Especial um ano da morte de Lázaro Barbosa

Relembre o personagem que assustou Águas Lindas de Goiás e região, sua trajetória de crimes e a morte no confronto com a polícia

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Dia 28 de junho de 2022 completa um ano que uma das maiores operações da polícia na busca por um foragido terminou. Lázaro Barbosa de Sousa, de 32 anos, foi morto com mais de 60 tiros em confronto com policiais militares em Águas Lindas de Goiás. Perseguido por mais de 20 dias até sua captura e morte, Lázaro acumulou uma série de crimes por onde passou.

A ‘caçada’ começou depois que ele teria assassinado quatro pessoas da mesma família em Ceilândia, no Distrito Federal, dia 9 de junho de 2021. A população da região ficou traumatizada com a onda de crimes, mas, segundo delegado Rafael Néris Barbosa, de Cocalzinho de Goiás, Lázaro foi “um ponto fora da curva” e com sua morte, a tranquilidade voltou à região e as pessoas às suas rotinas.

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Forças policiais ocupam rodovia para fiscalizar veículos na caça a Lázaro Barbosa (Foto: Arthur Menescal)
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Em 9 de junho de 2021, Lázaro invadiu um sítio em Incra 9, Ceilândia, no Distrito Federal e executou Cláudio Vidal, de 48 anos; os filhos dele, Gustavo Marques Vidal, de 21, e Carlos Eduardo Marques Vidal, de 15; e raptou Cleonice Marques, de 43, esposa de Cláudio e mãe de Gustavo e Carlos Eduardo. Ela foi morta na beira de um córrego, a tiros e facadas. A notícia do crime aterrorizou a região.

Em maio, o criminoso já havia invadido uma chácara no Entorno do DF, onde rendeu e prendeu em um quarto os homens da casa e deixou as mulheres nuas servindo comida para ele. Nenhuma pessoa da casa ficou ferida. Em abril, segundo a Polícia do Distrito Federal, ele havia estuprado uma mulher ao invadir a casa dela, na região do Sol Nascente, em Brasília. Dia 17 de maio de 2021, invadiu outra casa na região e ameaçou os moradores. Fugiu sem ferir ninguém.

Megaoperação na busca por Lázaro movimenta a cidade de Águas Lindas de Goiás (Foto: Reprodução/Metrópoles)

A onda de crimes cometidos por Lázaro antes e depois do quádruplo assassinato fez com que o terror se espalhasse na região do Entorno do DF e alertado as autoridades de segurança pública dos dois lados. Foram 20 dias de buscas intensas no meio do matagal da região, que Lázaro conhecia bem, até que acontecesse o confronto com policiais de Goiás.

Teria havido intensa troca de tiros. Lázaro teria descarregado uma pistola contra os PMs, que revidaram. Ele ainda teria chegado com vida a uma viatura do Corpo de Bombeiros, em Águas Lindas de Goiás, apesar de ter levado mais de 60 tiros. A morte dele teria acontecido a caminho do hospital.

Lázaro Barbosa ao chegar no hospital (Foto: Reprodução Metrópoles )

Para o delegado Rafael Néris Barbosa, responsável pela investigação dos crimes cometidos por Lázaro em território goiano, um ano depois da morte do criminoso, a região voltou à rotina de paz e tranquilidade. “Ele foi um ponto fora da curva. Chegou e a criminalidade aumentou muito. Antes era bastante calmo. A população ficou apavorada porque na medida em que ele fugia, ia cometendo novos crimes”, lembra.

Dos sete crimes investigados na Delegacia da Polícia Civil da cidade, todos foram encaminhados ao Judiciário, com provas contra Lázaro. Muitos processos contra ele já foram arquivados, a pedido do Ministério Público de Goiás, uma vez que o réu morreu e não tem como puni-lo por latrocínio, roubo majorado, homicídio, sequestro e cárcere privado, tentativa de homicídio e dano.

O mesmo ocorre com os crimes investigados pela Polícia Civil do Distrito Federal, exceto o quádruplo homicídio em Ceilândia, que a polícia ainda não concluiu o inquérito por acreditar que Lázaro não agiu sozinho. O caso corre em segredo de Justiça, assim como outros ainda não concluídos pela Justiça goiana e do DF.

O único indiciado, que chegou a ser preso, em junho do ano passado, foi o fazendeiro fazendeiro Elmi Caetano Evangelista, 74 anos, que morreu em março deste ano em decorrência de problemas cardíacos. A Polícia Civil goiana havia concluído que ele cometera crimes de favorecimento pessoal, ajudando Lázaro na fuga, além de acusá-lo de posse ou porte ilegal de arma de fogo.

Fazendeiro Elmi, já falecido, no dia em que foi preso por suspeita de ajudar Lázaro na fuga em Goiás (Foto: Reprodução/TV Globo)

O fazendeiro chegou a ficar no presídio público de Águas Lindas de Goiás, mas ganhou a liberdade em 16 de julho, mediante o uso de tornozeleira eletrônica. Na decisão, a juíza Luciana Oliveira de Almeida Maia da Silveira, levou em consideração a “fragilidade na saúde de Elmi” e disse não ver perigo na soltura do fazendeiro, que é idoso e tem residência fixa. Ressaltou, ainda, que a simples suspeita, sem provas de que armas e munições encontradas com Lázaro Barbosa pertenciam a Elmi, não seriam suficientes para respaldar o prolongamento da prisão.

Rafael Néris Barbosa afirma que a morte de Lázaro não atrapalhou na elucidação dos crimes, uma vez que ele foi deixando vestígios e testemunhas por onde passou. O delegado revela ainda que moradores da região ficaram traumatizados por muito tempo depois da morte de Lázaro, mas que hoje já superaram o medo e voltaram à rotina. Ele acreditava que depois do ocorrido, a região pudesse receber um reforço policial, mas isso não aconteceu. “Não aumentou o efetivo de nenhuma polícia”, lamentou.

Trajetória de Crimes

Lázaro Barbosa de Sousa começou a cometer crimes aos 20 anos, quando ainda era jardineiro, em Barra do Mendes, na Bahia. Os pais eram separados e ele morava com a mãe, Eva Maria Sousa Magalhães, que tinha problemas com um vizinho que a acusava de jogar ossos para que o gado adoecesse. Por algumas vezes, segundo depoimento de Lázaro na época, o vizinho o acusara de furtos também e sempre brigava por causa de galinhas e cães, o que continuou mesmo depois que se mudaram para outra casa.

Eva Maria de Sousa, mãe de Lázaro Barbosa (Foto: Reprodução / TV Bahia)

Lázaro parou de estudar na 7ª série do Ensino Fundamental, na época, porque a mãe, temendo alguma ação do vizinho, mandou o filho para Goiás. Ele veio trabalhar no Povoado de Girassol, município de Cocalzinho de Goiás, para onde depois a mãe se mudou também. O pai, Edenaldo Barbosa Magalhães, já havia se mudado para a localidade onde mora até hoje com uma nova família.

Nas férias de Lázaro, em abril de 2009, depois de passar o dia todo bebendo, saiu armado com uma espingarda e no caminho de volta da casa de um amigo matou duas pessoas: o antigo vizinho, que ele alega que ameaçava a ele e à mãe, Manoel Desidério Silva e o enteado dele, José Carlos Benício de Oliveira, o Carlito.

Lázaro fugiu por oito dias até se entregar à polícia. Na época entrava nas casas apenas para se alimentar e fugia novamente para o mato. Tomado pelo arrependimento, se entregou, mas teria fugido 10 dias depois. Em 16 de novembro de 2009 ele foi recolhido ao presídio, em Brasília, onde cumpriu pena de 6 anos, 4 meses e 14 dias, até fugir no dia 29 de março de 2016.

Violência aumenta com o tempo

No dia 7 de março de 2018, Lázaro foi preso em flagrante por resistência à prisão, quando estava próximo a uma panificadora no Bairro de Águas Bonitas 1, etapa B, em Águas Lindas de Goiás. Agentes do Grupo de Investigações de Homicídios (GIH) o abordaram para cumprir mandatos de prisão pelo duplo homicídio qualificado na Bahia, por latrocínio no DF e por porte de arma e tiveram trabalho para contê-lo. Ele fugiu e ao ser alcançado, só foi algemado depois que três agentes conseguiram imobilizá-lo no chão.

Levado de volta para o presídio no dia 23 de julho de 2018, permaneceu mais 4 meses e 17 dias até fugir novamente. Do total de 15 anos, oito meses e 19 dias de pena, Lázaro faltava cumprir 8 anos, 11 meses e 18 dias pelos crimes de estupro, latrocínio e porte de arma ocorridos em Ceilândia, conforme o Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios. Quando foi morto, Lázaro tinha contra si três mandados de prisão em aberto. Dois de Ceilândia (DF) e um de Barra do Mendes (BA).

No dia 8 de abril de 2020, Lázaro invadiu uma casa em Santo Antônio do Descoberto (GO), pegando de surpresa os quatro moradores idosos que jogavam dominó na varanda da casa. Ele cortou a energia do local e entrou, ameaçando e agredindo as vítimas com violência. “Além da ameaças psicológicas e do terror causado a todo momento, o denunciado restringiu a liberdade das vítimas trancando-as no quarto. Posteriormente, valendo-se de um machado danificou as janelas dos quartos, a porta da sala, da cozinha e dos fundos”, diz o processo judicial.

Ele foi denunciado pelo crime de roubo, majorado pelo emprego de violência com arma branca e restrição da liberdade das vítimas Lidelny Rocha Pimenta, Abadia Guimarães Rocha e Abadia Aparecida Duarte Guimarães e por tentativa de latrocínio contra Waldomir Belchior Guimarães, que foi atingido com um golpe de machado na cabeça, “causando-lhe uma fratura de base de crânio com traumatismo cranioencefálico, que o deixou em estado vegetativo permanente”.

Em seguida, o acusado pegou um facão e passou a agredir a vítima Lidelny no rosto, nas costas e nos braços. Ato contínuo, o denunciado subtraiu um celular smartphone, R$ 500 em espécie e um revólver calibre 38, de Lidelny, e os três celulares smartphone pertencentes às vítimas Abadia Guimarães, Valdomir e Abadia Aparecida. Este processo já foi arquivado porque foi extinta a punibilidade do réu em decorrência de sua morte.

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Rosana Melo

Rosana Melo é jornalista, vencedora dos prêmios: Prêmio AMB de Jornalismo da Associação dos Magistrados Brasileiros - Regional Centro Oeste; 13º Prêmio Embratel Regional Centro Oeste; 2º Prêmio MP-GO de Jornalismo; Prêmio OAB-GO de Jornalismo - todos em primeiro lugar e menção honrosa como finalista em dois Prêmios Esso categoria Jornal Impresso.