dias antes do registro.
Provavelmente ela já estava rondando por aqui, porque entrou no forro. O flagrante foi feito na chácara do nosso vizinho, ao lado da casa dos meus pais. São chácaras todas juntas, somos todos amigos. Eles ficaram preocupados e foram procurar o caseiro para ver se teria como retirar a cobra, e na hora acabamos registrando tudo, conta.
ESTRATÉGIA ALIMENTAR E ENCONTRO COM MORCEGOS
A cobra-verde é considerada uma serpente generalista, capaz de se alimentar de diferentes tipos de presas. Ela come anfíbios, aves, mamíferos, lagartos. O que couber, ela come, resume o herpetólogo Will Pessoa.
De hábito semi-arborícola, a espécie escala com facilidade árvores e telhados, o que amplia as chances de encontro com possíveis presas. Galhos encostando nas telhas facilitam a subida. Quando ela entra em casas ou forros, acaba encontrando suas presas, inclusive morcegos, explica.
Os morcegos são noturnos e a cobra-verde é diurna. Isso dá vantagem à serpente, porque ela encontra os morcegos repousando, geralmente aglomerados em frestas, telhados ou caixas d’água.
MORCEGOS INSETÍVOROS E PAPEL ECOLÓGICO
Biólogo especialista em morcegos, Roberto Leonan M. Novaes explica que o animal predado pertence à família Vespertilionidae, um dos grupos mais comuns no Brasil. O morcego é um Vespertilionidae, provavelmente dos gêneros Neoeptesicus ou Myotis, mas não dá para identificar com precisão, afirma.
Segundo ele, esses morcegos são insetívoros e têm ampla distribuição. São espécies muito comuns em áreas urbanas, rurais e florestais. Predam insetos durante o voo e têm um papel ecológico valioso no controle de populações que podem ser pragas agrícolas ou transmissores de doenças para animais e humanos, diz Roberto.
PREDAÇÃO NÃO É RARA, MAS O REGISTRO É IMPORTANTE
Para o herpetólogo Will Pessoa, o comportamento registrado não deve ser tratado como algo excepcional, mas isso não diminui a importância do flagrante. Muitas vezes, o que se considera raro é apenas falta de registro. Se ninguém observa ou documenta, a ciência acaba classificando como incomum. Mas quem vive em sítios e áreas rurais presencia esse tipo de interação com mais frequência, explica.
Segundo ele, embora a predação de morcegos por cobras-verdes não seja considerada rara do ponto de vista ecológico, registros documentados como esse são fundamentais para ampliar o conhecimento sobre o comportamento da espécie.
VENENO, IMOBILIZAÇÃO E INGESTÃO
Apesar de não ser considerada altamente peçonhenta para humanos, a cobra-verde possui dentição opistóglifa, com presas localizadas no fundo da boca. Ela segura a presa e vai ‘andando’ com a boca até conseguir inocular a peçonha. Para as presas, essa toxina é eficiente: mata ou deixa o animal letárgico em poucos minutos, explica Will Pessoa.
O comportamento de enrolar o corpo na presa não é exatamente constrição. Na maioria das vezes, é apenas imobilização. É para o animal não fugir nem morder. Quem vê acha que está apertando, mas é contenção, esclarece o herpetólogo.
No caso dos morcegos, esse cuidado é fundamental. Eles têm mordida forte e podem causar ferimentos na serpente. Por isso, ela espera o animal ficar mais fraco antes de engolir, completa.




