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Católica, Cássia Kis é acusada de intolerância religiosa

Uma das maiores atrizes do país causou revolta nas redes sociais depois de comentários sobre religião no programa Encontro, da Rede Globo

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Nem me aguento mais de tanto chorar: é que, antes de escrever matérias, os jornalistas precisam pesquisar sobre aquelas pessoas que aparecem no texto. E foi assim que descobri haver em Cássia Kis uma carreira bem mais brilhante do que poderia esperar: costurando papéis entre clássicos como Pantanal, Roque Santeiro, JK, Barriga de Aluguel, Vale Tudo e Pecado Capital, Cássia deixava os brasileiros de boca aberta enquanto mudava de aparência, personalidade e sotaque, fazendo tudo parecer fácil, extremamente fácil.

Mas foi por culpa de sua personagem em Morde e Assopra que eu engatei no choro por quase meia hora. Foi uma surpresa e tanto por não me lembrar que era Cássia, que marcou profundamente a criança que fui, com este papel no horário das sete: Dulce, uma senhora pobre e humilde, faxineira honesta, que fazia de tudo para dar do bom e do melhor a seu único filho, Guilherme (vivido por Klebber Toledo), um playboy ingrato que se envergonhava da mãe.

A criança de onze anos que chorava no sofá deu lugar à jornalista de 22 que ainda chora na escrivaninha, ao encontrar aquelas mesmas cenas do passado, presentes no Youtube. E constatei: se essa mulher não for a melhor atriz do país, então não sei quem é a melhor! Pois na última quinta-feira, 12 de maio, Cássia revelou na TV um outro lado seu: o da fé.

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No Encontro com Fátima Bernardes –que costuma ser meio insosso, com os convidados sempre falando mais do mesmo– Cássia rasgou o verbo e com ele o coração: fez questão de dizer como o catolicismo a fez nova pessoa. E, semelhante a quem acha um sentido para viver, contou: “A vida católica é linda. Eu tô muito feliz com isso. Eu fico me preparando para no domingo estar na missa […] é lindo porque é lindo mesmo. A gente sofre, mas o sofrimento ganha um novo sentido”.

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Além da professar a fé diante do país, a veterana da Globo revelou que fez um aborto em 1985, mas depois de viver papéis de grandes mães em Pantanal (a primeira Maria Marruá) e em Barriga de Aluguel, começou a repensar as decisões do passado. “Eu fiz e hoje corro atrás para as mulheres não fazerem“, confessou, em tom de arrependimento. Só isso já seria vara comprida o suficiente para cutucar a onça braba da militância feminista na internet, mas Cássia parecia pouco se importar.

E foi além: “a verdadeira fé só existe no catolicismo“, declarou, em dado momento, numa frase solta, no meio do diálogo com Fátima Bernardes, que encarava a convidada com uma “sem graceza” sem tamanho. Aí, meus amigos, ela mexeu com todo mundo: crente, espírita, budista e umbanda, e tudo o mais que você puder listar. Logo o Twitter, termômetro instantâneo dos acontecimentos mais quentes do Brasil, encheu-se de alegações de “intolerância religiosa“.

Ora, vejam só: o que ela disse é o que todo religioso, que fez opção por uma fé, deveria dizer. Certo? Aliás, é o que todos nós fazemos, mas não temos coragem de dizer que o fazemos. Pense bem… Se você acredita em A, e toma isso como sua fé, automaticamente você descrê de B, C e D. “Ah, mas eu acredito em todas as matrizes religiosas, porque todas podem ser verdade!“.

Errado de novo, meu ingenuozinho querido. Vai ver você, se pensa assim, nunca gastou muitos minutos de reflexão com isso. Verdade lógica: é racionalmente impossível que “todas sejam verdade” e estejam em pé de igualdade, ao passo que todas as religiões, se comparadas, contradizem em pelo menos algum ponto umas às outras. Exemplo: Ou Maomé é profeta, ou não é. Não dá para ser e não ser ao mesmo tempo.

É por isso mesmo que existem diversas religiões: se todas afirmassem as mesmas crenças, e os mesmos dogmas, não necessitaríamos dividi-las em dominações distintas. Então, conclui-se que a partir do momento que você assume uma para si, como sua, está, automaticamente, tomando-a como verdade, e negando todo o resto. Sentiu o impacto?

E, sinto ser a escolhida para lhe informar, mas quando você tem uma religião, e não concorda com os preceitos dela, a verdade bem verdadeira é que você não a tem como sua; coisíssima nenhuma. Na maioria dos casos, até mesmo entre os cristãos mais “tradicionais”, o que acontece é um simulacro de religião, ou seja, a “falsa ilusão” de ter alguma crença. Mas, no fritar dos ovos, o Deus é o próprio fiel: ele é de tal igreja, mas seleciona no que acreditar.

Sendo assim, meus consagrados: o fiel faz o mundo girar a seu redor, sendo o primeiro -e provavelmente o único- seguidor de si mesmo. Sendo assim, é mais fácil ficar em casa…

É por isso que, sendo católica, Cássia está mais do que certa em admitir o que fazemos e não dizemos: “a verdade está é aqui!“. Intolerância, me parece, seria não aceitar o fato de que alguém tomou como verdade uma fé, e creu completamente naquilo. Aliás, de modo algum me parece que a atriz “desrespeitou” outras religiões. Mas você pode se perguntar… por que ela falou, então? Não poderia guardar para si? Bom, se ela for mesmo fiel, não! Porque o Cristo em que crê deu esta ordem: “Ide pelo mundo e pregai o evangelho a toda criatura“.

Ora, respeitar é dar valor, e só se valoriza o que se acha correto. Ou você valorizaria alguma coisa que considera falsa? Se, você leitor, valoriza uma opinião que é totalmente o oposto da sua, é sinal que nem na sua você se garante: ela é nada mais que uma frase de efeito, usada hora ou outra sem significado real. “Respeitar” opinião alheia é uma balela! Outros quinhentos, agora sim, é respeitar o direito do outro de tê-la: e dessa linha tênue, Cássia não atravessou.

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