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Carnaval está destruído e é a pior festa do Brasil

Quem não suporta fingimentos de falsa alegria, provavelmente, não suportou algumas das farras neste feriado

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Não, não deste último carnaval. Mas o cheiro de urina com cerveja quente e asfalto ainda me sobem as narinas quando retorna a lembrança. Foi há alguns anos. Num fevereiro desgraçado em que eu quis, como um antropólogo numa tribo diferente, experimentar as festanças de carnaval. Afinal de contas, cult era dizer que aquilo esse tratava do auge festivo do meu país.

Então, como todo ser vivente, você tem que ir lá para ver. Você tem que encostar na vida com os cinco sentidos para entendê-la, ainda que tudo o que te sobre para escrever um texto seja um trauma respiratório. Um olfato ferido que hoje inveja a melancolia alegrinha que Clarice Lispector uma vez relatou no conto “Restos de Carnaval“. Que, até hoje, começa assim: “Não, não deste último carnaval“…

A experiência dela foi perto dos anos 30, numa infância que, embora não saísse para a folia de rua do Recife, em Pernambuco, ao menos ficava na calçada espreitando. Já minha história carnavalesca só aconteceu oitenta anos depois, num dos interiores melhorezinhos de Goiás, lugar que entende tanto de samba, pagode e axé quanto um roqueiro velhote entenderia sobre não passar vergonha.

Juro por Deus quando nem se pode jurar por Deus, para que você veja só a seriedade da seguinte afirmação: nunca fui num lugar tão imundo na minha vida inteira. Nada próximo daquele carnaval, e eu já visitei lixões a céu aberto e temos chiqueiros nos quintais da fazenda onde os porcos se alimentam com… lavagem.

Eu entendo o efeito nauseante das palavras que escolhi, mas o caso é que a sujeira daquele fevereiro era metafísica. Ou seja, estava além do mundo físico e visível. Quem me dera fosse apenas cerveja derramada no chão com fluidos corporais duvidosos: o ambiente era tão pesado que eu imaginava que os espíritos que o suportavam, ou, pior, que gostavam de ficar naquilo por mais de cinco minutos só poderiam ser aqueles a quem o dizer popular batizou de “espírito de porco“.

Reparem, caros leitores, que eu não sou uma Rapunzel enjaulada que saiu pelo mundo pela primeira vez e se assustou com o que viu: fui adolescente de festa de pecuária, campus universitário e festival moderninho de rock. Já fui beijada sem querer e só Deus sabe por quem naquele trajeto difícil por entre a multidão, feito enquanto damos as mãos em correntes para ninguém se perder da turma de amigos. E pior: já fui lambida na cara (!!!) em outra dessas tentativas falhadas –minha mãe vai me perguntar muita coisa sobre este texto…

E no entanto fiquei assustada com a feiura do meu primeiro e único carnaval. Com a baixeza humana que encontrei. Entrar naquele ambiente, à noite, passou-me uma sensação semelhante à que Dante deve ter experimentado quando estacionou na porta do inferno. De qualquer modo, “Deixai toda a esperança, vós que entrais!“, o aviso que está na porta da morada dos mortos na literatura… é bem o que aconteceu comigo.

Vi que o tormento era gigantesco: não havia música, mas barulhos que estouravam os tímpanos, frenéticos, confusos, vindos de todos os lados. Quanto à letra, quando se ouvia, deixava a impressão pesarosa de que era melhor não ter ouvido –uma espécie de trep*da nojenta que pouco lembrava sexo de pessoas. E as luzes embaralhavam os olhos, piscando e rodando desordenadas, fazendo jus à descrição do ambiente.

Ali, no meio, estavam o que pareciam ser pessoas, comportando-se como bichos em crise epilética. Na verdade, não era possível distinguir se eram maiores ou menores de idade –eu não era maior de idade e entrei numa facilidade absurda. Os rapazes e moças, se vestidos era muito pouco, esfregavam-se em turma, com camisinhas (gratuitas!) erguidas numa das mãos e copos cheios a transbordar na outra.

Fui embora em cinco minutos. Na minha ingenuidade, eu queria mesmo me divertir no carnaval. Mas eu procurava uma alegria sincera, uma festa alegre e verdadeira, e não aquele show de horrores com pessoas tristes fazendo qualquer coisa, como em desespero, para ver se alcançavam algum êxtase ou satisfação.

Veja bem, pode parecer estranho para nós que eu diga isso hoje em dia, mas aquilo não é normal. Aquele tipo de ambiente não é normal. Não é natural que o ser humano aja como um animal sem sentido nem razão de ser: e não lhe faz bem, obviamente. É simplesmente porco, e a mim parece que a imundície do ambiente suja cada pedaço límpido que resta na alma.

É claro que existem ainda resquícios de beleza por aí, e bons carnavais: mas eles são cada vez mais raros de se encontrar. No meio das fantasias divertidas, dos alceus valenças ao vivo com as morenas tropicanas e as cores do frevo, muito, ou quase tudo, já se perdeu.

O problema maior, aquele que é pior e o chefe de todos os problemas menores, é a falsidade que corrompe tudo, do sagrado ao vulgar: por isso, nem festas as pessoas sabem fazer mais, como antigamente. Tudo está estragado pela nossa falta de personalidade que, por carência, aceita qualquer porcaria ou migalha que lhe é jogada.

Digo e repito: ser o doidão liberado não garante uma boa farra. Sempre dependerá de alguém ser aquilo que é, apenas, confortável em meio às pessoas com quem se pode estar mesmo confortável. Sem aquelas afetações malucas e exasperações mentirosas de quem vive a atuar, mas que o faz perante uma audiência de idiotas. Se o carnaval baixou o nível, é porque o brasileiro baixou o nível.

Um dia, isso cansa, sabe? Cansa todo mundo. Talvez, já tenha cansado faz tempo. Mas, exaustos, eles ainda tentam suportar este teatro de imbecilidades. Olhe o que Clarice Lispector escreveu naquele mesmo conto de carnaval: “E as máscaras? Eu tinha medo mas era um medo vital e necessário porque vinha de encontro à minha mais profunda suspeita de que o rosto humano também fosse uma espécie de máscara“.

O falecido carnaval, hoje bacanal, era, por si, necessário até mesmo na dinâmica divina. Carnaval, pouco se sabe, é um costume próprio de países católicos, porque é como uma “farra final” antes de se iniciar o período de penitência e sacrifício na quarta-feira de cinzas –a quaresma. Repare como tudo faz sentido na dinâmica cíclica da vida! A única coisa que não faz sentido é estar perdido numa máscara estranha de si mesmo.

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