De acordo com informações repassadas pela Polícia Militar, a ação criminosa teve início quando a vítima, identificada pelas iniciais P.S.M.J., saiu do trabalho na quinta-feira (9), foi até um bar da região e deu início ao consumo de crack. Em meio à sequência de compras, gastou cerca de R$ 1 mil em entorpecentes e acumulou dívida de R$ 500 com os traficantes. Não tendo como arcar com o valor, passou a ser coagido por dois homens, agora presos e identificados como Kauã da Silva Martins e Jhuan Cunha Mendes.
O drama ganhou contornos dramáticos na manhã de sábado, quando clientes de uma loja de motocicletas do bairro Bela Vista perceberam a movimentação suspeita entre três homens. Segundo testemunhas, a vítima era pressionada pelos dois suspeitos a financiar uma moto de alto valor, ação interrompida apenas quando o homem conseguiu entregar discretamente um bilhete aos funcionários, com o apelo: “Aciona uma viatura para mim, estou sendo assaltado”. Rapidamente, a polícia foi acionada ao local.
Como ocorreu o cárcere e qual foi a reação da comunidade de Colatina?
A partir do bilhete entregue, começou a apuração emergencial. Conforme relatos colhidos junto a funcionários da loja e ao registro da ocorrência, os suspeitos tentavam constranger o homem publicamente, aumentando a tensão. Após frustrar a tentativa de compra do veículo, os dois obrigaram a vítima a acompanhá-los até uma casa abandonada no bairro Bela Vista, onde o mantiveram trancado. De acordo com a vítima, foi agredido com socos, chutes e até cadeiradas, além de ter documentos e um cordão de prata roubados na ação.
A reação da comunidade foi de surpresa e inquietação. Casos de cárcere privado não são frequentes na região central de Colatina, segundo registros da Polícia Civil, e a violência ligada ao tráfico preocupa moradores, que demonstraram indignação com a ousadia do crime em plena luz do dia. Comerciantes próximos à loja relataram que, nos últimos meses, houve aumento de pequenas extorsões e furtos relacionados a dívidas de usuários, mas raramente se observa restrição de liberdade dessa natureza.
Nessa mesma manhã, a Polícia Militar empreendeu buscas pelos suspeitos. Não foram localizados de início, mas, com as características das roupas e o uniforme da vítima repassados por testemunhas, os militares foram até a empresa onde o funcionário desaparecido trabalhava. Lá, constataram que P.S.M.J não comparecia nem atendia contatos há dois dias, acendendo alerta máximo para uma possível situação de risco grave.
O que motivou o sequestro e como a polícia localizou os suspeitos em Colatina?
O principal fator de motivação para o crime foi o acúmulo da dívida de R$ 500 relacionada ao consumo de crack em bares do bairro Bela Vista. Segundo o depoimento à polícia, após sucessivas tentativas frustradas de conseguir o dinheiro, os criminosos obrigaram a vítima a usar seus documentos pessoais em negociações fraudulentas. Após a loja de motos negar a venda, os três migraram para uma loja de bicicletas no centro da cidade, buscando novo artifício para obter vantagens econômicas com o nome do trabalhador.
O Ciodes, central de operações policiais, foi informado da movimentação suspeita de três homens em outra loja, desta vez especializada em bicicletas. A rápida disseminação dos detalhes permitiu que a polícia acabasse localizando e abordando a vítima com os suspeitos ainda dentro do estabelecimento, realizando assim a prisão em flagrante dos envolvidos.
Durante a abordagem, ficaram evidentes as marcas de coação: Kauã portava uma tesoura presa à cintura – utilizada para ameaçar a vítima durante os deslocamentos –, além de um celular e o cordão de prata tomados do trabalhador um dia antes. A vítima relatou aos policiais, sem conseguir conter o nervosismo, que temia ser morto caso não conseguisse efetuar a compra dos bens exigida sob ameaças.
Qual o histórico de crimes semelhantes e como o caso repercute em Colatina e no Espírito Santo?
Segundo levantamento feito pela Polícia Civil, casos de extorsão mediante sequestro são considerados raríssimos em Colatina. No entanto, o crescimento de crimes ligados ao tráfico de drogas preocupa especialistas em segurança pública do Espírito Santo. O município, que possui aproximadamente 123 mil habitantes, vinha registrando até então números baixos de restrição de liberdade nos últimos três anos, segundo dados do Ministério da Justiça divulgados no início do ano.
Para a redação do Diário do Estado, este caso evidencia uma mudança de perfil nos métodos utilizados por traficantes locais para reaver dívidas e restringir direitos dos usuários. Autoridades consultadas pela reportagem, como o delegado regional de Colatina, afirmam que o padrão de violência envolvendo cárcere ainda não era comum na cidade, marcando um alerta para políticas públicas de prevenção e combate ao tráfico.
De acordo com o especialista em segurança pública consultado pela nossa redação, o uso da coação física e psicológica, bem como a pressão sobre vítimas vulneráveis, expõe a falta de assistência e de acompanhamento social de pessoas dependentes químicas na região. O episódio reacende o debate sobre a vulnerabilidade de trabalhadores que, aliados à dependência, acabam sendo alvo fácil de redes criminosas.
Como está o processo judicial dos acusados após a prisão em flagrante em Colatina?
Após a abordagem no centro, Kauã da Silva Martins e Jhuan Cunha Mendes foram algemados e conduzidos à 15ª Delegacia Regional de Colatina. Os dois responderão por extorsão mediante sequestro, crime cuja pena pode variar de 8 a 15 anos de prisão. A polícia apreendeu os objetos roubados durante o cárcere, incluindo o cordão de prata e o celular da vítima, e já encaminhou todo o material ao poder judiciário local para instrução do processo criminal.
A Delegacia afirmou, em nota enviada ao Diário do Estado, que as investigações prosseguem para apurar se os suspeitos integram alguma quadrilha do bairro Bela Vista ou estavam atuando de forma isolada. A apuração detalhada também buscará entender se o método foi premeditado ou fruto de oportunidade decorrente do consumo contínuo de drogas e endividamento. A defesa dos acusados, até o momento, não apresentou versão pública dos fatos.
Moradores do bairro Bela Vista e do centro de Colatina traçam um clima de apreensão no comércio local, principalmente lojistas de motos e bicicletas. Os relatos de tentativas de extorsão aumentaram em 2023, mas não há registro de situações tão graves envolvendo cárcere privado como ocorreu nesse episódio.
O que se sabe sobre a situação da vítima e quais as providências adotadas pelas autoridades de Colatina?
A vítima, após prestar depoimento detalhado, recebeu atendimento médico para escoriações leves e passou por acompanhamento psicológico oferecido pelo sistema público municipal. Segundo a Secretaria Municipal de Assistência Social, foi reiterada a importância do suporte a pessoas em situação de dependência química, já que episódios como esse podem ter consequências traumáticas a longo prazo.
As autoridades municipais reforçaram o pedido à população para que colabore com as investigações e denuncie qualquer atividade suspeita envolvendo coação, ameaças ou tentativas de extorsão. O caso está sendo tratado com prioridade pela Polícia Civil de Colatina, que mantém equipes dedicadas ao monitoramento de crimes de restrição de liberdade e ligados ao tráfico no município.
O Diário do Estado segue acompanhando de perto o andamento do caso, mantendo contato frequente com fontes oficiais e familiares da vítima. Nossa equipe esteve na delegacia regional e também conversou com funcionários das lojas, que ainda se dizem assustados com a possibilidade de situações semelhantes se repetirem na cidade.



